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No momento em que recebera a mensagem, ele verificara em seus livros as contas de Meikin, calculando o que sua sucursal lhe devia, embora conhecesse a quantia com precisão. Não precisava se preocupar com essa parte. Quando ela fosse despachada para o outro mundo por lorde Yoshi, ou se conseguisse escapar da armadilha, de qualquer forma o banco lucraria. Se ela morresse, outra mama-san tomaria seu lugar, e usariam o que restasse de sua riqueza para financiar a substituta. A Gyokoyama monopolizava todas as operações bancárias na Yoshiwara, uma imensa e permanente fonte de receita.

Como a vida é irônica, pensou ele, especulando o que aquelas duas pensariam se conhecessem o motivo para o controle indissolúvel da Gyokoyama. Um dos maiores segredos da zaibatsu era o fato de ter sido fundada não apenas por uma mama-san, mas também uma mulher de gênio.

No início do século XVII, com a aprovação entusiástica do xógum Toranaga, ela projetara um distrito murado, onde no futuro todas as casas de prazer de Iedo, altas e baixas, teriam de conduzir seus negócios, exclusivamente — naquele tempo, os bordéis espalhavam-se por toda a cidade —, um lugar chamado Yoshiwara, a área dos juncos, que fora oferecido por Toranaga. Depois, ela criara uma nova classe de cortesãs, as gueixas, treinadas e qualificadas nas artes, que não eram disponíveis para o travesseiro, em caráter rotineiro.

Mais tarde, ela passara a emprestar dinheiro, concentrando-se na Yoshiwara de Iedo, para em seguida estender seus tentáculos a todas as outras, à medida que eram institucionalizadas por todo o país, já que o xógum Toranaga previra, sabiamente, que em tais distritos as prestadoras de serviços e seus clientes seriam controlados e taxados com mais facilidade.

Por último, o que fora incrível naquele tempo, ela persuadira o xógum Toranaga — ninguém sabia ainda como — a fazer de seu filho mais velho um samurai. Em pouco tempo, seus outros filhos prosperaram: na construção de barcos, como mercadores de arroz, fabricantes de saquê e cerveja, e seus descendentes eram hoje proprietários ou silenciosos controladores de uma vasta rede de negócios. Em poucos anos, ela obtivera permissão para que o ramo samurai assumisse o nome de Shimoda. Agora, o Shimoda era daimio hereditário do pequeno, mas próspero feudo do mesmo nome, em Izu. Fora ela quem escolhera a inscrição sobre o portão da Yoshiwara: O desejo não pode esperar, deve ser satisfeito. Morrera aos noventa e dois anos de idade. Seu nome de mama-san era Gyoko, dama sorte.

Shoya — disse Meikin, entre soluços —, por favor, aconselhe-me sobre o que devo fazer.

— Deve esperar, dama, ser paciente e esperar — respondeu ele, hesitante, ainda exibindo sua máscara de apreensão.

Também notou, de imediato, que os soluços podiam ser mais altos e mais desesperados, mas os olhos se mostravam mais impiedosos do que jamais os vira.

— Esperar? Esperar pelo quê? Esperar, é claro, mas o que mais?

— Ainda não sabemos de tudo, não conhecemos os detalhes, dama, o que de fato aconteceu. Sinto perguntar, mas há alguma possibilidade de que a dama Koiko participasse da conspiração?

Ele cravava e torcia uma faca no ferimento já aberto, pelo puro prazer do tormento. Embora a Gyokoyama não tivesse provas, desconfiava que Meikin dispensava perigoso apoio a sonno-joi, e tinha ligações com o Corvo — contra as advertências indiretas deles —, outro motivo para que fosse aconselhada a comprar arroz futuro, não apenas como um investimento sensato, mas também como uma precaução do banco contra uma possível acusação e condenação.

— Koiko numa conspiração? Minha beleza, meu tesouro? Claro que não! — explodiu Meikin. — De jeito nenhum!

— Meikin-san, pode ter certeza de que lorde Yoshi, ao voltar, mandará procurá-la, como a mama-san de Koiko. E para o caso, sinto muito ter de dizer isso, para o caso de inimigos terem sussurrado contra você, seria sensato ter... ter prontos símbolos de... de seu respeito.

Não havia razão para qualquer das mulheres perguntar que inimigos. O sucesso gerava a inveja e ódios secretos por toda parte — em particular entre os melhores amigos —, e no mundo flutuante, um mundo só de mulheres, mais que em qualquer outro lugar. E as duas eram bem-sucedidas.

Meikin já superara o choque inicial e sua mente se concentrava nos meios de escapar — caso Yoshi desconfiasse, ou Koiko a tivesse denunciado, ou ele tivesse provas de que tanto ela quanto Koiko apoiavam sonno-joi, os shishi, e conheciam Katsumata. Não havia nenhuma maneira real de escapar, nem para outra identidade, nem para outro lugar, pois o Nipão era todo muito bem compartimentado. Por toda a terra, dez chefes de família constituíam a unidade básica responsável por seu próprio comportamento e obediência à lei, dez dessas unidades formavan outro agrupamento, também responsável, dez agrupamentos formavam outro e assim por diante, até o supremo mandante das leis, o daimio. Portanto, ela não podia fugir para parte alguma, não tinha onde se esconder.

— O que eu poderia dar ao grande lorde Yoshi? — indagou Meikin, a voz rouca, sentindo-se mais desesperada do que nunca antes.

— Talvez... talvez informações.

— Que tipo de informações?

— Sinto muito, mas não sei — respondeu o shoya, com uma tristeza simulada.

Amanhã poderia ser diferente, mas naquela noite ele ainda precisava fingir, manter as aparências, independentemente do que pensasse da estupidez das duas! Pois era uma estupidez abraçar a sedição com um pênis, ainda mais quando os possuidores shishi eram poucos, e quase todos estavam sendo dispersados ou mortos, continuando a cometer o mais imperdoável dos pecados: o fracasso.

— Não sei, dama, mas lorde Yoshi deve estar preocupado, bastante preocupado, com o que a infame esquadra dos gai-jin pode fazer. Eles se preparam para a guerra, neh?

No momento em que disse isso, ele percebeu que os olhos de Meikin se tornaram ainda mais frios, fixados em Raiko, que corou um pouco. Ah, pensou ele, exultante, elas já sabem... e não podia deixar de ser assim, já que deitam com os abomináveis gai-jin! Por todos os deuses, se existem deuses, o que elas sabem a Gyokoyama deve saber também, e o mais depressa possível.

— Essa notícia pode... atenuar a dor de lorde Yoshi — acrescentou ele, balançando a cabeça, com o ar sensato de banqueiro. — E também a sua.

A meia centena de passos de distância, numa habitação dentro dos muros, no meio dos jardins, Phillip Tyrer sentava de pernas cruzadas, de banho tomado, repleto de comida e saquê, nu sob o yukata, e num estado de êxtase. Fujiko ajoelhava-se por trás, as mãos experientes massageando os músculos de seu pescoço, encontrando os pontos de prazer e dor. Ela usava um yukata de dormir, os cabelos soltos, e agora chegou mais perto, mordeu delicadamente o lóbulo de sua orelha, perto do centro, o ponto mais erótico. Sua língua aumentou o prazer de Tyrer ainda mais.

Os dedos se insinuaram sensuais por seus ombros, em movimentos rápidos, dissipando suas preocupações, as reuniões com Sir William e Seratard, ajudando seu chefe a lidar com aquele francês e suas constantes e insidiosas tentativas de conquistar uma vantagem, por menor que fosse, quando a verdade, pensara ele, que o homem contava apenas com dois navios medíocres, quando nós temos uma esquadra inteira de navios de primeira linha, tripulados por homens, não por sicofantas.