Ela despertou subitamente, pensando que experimentara outro terremoto. O camarote se encontrava às escuras, a única claridade era a chama mínima do lampião, balançando um pouco. E depois ela se lembrou de tê-lo diminuído, e compreendeu que o som que a acordara era do sino do navio, e não o da catedral durante o terremoto de seus sonhos. Agora, o terremoto era apenas o balanço do navio, sem nada do pesadelo. E depois, vendo-o estendido ao seu lado, experimentou um amor profundo, diferente de qualquer coisa antes, sabendo que estavam casados, e que isso também não era um sonho.
Quatro badaladas? Duas ou seis horas da manhã? Não, sua tola, não pode ser, pois neste caso haveria claridade além das vigias, e Malcolm dissera que precisava desembarcar antes de poderem levantar âncora, a caminho da civilização, para enfrentar o dragão em seu covil... não, para cumprimentar uma sogra que vou envolver e seduzir, que logo vai me amar, e se tornar a avó perfeita.
Ela observou-o na semi-escuridão. Malcolm dormia de lado, a cabeça aninhada no braço direito, o rosto sem as linhas da preocupação, a respiração suave, o corpo quente, com seu cheiro viril e agradável. Este é meu marido, eu o amo, sou apenas dele, o outro nunca aconteceu. Como sou afortunada!
Sua mão começou a tocá-lo. Ele se mexeu. Também estendeu a mão para ela. Não de todo desperto, ele murmurou:
— Olá, Angel.
— Je t’aime.
— Je t’aime aussi.
A mão de Malcolm procurou-a. Ela reagiu. Apanhado de surpresa, ele virou-se para Angelique, prendeu a respiração, quando uma dor intensa saltou para o fundo de seus olhos. Depois a dor passou, ele exalou.
— Je t’aime, chéri. — Ela inclinou-se para beijá-lo, e sussurrou entre os beijos: — Não, não se mexa, continue deitado assim, fique quieto.
Angelique soltou uma risadinha e acrescentou, a voz rouca de desejo:
— Fique imóvel, mon amour.
Em momentos, a paixão dominou-o. Excitado e vidrando, tudo esquecido, ora a sensualidade partilhada, ora os movimentos bem lentos, ora mais rápidos, outra vez lentos, mais profundos, a voz gutural de Angelique a instá-lo, ele reagindo, e continuando sempre, sem parar, cada vez mais forte, todas as suas glândulas, músculos e anseio se concentrando, até que ela ficou próxima, muito próxima, se afastando, próxima de novo, enlaçando-a, ajudando-a, arremetendo, até sentir o corpo de Angelique se desvanecendo, seu peso desaparecer, tudo sumir, e ela arriou por cima dele, com seus espasmos e gritos, fazendo com que a penetrasse ainda mais fundo, o corpo de Malcolm se comprimindo contra o dela por vontade própria, descarregando por vontade própria, até que passou o último espasmo, frenético, bem-vindo, e todos os movimentos cessaram.
Apenas respirações ofegantes se misturavam, o suor se misturava, os corações se misturavam.
Depois de algum tempo, Malcolm se tornou consciente. O peso adormecido de Angelique em seu peito não era nada. Ele continuou deitado assim, em espanto, vibrante, eufórico, um braço a mantê-la segura na posição, sabendo que ela era tão bela quanto uma esposa podia ser. A respiração de Angelique esfriava suas faces, longa, lenta, profundamente. Ele tinha a cabeça lúcida, uma visão clara do futuro, sem qualquer resquício de dúvida. Com uma segurança absoluta de que acertara ao casar com ela, certo de que agora poderia encerrar o conflito com sua mãe, e juntos destruiriam os Brocks, assim como ele acabaria com Norbert, acabaria com as vendas de ópio e canhões, persuadiria Jamie a permanecer e dirigiria a Struan como devia ser dirigida... como o tai-pan gostaria que fosse dirigida. Até que, com o passar do tempo, cumpriria seu dever, e faria com que a Casa Nobre voltasse a ser a primeira na Ásia, para entregá-la ao próximo tai-pan, o primogênito, a quem dariam o nome de Dirk, o primeiro de muitos filhos e muitas fílhas.
