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— Foi um erro permitir que Marlowe...

— Achei que era melhor assim! E agora vai me escutar...

— Melhor? Mas que droga! Acabei de saber que você achou melhor interferir estupidamente em questões políticas e comerciais, tentando negociar um acordo não compulsório com o pretendente ao trono Struan, alienando assim a verdadeira chefe para sempre! Não é verdade?

— E o senhor está querendo interferir em questões que são uma prerrogativa exclusiva do Parlamento, como a declaração de guerra, e o verdadeiro motivo para ser tão desavisado, em sua linguagem, para se mostrar tão transtornado, é o fato de que eu não quero iniciar uma guerra que não podemos vencer, que não podemos sustentar com nossas forças atuais, se é que o conseguiríamos sob quaisquer cicunstâncias; na minha opinião qualquer ataque à capital será considerado pelos nativos, com toda razão, como um ato de guerra, e não um incidente. Boa noite!

— Mas concordou em aju...

— Concordei em exibir alguns sabres, disparar alguns tiros de exercício para impressionar os nativos, mas não concordei em bombardear Iedo, e não o farei jamais, a menos que me apresente uma autorização por escrito, aprovada pelo almirantado. Boa noi...

— A marinha e o exército estão sujeitos ao controle civil, e sou eu quem manda aqui!

— É, sim, mas só se eu concordar! — berrara o almirante, o rosto e o pescoço roxos. — Não manda em meus navios, e até eu receber ordens em contrário aprovadas pelo almirantado, comandarei minha esquadra como achar melhor! Boa noite!

Sir William foi sentar à sua escrivaninha. Suspirou, pegou uma pena e escreveu em seu papel timbrado:

Prezado almirante Ketterer: Muito do que disse ontem à noite era correto. Por favor, desculpe o uso de algumas palavras desavisadas no calor do momento. Talvez queira fazer a gentileza de me procurar esta tarde. Já deve ter sido informado da triste morte do jovem Struan, que segundo o Dr. Babcott pode ser atribuída aos ferimentos recebidos no ataque sem qualquer provocação na Tokaidô. Apresentarei outro protesto ao Bakufu, mais severo, pelo falecimento desse extraordinário cavalheiro inglês, e ficaria muito satisfeito em ouvir seus conselhos sobre os termos em que deve ser redigido. Com toda sinceridade, meu prezado senhor, permaneço seu servidor obediente.

— O que tenho de fazer pela Inglaterra — murmurou ele.

Depois, enquanto assinava a mensagem, e cobria com pó para secar a tinta, Sir William gritou:

— Phillip!

— Pois não, senhor?

— Tire uma cópia e depois despache para Ketterer, por mensageiro especial.

— Jamie acaba de chegar, senhor, e há uma delegação pedindo que decrete um dia de luto.

— Recusado! Mande Jamie entrar.

Jamie estava bastante machucado, o ombro agora enfaixado.

— Sente-se melhor, Jamie? Ótimo. George Babcott já me apresentou um relatório. — Sir William relatou o que se dissera sobre o corpo de Malcolm. — O que acha devemos fazer?

— Devemos mandá-lo para Hong Kong, senhor.

— É o que também penso. Você vai... acompanhá-lo?

— Não, senhor. A Sra. Struan... receio que ela não me aprove mais e, se eu voltar, só vai agravar uma situação que já é terrível para ela, a pobre dama. Aqui entre nós, estarei despedido ao final do mês.

— Mas por quê? — indagou Sir William, chocado.

— Não importa, não agora. Angelique, a nossa Sra. Struan, irá junto, assim o Dr. Hoag... Já sabia que ela mudou de idéia, e decidiu permanecer em seus aposentos, conosco, e não mais na legação francesa?

— Não, não sabia, mas acho que é melhor assim. Como ela está?

— Hoag diz que o melhor que se podia esperar, o que quer que isso signifique. Despacharemos o Prancing Cloud assim que nos autorizarem. Quando poderá ser?

— George disse que efetuaria a necropsia ainda hoje e assinaria o atestado de óbito. Terei providenciado tudo até amanhã. O clíper pode zarpar amanhã. O único problema seria Angelique, quando ela teria condições para viajar. — Sir William fitou-o nos olhos. — Qual é a situação dela?

— Não sei, não realmente. Não a vejo desde... desde que ela foi para bordo. Não falou comigo desde então, nem uma única vez, não demonstra qualquer lucidez. Hoag ainda continua com ela. — Jamie tentou conter sua angústia. — Só nos resta torcer.

— Um azar terrível. Isso mesmo, não há qualquer dúvida a respeito. Agora, vamos falar sobre Norbert. Teremos de realizar um inquérito.

— Sei disso. — Jamie levou a mão ao rosto, afugentando uma mosca impertinente, que procurava o sangue ressequido. — Gornt salvou minha vida.

— É verdade. Ele será elogiado por isso. Jamie, o que fará quando deixar a Struan? Voltará para casa?

— Aqui é a minha casa... aqui ou na China. Encontrarei algum meio de abrir minha própria firma.

— Seria ótimo, pois eu não gostaria de perdê-lo. Não posso imaginar a Casa Nobre aqui sem você.

— Nem eu.

À medida que o dia passava, a mortalha sobre Iocoama se adensava. Choque, incredulidade, raiva, medo da guerra, medo em geral — a Tokaidô recordada —, misturando-se com muitos comentários vulgares sussurrados, mas com extrema cautela de quem os dizia, pois Angel tinha defensores violentos, e qualquer comentário rude ou risada escarninha insinuava desrespeito. Malcolm não foi tão afortunado. Tinha inimigos, muitos se mostravam contentes em escarnecer, felizes porque outro desastre se abatera sobre a descendência de Dirk Struan. E os dois sacerdotes, sob vários aspectos, também se sentiam satisfeitos, vendo a retaliação de Deus.

— André — disse Seratard à mesa do almoço, na legação, tendo Vervene como o terceiro homem —, ele deixou um testamento?

— Não sei.

— Tente descobrir. Pergunte a ela ou a Jamie... é provável que ele saiba mais.

André Poncin balançou a cabeça, desolado, na maior preocupação. A morte de Struan acabara com seu plano de arrancar mais dinheiro de Angelique, a fim de pagarRaiko.

— Está certo.

— É muito importante que continuemos a ressaltar sua cidadania francesa fim de protegê-la, quando a sogra tentar anular o casamento.

Vervene interveio:

— O que o faz ter tanta certeza de que ela agirá assim, que vai se mostrar tão antagônica?

Mon Dieu, isso é óbvio! — respondeu André por Seratard, irritado — A atitude dela será a de que Angelique “assassinou” seu filho. Todos sabemos que ela a odiava antes, quanto mais agora? É inevitável que acuse Angelique só Deus sabe de quantas insídias, por causa do seu deturpado dogma sexual anglo-saxão em particular, se não em público. E não se esqueça de que ela é uma protestante fanática.