— Tem razão, mas o mais importante agora é: como você está realmente?
— Não muito bem, nem muito mal. Sinto-me vazia.
— Essa é a palavra certa. Também me sinto vazio.
Jamie olhou para Heavenly, que sorriu, neutro. O silêncio foi se tornando opressivo. Contrafeito, ele percebeu que ambos queriam que se retirasse.
— Posso ajudá-la em alguma coisa?
— Não no momento, Jamie. Obrigada.
Ele acenou com a cabeça, pensativo.
— Preciso pegar alguns documentos.
— À vontade, por favor.
Angelique recostou-se na cadeira, que a ofuscava, calma, sob controle. Embaraçado, Jamie pôs-se a vasculhar as bandejas de Entrada e Saída, decidiu levar tudo, pôs uma em cima da outra.
— Se precisar de alguma coisa... basta me chamar.
— Depois que o Sr. Skye e eu terminarmos, podemos conversar por alguns minutos, se você estiver livre.
— Quando quiser. Toque aquela sineta.
Skye interveio:
— Jamie, por acaso já recebeu o atestado de óbito?
— Já, sim.
— Posso ver uma cópia, por favor?
Jamie fitou-o nos olhos.
— Com que propósito?
— Para examiná-lo.
Angelique disse:
— Mal... meu marido havia contratado os serviços do Sr. Skye... sabia disso, não é, Jamie?
— Sabia. — Jamie percebera como ela trocara de Malcolm para meu marido, e viu Heavenly balançar a cabeça, em aprovação, o que acionou um sinal de perigo em sua mente. — E daí?
Skye explicou, a voz suave:
— Quando soube da desastrosa notícia, senti-me na obrigação de oferecer meus serviços à viúva... — A palavra foi realçada de forma imperceptível. —...que aceitou. O tai-pan pedira-me para realizar uma certa pesquisa, e achei que a Sra. Struan poderia desejar que eu continuasse.
— Certo.
Jamie acenou com a cabeça, polido, e começou a se retirar.
— E o atestado de óbito, Jamie?
— O que deseja fazer, Angelique... Sra. Struan?
— O Sr. Skye é meu advogado agora, Jamie. Ele compreende essas coisas, o que não acontece comigo, e concordou em me representar. — A voz era incisiva, sem qualquer emoção. — Eu gostaria, por favor, que lhe prestasse toda ajuda que ele precisar.
— Claro. Se quiser me acompanhar, Heavenly...
Jamie saiu, foi para sua sala, ficou de pé atrás da mesa, fingindo procurar entre os papéis que guardara na gaveta, por segurança.
— Pode fechar a porta, por favor? Tem uma aragem entrando.
O homenzinho obedeceu, e Jamie acrescentou, mantendo a voz baixa, mas sem qualquer possibilidade de equívoco no tom ameaçador:
— Escute, se você a enganar, fizer qualquer coisa que não deve, cobrar demais, vou arrebentá-lo todo.
O homenzinho chegou mais perto, os óculos rachados e sujos.
— Nunca fiz isso com nenhum cliente, em toda a minha vida — disse ele, