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Ele ouvira rumores sobre um iminente duelo. Era o tipo de aventura tola a que Struan seria precipitado por seu orgulho, um problema a resolver antes da partida, qualquer coisa para humilhar os Brocks, quando todos sabem que deveríamos fazer as pazes, a rivalidade já foi longe demais, eles estão em ascendência, e nos sufocando por todos os lados. Estaremos hasteando a bandeira deles no Natal? Por Deus, espero que não!

O jovem idiota não saiu ao pai, muito menos ao avô. Ah, que homem aquele! Strongbow navegara diversas vezes com Dirk Struan, negociando ópio ao long da costa chinesa, primeiro como um aprendiz, depois como ajudante do artilheiro e terceiro-piloto, sob o comando de Stride Orlov, o Corcunda... comandante da frota de clíperes abaixo do tai-pan.

Ele viu Malcolm passar o braço em torno da moça, que se aconchegou ainda mais, e seu coração se confrangeu pelos dois. Era difícil crescer, difícil ser o tai-pan da Casa Nobre, ou quase o tai-pan, com um avô assim... e com uma mãe assim. Decidido, ele atravessou o tombadilho superior e olhou na direção do mar. O primeiro-piloto seguiu-o. Ambos levantaram os olhos para as velas recolhidas, onde se empoleiravam umas poucas aves marinhas, gritando. Uma delas mergulhou lá de cima, e eles a acompanharam até que desapareceu na escuridão, para a pescaria noturna. Outra seguiu-a, também silenciosamente.

Malcolm e Angelique não haviam saído do lugar, perdidos em sua serenidade. A ampulheta de meia hora na ponte de comando se esvaziou. No mesmo instante, o oficial de vigia virou-a, e tocou seis badaladas. Onze horas da noite. O som foi repetido por outros navios na baía. Os dois saíram de seu devaneio.

— Já é hora de descer, Angel?

— Daqui a pouco, meu amado. Chen disse que nos avisará quando o camarote ficar pronto.

Ela pensara várias vezes nisso desde que Malcolm indagara se não gostaria de casar hoje... Angelique sorriu, beijou-o no queixo, preparada, em paz.

— Sabe, meu querido marido, prometo que teremos uma vida maravilhosa. Não sentirá mais dor, e vai recuperar toda a sua forma física. Promete?

— Mil vezes... minha esposa querida.

Mais aves marinhas alçaram vôo do cordame. Chen subiu e disse que tudo ja fora arrumado como o tai-pan ordenara. Malcolm declarou, em cantonês:

— Lembre-se de uma coisa: não acorde a tai-tai quando for me chamar. Tai-tai significava suprema do supremo, primeira esposa... que era a suprema lei dentro de qualquer casa chinesa, assim como o marido era supremo lá fora.

— Durma bem, amo, dez mil filhos, miss.

— Tai-tai — corrigiu Malcolm.

— Dez mil filhos, tai-tai.

— O que estavam falando, Malcolm? — indagou ela, sorrindo.

— Ele lhe desejava um feliz casamento.

Dohjeh, Chen — disse ela. Obrigada.

Chen esperou até que os dois se despedissem dos oficiais do navio e descessem, Malcolm usando apenas uma bengala, apoiando-se em Angelique com a outra mão. Ah, pensou ele, encaminhando-se para a passagem do castelo de proa, que todos os deuses, grandes e pequenos, protejam o amo, e lhe proporcionem uma noite que compense toda a dor, passada e futura, mas primeiro se lembrem de mim e de meus problemas, e expliquem ao ilustre Chen e à tai-tai Tess que nada tive a ver com esse casamento. Do tombadilho superior, Strongbow observou Chen descer.

— Todos os criados já foram deitar?

— Pusemos redes na sala de velas de boreste. Ficarão bem ali, a menos que enfrentemos uma tempestade.

— Ótimo. Não quer tomar seu chá agora, mister?

— Quero, sim, obrigado. Voltarei mais alerta.

O primeiro-piloto tinha naquela noite o turno de vigia de meia-noite às quatro horas da madrugada e desceu do tombadilho superior em passos ágeis. O camarote ficava na extremidade do corredor da popa. A porta estava fechada. Ele ouviu o barulho da tranca sendo empurrada. Sorrindo, assoviando silenciosamente uma jiga, ele seguiu para a cozinha.

Malcolm encostou-se na porta, palpitando de expectativa, determinado a andar sem ajuda até o leito nupcial. Angelique parara ao lado do beliche e o fitava. O camarote fora todo arrumado. E aquecido. A enorme mesa de jantar e as cadeiras eram presas no chão. Assim como o beliche espaçoso, também preso no chão, cabendo duas pessoas sem qualquer problema, outra das leis do tai-pan. Era alto, e a cabeceira se situava bem no centro da antepara da popa, com proteções de lona contra o balanço do navio, quando navegassem com todas as velas içadas. Agora, estavam dobradas. Havia a bombordo um pequeno banheiro e vaso sanitário, e a boreste um armário para roupas. De uma viga do teto pendia um lampião a óleo, projetando sombras agradáveis.

Os dois hesitavam, inseguros.

— Angel...

— O que é, chéri?

— Eu amo você.

— Também amo você, Malcolm. E me sinto muito feliz.

Ainda assim, nenhum dos dois se mexeu. O xale de Angelique caíra um pouco, revelando os ombros e o vestido verde-claro, de cintura alta, ao estilo Império, as dobras de seda se acumulando sob o busto, que subia e descia, no ritmo de seu coração. O vestido era a mais avançada haute couture, tirado do último número de L’Illustration enviado por Colette, ainda não em plena voga, ousado na sua simplicidade. Quando ela se apresentara para o jantar, os dois homens — Malcolm e Strongbow, como convidado — não puderam conter um murmúrio de admiração.

Os olhos dela eram espelhos dos olhos de Malcolm, e agora, incapaz de suportar a expectativa e a necessidade dele, que parecia se projetar, envolvê-la e sufocá-la. Angelique correu para seus braços. Ardente. O xale caiu no convés, sem ser notado. Um pouco tonta, ela sussurrou:

— Vamos, chéri...

Pegou-a pela mão e sustentou parte de seu peso. Fez outra prece silenciosa por ajuda, aniquilando o passado e o futuro, para se abandonar por completo ao presente, e conduziu-o para o beliche, determinada a ser tudo o que ele desejava e esperava. Desde a cerimônia súbita e inacreditável hoje, Angelique vinha planejando para aquele momento, para o seu papel, analisando suas próprias idéias e o que Colette contara sobre a maneira como algumas damas da corte se comportavam na primeira noite:

— É importante, Angelique, ser a guia, controlar o garanhão como uma boa amazona deve fazer, com mãos fortes, rédea curta, com firmeza, mas também com gentileza, para remover a violência inicial até mesmo do mais dócil dos maridos, para atenuar a dor. Esteja preparada...

A impaciência de Malcolm era tremenda, as mãos enormes vagueavam por toda parte, os lábios se mostravam fortes e insistentes.