— Ao cúter? Para que, Malcolm?
— Outra surpresa. Vamos jantar no Prancing Cloud e passar a noite ali Haverá mais surpresas amanhã, muitas e muitas, inclusive um plano para a lua-de-mel. Sairemos dentro de uma hora; você nem precisa trocar de roupa. Mandei Ah Soh embalar algumas roupas para você, que já foram levadas para bordo. — Para Jamie, ele acrescentou: — Tem mesmo de sair? Qual é o problema?
— Marquei um encontro com Gornt e esqueci-o por completo, no excitamento. Ele espera na minha ante-sala. Pediu a Vargas para transmitir aos dois seus parabéns e também os de Norbert.
— Agradeça a ele por mim, mas não demore muito.
— Agradeça também por mim, Jamie — disse Angelique.
— Pois não, Sra. Struan.
MacFay tentava se acostumar com as palavras, achando difícil e artificial, as palavras lembrando Tess Struan, e agora ele se sentia bilioso sempre que pensava nela. No momento em que soubera do casamento, o motivo para a carta de Malcolm ao Guardian e do anúncio da noite anterior havia se tornado evidente, até mesmo a ocasião escolhida para o duelo, tudo passara a se encaixar.
Casados! Oh, Deus!
As implicações para Malcolm eram imensas. Para ele próprio, não importava que tivesse feito as pazes com Malcolm e consigo mesmo. Duvidava da possibilidade de algum dia fazer as pazes com Tess Struan. Embora ela fosse uma Struan fanática, ao mesmo tempo herdara a sede e a necessidade implacável de vingança do pai. Ele testemunhara essa vingança em cima do contramestre que comandava o barco que emborcara, afogando os gêmeos e seu segundo filho. Acusara-o de assassinato, exigindo que fosse enforcado. O juiz considerara-o culpado de negligência, causando homicídio involuntário, e lhe aplicara a pena máxima, dez anos de trabalhos forçados na prisão de Hong Kong, a que o homem não sobreviveria. Negligente? Não fora bem assim, McFay e a maioria pensaram na ocasião, a tempestade fora repentina, como costumava acontecer naquela estação, um lamentável acidente. Mas ela era Tess Struan, da Casa Nobre. O verdadeiro erro do contramestre, refletiu ele agora, com tristeza, fora ter sobrevivido e deixado as crianças morrerem.
— Angelique — disse Malcolm —, por que não vai se lavar? Farei a mesma coisa, e partiremos dentro de uma hora... só tenho umas poucas coisas para acertar com Jamie.
Os dois trocaram um beijo e ela se retirou. Malcolm disse a Chen, em cantonês, que providenciasse água quente para ele e sua esposa e acrescentou em seguida:
— Depois, iremos para o Prancing Cloud. Está tudo preparado?
— Está, sim, amo.
— Ótimo, e é melhor vocês três se manterem tão silenciosos quanto morcegos e tão contentes como porcos na bosta, mais do que nunca!
Para Tyrer, ele acrescentou, jovial, em inglês:
— Phillip, pode nos dar licença? A partir de amanhã, iniciaremos as comemorações, com banquete de casamento, e assim por diante, convites formais. Por favor, transmita meus cumprimentos a Sir William e não conte a ninguém que passaremos esta noite no Prancing Cloud... nem mesmo a Sir William. Não quero faceiros bêbados circulando o navio durante toda a noite. Desejamos ter privacidade, entende?
— Claro que entendo, e mais uma vez meus parabéns.
Tyrer sentiu-se satisfeito por sair dali. Ainda precisava se reunir com Hiraga para concluir outro despacho brusco para o tairo Anjo, antes de poder atravessar a ponte ao encontro de Fujiko. Depois do conselho de guerra naquela manhã, entre William e Seratard, com a presença dele e André, na qual haviam sido definidos os detalhes finais para o iminente bombardeio e a campanha punitiva contra Iedo.
