Tremendo, Strongbow puxara o lençol. Malcolm estava nu, a parte inferior do corpo numa poça de sangue, já ressequido agora, formando uma crosta, o colchão encharcado.
— Ele... deve ter sofrido uma hemorragia, só Deus sabe por que, mas suponho...
— Oh.Deus!
Jamie cambaleara para uma cadeira, praguejara, atordoado. Malcolm?
— O que vou fazer agora? — perguntara a si mesmo, desolado.
A voz de Deus ressoara pelo camarote, na resposta:
— Empacote-o em gelo e mande-o para casa!
Assustado, ele se levantara de um pulo. Strongbow o fitava, perplexo, e no mesmo instante Jamie compreendera que fora o capitão que respondera, sem ter percebido que ele próprio fizera a pergunta em voz alta.
— Isso é tudo o que pode dizer, pelo amor de Deus? — gritara ele.
— Desculpe, Jamie, não tive a intenção... não queria... — Strongbow enxugara o suor da testa. — O que você quer que eu faça?
Depois de outro século, os ouvidos ainda ressoando, a cabeça latejando, ele murmurara:
— Não sei.
— Normalmente, nós o sepultaríamos no mar, pois não posso manter... mas você pode sepultá-lo em terra... o que quer que eu faça?
A mente de Jamie parecia funcionar muito devagar. Só então notara Ah Tok, agachada perto do beliche, pequena, uma velha megera agora, balançando sobre os calcanhares, a boca se mexendo, mas sem que qualquer som saísse.
— Ah Tok, pode subir agora, não há nada que possa fazer aqui, está certo?
Ela não lhe prestara qualquer atenção. Continuara a se balançar para a frente e para trás, a boca se mexendo em silêncio. Ele tentara de novo, mas fora em vão. Acrescentara para Strongbow:
— É melhor você esperar aqui, até a chegada de Babcott ou Hoag.
Ele tornara a subir, fora se ajoelhar ao lado de Angelique, ainda no escuro antes do amanhecer. Mas ela também não respondera, por mais ternamente que falasse, dizendo como lamentava, que gostaria de ajudá-la. Por um instante, ela ainda levantara os olhos, sem reconhecimento, enormes olhos azuis na brancura do rosto, depois voltara a se encolher dentro dos cobertores, olhando sem ver para o convés.
— Vou desembarcar, Angelique, desembarcar. Está me entendendo? E... é melhor contar a Sir William, entende?
Ela acenara com a cabeça apática, e Jamie a tocara como um pai faria. Antes de deixar o navio, ainda dissera a Strongbow:
— Ponha a bandeira a meio mastro, todos os tripulantes devem permanecer a bordo, sua ordem de zarpar está cancelada. Voltarei assim que puder. E acho melhor não tocar em cada, até a chegada de Babcott ou Hoag.
Voltando para a praia, ele experimentara uma náusea violenta, e agora se descobria diante de Norbert e Gornt. Gornt estava chocado, e os olhos de Norbert faiscaram. Em meio à sua angústia, ouviu-o dizer:
— Malcolm está morto? Mas como ele morreu?
— Não sei — respondeu Jamie, meio sufocado. — Mandamos chamar Babcott, mas parece que foi uma hemorragia. Agora, tenho de comunicar a Sir William.
Ele se virou para ir embora, mas a risada escarninha de Norbert deteve-o.
— Está querendo dizer que o jovem patife morreu fodendo? Morreu em ação? Vim aqui para matá-lo, mas ele se fodeu ao passar pelos portais de pérola? O velho Brock vai ter um acesso de riso...
Cego de raiva, McFay desferiu um golpe, o punho direito acertando o rosto de Norbert, que cambaleou para trás. McFay errou um violento uppercut com a esquerda, perdeu o equilíbrio, caiu de joelhos. Norbert virou-se com a agilidade de um gato, berrando em fúria, o rosto ensanguentado, o nariz achatado, e deu um chute contra a cabeça de Jamie. Aponta de sua botina atingiu a gola de McFay, o que desviou e amorteceu o impacto, ou teria quebrado o pescoço, em vez de jogá-lo de costas no chão. Norbert limpou o sangue do rosto, enquanto corria para a frente, desferindo outro chute brutal. Mas desta vez Jamie se encontrava preparado e contorceu-se para o lado, antes que Norbert conseguisse alcançá-lo de novo, e levantou-se, os punhos cerrados, o braço esquerdo inútil por um momento.
