— Sou culpada.
— A única coisa pela qual você é responsável foi a alegria nos últimos meses de sua vida. Ele a amava, não é mesmo?
— Amava, mas morreu, e...
Angelique quase acrescentou e o outro homem também, nem sequer sei seu nome, mas ele também morreu, e me amava também, mas morreu, e agora Malcolm está morto, e...
— Pare com isso!
A voz ríspida arrancou-a da beira do abismo. Hoag recomeçou a respirar, sabia que aquilo tinha de ser feito, e depressa, ou ela estaria perdida, como outros que já vira antes. Precisava livrá-la do demônio que espreitava em algum lugar de sua mente, prestes a irromper, esperando para dar o bote, para transformá-la numa lunática incoerente ou no mínimo para afetá-la de uma forma radical.
— Sinto muito, mas você tem de entender isso da maneira correta. Só é cul... — em pânico, ele se conteve, antes de usar essa palavra, e trocou-a. — ...responsável pela alegria de Malcolm. Repita para mim. Só é res...
— Sou culpada.
— Diga comigo: só sou responsável por sua alegria — disse Hoag, com extremo cuidado, mais uma ordem, notando com alarme as pupilas anormais, revelando que ela retornava para a beira do abismo.
— Sou cul...
— Responsável, que droga! — exclamou ele, com uma ira simulada. — Diga comigo, só sou responsável por sua alegria! Responsável por sua alegria! Diga isso!
Ele viu o suor aflorar na testa, ela disse outra vez a mesma palavra, ele interrompeu-a, repetiu a palavra correta, “responsável, responsável por sua alegria!”, e mais uma vez ela disse a outra palavra, sendo corrigida, e enquanto isso Ah Soh trouxe o chá, mas nenhum dos dois a viu, e ela fugiu em terror, enquanto Hoag continuava a ordenar, Angelique continuava a recusar, até que, de repente, ela gritou em francês, a voz estridente:
— Está bem, está bem, só sou responsável por sua alegria, mas ainda assim ele está morto, morto, morto... meu Malcolm está morto!
Hoag tinha vontade de abraçá-la, murmurar que estava tudo bem, mas não o fez, julgando que era cedo demais. Sua voz era dura, mas não ameaçadora, e ele disse, em seu bom francês:
— Obrigado, Angelique, mas agora falemos em inglês. Lamento muito, todos lamentamos que seu adorável marido tenha morrido, mas a culpa não é sua. Diga isso!
— Deixe-me em paz! Saia daqui!
— Quando você disser que não foi culpa sua.
— Não... não... deixe-me em paz!
— Quando disser que não foi culpa sua!
Angelique fitou-o, odiando seu algoz, mas depois gritou, estridente:
— Não foi culpa minha, não foi culpa minha, não foi culpa minha! E agora que está satisfeito, trate de sair daqui!
— Depois que me disser que compreende que seu Malcolm morreu, mas você não é absolutamente culpada por isso.
— Saia!
— Diga isso! Vamos, diga logo!
Subitamente, a voz de Angelique tornou-se como o uivo de uma besta selvagem:
— Seu Malcolm morreu, seu Malcolm morreu, morreu, morreu, morreu, mas não é cul... você não é culpada... não é culpada... culpa...
Tão abruptamente quanto começara, a voz se transformou numa lamúria:
— ...não é culpada, não sou culpada, não sou mesmo, oh, meu querido sinto muito, sinto muito, não o quero morto, oh, Santa Mãe, ajude-me, ele está morto, e eu me sinto horrível, oh, Malcolm, por que você morreu, eu o amava tanto, tanto, tanto... oh,Malcolm...
Desta vez ele a abraçou, apertou-a com firmeza, absorvendo os tremores e os soluços profundos. Depois de algum tempo, a voz definhou, os soluços diminuiram, e Angelique mergulhou num sono irrequieto. Ainda abraçando-a, gentilmente, mas com firmeza, suas próprias roupas grudadas no corpo pelo suor, Hoag manteve-se imóvel, até que o sono se tornou profundo. Só então a soltou. Sentia uma dor intensa nas costas, e empertigou-se com cuidado, torturado, os músculos em espasmo. Quando conseguiu relaxar os ombros e o pescoço, ele sentou, para recuperar as forças.
Foi por pouco, pensou Hoag, o prazer por ter vencido desta vez eliminando parte da dor, contemplando-a como ela era, jovem, bela e segura.
Sua memória voltou a Kanagawa, à outra moça, a irmã japonesa do homem que ele operara, igualmente jovem e bela, só que japonesa. Qual era mesmo seu nome? Uki alguma coisa. Salvei seu irmão para que atormentasse ainda mais esta pobre criança. Estou contente por ela ter escapado. Mas será mesmo que escapou? Uma linda mulher. Como era minha pobre e querida esposa. Como foi terrível e insensato da minha parte, como foi insano tirá-la da índia, para uma morte prematura em Londres.
Dharma? Destino? Como esta criança e o pobre Malcolm. Coitados dos dois, coitado de mim. Não, não coitado de mim, pois acabei de salvar uma vida. Você pode ser atarracado e feio, meu velho, pensou ele, verificando o pulso de Angelique, mas, por Deus Todo-Poderoso, é um bom médico, e um bom mentiroso... não, não bom, apenas afortunado. Desta vez.
46
Quinta-feira, 11 de dezembro:
— Boa tarde, Jamie — disse Phillip Tyrer, triste. — Com os cumprimentos de Sir William, aqui estão três cópias do atestado de óbito, uma para você, uma para Angelique, e a outra para Strongbow levar com o corpo. Ele achou que o original deve seguir pela mala diplomática para o gabinete do governador, e ser entregue ao juiz principal de Hong Kong, que providenciará o registro, e depois encaminhará a Sra. Struan. Terrível, não é, mas aconteceu.
— Tem razão.
A correspondência que acabara de chegar se achava empilhada na mesa de Jamie, além de vários documentos sobre negócios que tinham de ser acertados. Ele tinha os olhos injetados de cansaço.
— Como está Angelique?
— Ainda não a vi, mas Hoag passou aqui pela manhã. Disse que é melhor deixá-la sossegada, até ela tomar a iniciativa do primeiro contato, mas acho que está melhor do que ele esperava. Angelique dormiu por mais de quinze horas. Em sua opinião, ela deve estar bastante bem para viajar amanhã, e recomendou que Quanto mais cedo partisse, melhor. Ele também irá, como não podia deixar de ser.
— Quando o Prancing Cloud deve zarpar?
Amanhã. Com a maré noturna. Strongbow estará aqui a qualquer momento para receber as novas ordens. Tem alguma correspondência para enviar?
— Claro que sim. Uma mala diplomática. Avisarei a Sir William. Ainda não posso acreditar que Malcolm esteja morto. Ah, por falar nisso, a audiência sobre a morte de Norbert foi marcada para as cinco horas. Gostaria de jantar comigo depois?
— Obrigado, mas esta noite não será possível. Vamos deixar para amanhã, se tudo correr bem. Confirmaremos depois do desjejum.