André lhe sussurrara:
— Já acertei tudo. Fujiko está ansiosa em vê-lo. Até insiste em lhe servir um banquete japonês. Portanto, chegue lá com fome e com sede, mas não esqueça de bancar o durão.
Depois que os outros saíram, um pouco da fadiga de Malcolm transpareceu.
— Jamie, pode me servir um copo? Obrigado. Tudo foi organizado?
— Para esta noite, sim, e para amanhã também. Ah Tok e Ah Soh já se encontram a bordo, com os baús, Chen irá com você e a Sra. Struan. Até onde posso determinar, só eles, Strongbow, eu e agora Phillip sabem que vocês dormirão no Prancing Cloud.
— Ótimo. Phillip foi um erro, mas não importa. Eu me deixei levar pela exuberância, mas não deve haver problemas. Não creio que ele fale. O que Gornt quer?
— Apenas acertar os detalhes finais. — McFay fitou-o nos olhos. — Seu casamento não deve fazer uma diferença agora?
— Poderia, mas não fará, a menos que Norbert peça desculpas.
— Gornt queria trocar uma palavra com você em particular, se tiver um momento disponível.
— Está certo. Diga a ele para vir me falar agora, e depois acerte os últimos detalhes.
A cordialidade de Gornt povoou a sala. Para Malcolm, ele parecia um velho companheiro.
— Champanhe?
— Obrigado, tai-pan. Posso lhe dar os parabéns?
— Claro que pode. Saúde!
— À sua também, senhor.
— Desculpe, mas precisamos ser rápidos. Teremos bastante tempo amanhã. Qual é o problema?
— Eu queria lhe dizer, em particular, que o Sr. Greyforth vai aceitar um acordo. Não haverá duelo.
Struan sorriu.
— É a melhor notícia que recebi... não, a segunda melhor notícia que tive hoje!
— Tem razão. — Gornt franziu o rosto. — Se ele fala sério.
— Como assim?
— Acho que deve se preparar para uma traição. Lamento ser um balde de água fria num grande dia, mas queria alertá-lo. Sei que ele vai mudar de idéia.
Malcolm observou-o em silêncio por um instante, depois balançou a cabeça, imperturbável.
— Com Norbert e todos os Brocks, esperamos a traição a qualquer momento — Eles bateram seus copos. — Saúde... e riqueza... e felicidade!
A sala parecia cheia de calor para ambos, mas Malcolm notou algo estranho em Gornt, e não pôde determinar o que era.
— Ainda planeja me dar amanhã a informação de que preciso?
— Claro. — Gornt levantou-se. — E meu contrato?
— Já ficou pronto. Minha assinatura pode ser testemunhada amanhã.
— Obrigado. Até amanhã, e mais uma vez meus parabéns.
Outra vez Malcolm sentiu algo mais que um estranho humor nele.
— Aguarda a ocasião com a mesma ansiedade que eu.
Os olhos de Gornt pareceram entrar em foco.
— É isso mesmo. Será outro grande dia, com um final e um começo.
Lá em cima, Angelique se postava diante do espelho, virando distraída o anel de sinete em seu dedo. Estava sozinha pela primeira vez naquele dia, na privacidade de seu quarto, com a porta trancada, e o clamor das verdades e paradoxos a dominara abruptamente, assim que sentara: tudo acontecia muito depressa, casada, mas sem esperar por isso, nunca daquela maneira, não a bordo de um navio, esperando e rezando, mas não acreditando que fosse possível, tantos eram os obstáculos entre os dois; casada, mas não aos olhos de Deus, casada com um homem que me empenhei em conquistar, persegui com denodo, e encorajei a me perseguir; o homem a quem adoro, mas que enganei — o estupro não foi culpa minha, o aborto era necessário, os brincos o único recurso, o sigilo a maneira de proteger minha vida, mas ainda assim trapaceei —, esse homem, que me ama até a loucura, arriscando tudo, de quem roubei, a quem enganei e atraí para um leito nupcial maculado, e no entanto...