Por um segundo, os dois se encararam, a dor ofuscada pelo ódio. Gornt tentou detê-los, mas no mesmo instante os dois homens atacaram, desvairados, empurrando-o para o lado, como uma folha. Punhos, pés, todos os golpes sujos, uma briga de rua. Joelhos na virilha, unhas rasgando, arrancando pedaços de roupa e cabelos, qualquer coisa para destruir o outro, a hostilidade de anos irrompendo numa ferocidade incontrolável. Eram da mesma altura, mas Jamie tinha quinze quilos a menos, Norbert era mais duro, mais brutal. Uma faca apareceu em sua mão. Tanto Jamie quanto Gornt gritaram quando ele arremeteu, errou, recuperou o equilíbrio, atacou de novo, e desta vez arrancou sangue, Jamie meio desajeitado, perdendo, prejudicado pelo ombro lesionado. Com um vitorioso grito de guerra, Norbert avançou, para mutilar, não para matar. Só que ao mesmo tempo o punho de Jamie acertou na ponte de seu nariz, esmagando-o desta vez, e Norbert caiu gemendo, ficou no chão, de quatro, sem ver coisa alguma, dominado pela dor, derrotado.
Jamie parou na frente dele, ofegante. Gornt esperou que ele liquidasse o oponente, com um chute na virilha, outro na cabeça, e depois talvez usasse calcanhar para esmagar seu rosto para sempre. Era o que ele faria... afinal, não era atitude de um cavalheiro sacar, ou escarnecer da morte de outro homem, mesmo um inimigo, pensou ele, sentindo uma satisfação intensa pela vitória de McFay.
A morte de Malcolm não o agradara nem um pouco. Era a única opção para a qual não planejara, não hoje. Agora, seu esquema teria de ser revisto, depressa. Em nome de Deus, como? Talvez aquela briga pudesse ser aproveitada, especulou avaliando as possibilidades, enquanto esperava para saber o que Jamie faria em seguida.
Agora que vencera, a raiva de Jamie se dissipou. Seu peito arfava. Bílis e sangue enchiam sua boca. Ele cuspiu. Por anos, tivera vontade de humilhar Norbert, e agora o conseguira, desforrara-se de uma vez por todas... e ainda por cima vingara Malcolm, que fora provocado deliberadamente.
— Norbert, seu filho da puta — balbuciou ele, atônito pelo som de sua voz e por se sentir tão mal —, se disser mais alguma coisa contra o meu tai-pan, qualquer coisa, ou rir dele pelas costas, juro que vou transformá-lo em picadinho.
Atordoado, ele passou cambaleando por Gornt, mal o vendo, a caminho do cais. Dez ou quinze metros depois, seu pé pisou num buraco, e ele caiu, praguejando, e ficou de quatro, alheio aos outros, exausto.
Norbert começava a se recuperar, cuspindo sangue, o nariz quebrado, uma massa de dor, tremendo de raiva por ter sido derrotado. E apavorado. O velho Brock não vai perdoá-lo, seu cérebro bradou, vai perder sua gratificação e o estipêndio que ele prometeu, será alvo de riso em toda a Ásia, vencido, humilhado para sempre pelo filho da puta do Jamie, que nem de longe é do seu tamanho, um lacaio da Struan...
Ele sentiu que alguém o ajudava a levantar. Trôpego, forçou os olhos a se abrirem. Ofegando para respirar, confuso, o rosto e a cabeça em fogo, os olhos inchados, fechados quase que por completo, ele viu McFay se levantando com dificuldade, a poucos passos de distância, de costas, Gornt meio na sua frente, ainda segurando a pistola de duelo de cano duplo.