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— Obrigada. Não, não estou cansada. A barca que me trouxe de Iedo é confortável e não estava muito cheia, o mar se manteve sereno, e minhas criadas providenciaram para que o capitão atendesse a todos os meus desejos.— Meikin chegara aos cais da aldeia pouco antes do anoitecer. — Posso perguntar o que sugere?

— Temos gueixas, mas não à altura de seus padrões. Há alguns jovens que podem ser adequados. — Os olhos de Raiko faiscaram com seu sorriso, recordando os bons tempos da juventude. — Ou talvez uma maiko?

Meikin riu, tomou outro gole de conhaque.

— Isso seria uma diversão agradável, e me lembraria dos velhos tempos Raiko-chan. Ela me ajudará a pensar, me ajudará a verificar se posso lhe fornecer o que precisamos. Boa idéia. E concordo que já falamos sério o bastante por enquanto. Vamos conversar agora sobre os tempos áureos, como andam os negócios, e como vai seu filho.

— Ele está bem, ainda subindo na escada da Gyokoyama.

— Posso interceder junto a eles... embora sem dúvida isso seja desnecessário. Um excelente banco, o melhor, obtenho os juros mais altos, e meus depósitos são diversificados, como segurança... a fome se aproxima, e por isso tenho investido muito no arroz futuro. Seu filho tem vinte e quatro anos, neh?

— Vinte e seis. E sua filha?

— Graças a todos os deuses ricos e pobres, consegui casá-la com um goshi, e assim seus filhos serão samurais. Ela já tem um menino, mas o marido é muito dispendioso! — Meikin balançou a cabeça de um lado para outro, depois riu. — Mas não devo me queixar. Apenas converto os pingos imprestáveis de uns poucos velhos ricos numa herança que nunca sonhamos possível. Neh?

O som de passos misturou-se ao das risadas. Uma batida na porta de shoji.

— Ama?

— O que é, Tsuki-chan?

A maiko entreabriu a porta, de joelhos, fitou-as com um sorriso inocente.

— Sinto muito, mas shoya Ryoshi, o ancião da aldeia, suplica ser recebido, e ser seu hóspede.

Raiko franziu as sobrancelhas.

— Meu hóspede?

— Isso mesmo, ama.

Meikin também franziu o rosto.

— Ele costuma saudar visitantes?

— Só os mais importantes, e sem dúvida você é importante, e sua presença uma honra para todos nós. Com toda certeza, ele foi informado de sua chegada. Sua rede de informações é ampla, Meikin-chan, e ele merece confiança absoluta... e ainda por cima é o chefe da Gyokoyama em Iocoama. Vamos recebê-lo?

— Está certo, mas apenas por um momento. Fingirei uma dor de cabeça e, depois, poderemos continuar nossa conversa até a refeição noturna.

— Pequena — disse Raiko —, traga o shoya aqui, mas antes avise às criadas para providenciarem chá fresco e saquê quente... e tirarem estes copos, esconderem meu conhaque. Meikin-chan, se ele soubesse que tenho uma garrafa, seria uma presença diária!

Tudo foi feito depressa, a mesa se encontrava limpa e perfeita, os hálitos das duas purificados com ervas, antes do shoya entrar e fazer uma reverência.

— Por favor, damas, peço desculpas — disse ele, com uma ansiedade inconveniente, ajoelhando-se. — Por favor, perdoem meus péssimos modos, chegando sem marcar encontro, mas queria prestar minha homenagem a uma figura tão augusta, e dar as boas-vindas à minha aldeia.

Ambos ficaram surpresas por ele parecer tão solene, já que aquela não era uma ocasião formal. Meikin nunca o encontrara antes, mas seu contato na Gyokoyama o mencionara, garantindo que se tratava de um homem de integridade. Por isso, sua resposta foi tão polida e entusiástica quanto convinha a uma pessoa eminente da maior cidade do mundo, cumprimentando-o pela situação da Yoshiwara, e o pouco que vira da aldeia.

— É um homem de grande reputação, shoya.

— Obrigado, obrigado.

— Chá ou saquê? — perguntou Raiko.

Ele hesitou, fez menção de falar, parou. O clima na sala mudou. Raiko rompeu o silêncio:

— Por favor, shoya, desculpe-me, mas qual é o problema?

— Sinto muito... — Ele olhou para Meikin. — Sinto muito, dama, é uma cliente muito prezada por nossa companhia... Eu...

O shoya enfiou a mão trêmula na manga, tirou um pedaço de papel, estendeu para ela. Meikin contraiu os olhos.

— O que é isto? O que diz aqui? Não consigo ler uma escrita tão pequena.

— É uma men... uma mensagem de pombo-correio.

O shoya tentou falar de novo, não foi capaz, apontou para o papel, atordoado.

Sobressaltada, Raiko pegou-o, aproximou-o da luz. Seus olhos correram pela escrita pequena. Ela empalideceu, ficou tonta, quase desfaleceu, arriou sobre os joelhos.

— Diz aqui: Uma tentativa de assassinato contra lorde Yoshi, ao amanhecer, na aldeia Hamamatsu, fracassou. A assassina shishi solitária foi morta por ele. A dama Koiko também morreu na luta. Comunique nossa grande tristeza à casa a Glicínia. Mais informações assim que for possível. Namu Amida Butsu...

Meikin também empalideceu. Balbuciou “Koiko morta?”, sem que nenhum som saísse.

— Deve ser um engano! — exclamou Raiko, angustiada. — Só pode ser! Koiko morta? Quando aconteceu? Não há data! Shoya, como... Deve ser mentira, só pode ser mentira...

— Sinto muito, mas a data está em código no alto — murmurou ele. Aconteceu ontem, perto do amanhecer. Em Hamamatsu, uma estação de posta na Tokaidô. Não há engano, dama, sinto muito.

Namu Amida Butsu! Koiko? Koiko morta?

Meikin fitou-a, as lágrimas escorrendo pelas faces, e desmaiou.

— Criadas!

Elas vieram correndo, trouxeram sais de cheiro e toalhas molhadas, cuidaram de Meikin e de Raiko, que tentava recuperar o controle, a fim de determinar como aquilo a afetaria. Pela primeira vez não tinha certeza se devia continuar a confiar em Meikin, ou se a amiga se tornara um risco, e devia ser evitada.

O shoya continuava ajoelhado, imóvel. Fora necessário — e ainda era — que ele fingisse estar assustado e consternado por ser o portador de más notícias, mas no fundo sentia-se contente por estar vivo para testemunhar aqueles acontecimentos espantosos.

Não mostrara a segunda mensagem. Era só para ele, em código, e dizia: Assassina era Sumomo. Acredita-se que Koiko estava implicada na conspiração, foi ferida com shuriken e depois decapitada por Yoshi. Prepare-se para encerrar as contas de Meikin. Evite mencionar Sumomo. Proteja Hiraga como um tesouro nacional, suas informações são de valor inestimável. Pressione-o por mais, sua família está sendo refinanciada, como foi combinado. Solicitamos com urgência os planos de guerra dos gai-jin, a qualquer custo.