Por quanto tempo ficou assim, ele não sabia, com uma suprema confiança, transbordando de alegria e êxtase, seus braços a envolvê-la, amando-a, aspirando sua respiração, mais feliz do que jamais se sentira, do que jamais poderia se sentir, seus lábios dizendo a ela que a amava, a mente o levando ao sono, em bem-aventurança, para longe da recordação daquela terrível, maravilhosa, angustiante suprema explosão de imortalidade, que parecera dilacerá-lo por completo.
45
Quarta-feira, 1O de dezembro:
Ao amanhecer cinzento, Jamie McFay subiu apressado do cais da cidade dos bêbados, e virou a esquina. Avistou Norbert e Gornt na terra de ninguém, esperando onde deveriam esperar, notando sem interesse a pequena valise na mão de Gornt, que devia conter as pistolas de duelo que haviam combinado. Além dos três — e enxames de moscas —, o vazadouro fétido e cheio de mato se encontrava deserto. Ele não cruzara com ninguém, exceto bêbados encolhidos e roncando nos cantos de barracos, estendidos em bancos, ou no chão. E não reparara neles.
— Desculpem — balbuciou ele, esbaforido. Como os outros dois, também usava uma sobrecasaca e chapéu, contra o ar frio e úmido do amanhecer. — Lamento o atraso, mas...
— Onde está o tai-pan da Casa Maldita? — indagou Norbert, grosseiramente, empinando o queixo. — Ele é covarde ou o quê?
— Vá se foder! — berrou Jamie, o rosto tão branco quanto o céu nublado. — Malcolm morreu! O tai-pan está morto!
Ele viu-os se desmancharem em espanto e também ainda não podia acreditar.
— Acabo de voltar do navio. Fui buscá-lo antes do amanhecer, pois eles... ele passou a noite a bordo do Prancing Cloud. Estava...
As palavras lhe faltaram. As lágrimas afloraram, e ele recordou toda a cena, Strongbow na amurada, pálido e assustado, gritando, antes mesmo que ele subisse a bordo, que o jovem Malcolm morrera, que mandara seu cúter buscar um médico, mas o tai-pan já estava morto.
E depois a subida pelos degraus. Notara Angelique encolhida num canto do tombadilho superior, envolta por cobertores, o primeiro-piloto ao lado, mas passara apressado pelos dois, rezando para que não fosse verdade, para que fosse apenas um pesadelo, antes de descer.
Encontrara o camarote todo iluminado. Malcolm estava deitado de costas no beliche. Os olhos fechados, sereno na morte, sem preocupações, um lençol levantado até o queixo. Ocorrera a Jamie que o amigo parecia como nunca o vira antes, numa paz suprema.
— Foi... foi Chen... — dissera Strongbow, falando num fluxo rápido, transtornado — ...foi o criado Chen quem o encontrou assim, Jamie. Veio acordá-lo há uns dez ou quinze minutos, Jamie, e o descobriu... pode-se destrancar a porta por fora, como acontece na maioria dos camarotes de navios... ele abriu a porta, viu os dois dormindo, como pensou. Ela dormia, mas não Malcolm. Ele sacudiu-o, percebeu que Malcolm estava morto, e quase morreu também. Saiu correndo, foi me chamar, e a esta altura ela já acordara. A pobre coitada não parava de gritar desesperada, gritava tanto que deixava todo mundo nervoso, tirei-a do camarote mandei que o primeiro-piloto cuidasse dela e voltei para cá, mas não havia qualquer equívoco, pobre rapaz, ele estava como você o vê agora, só que fechei seus olhos, mas olhe... olhe isso...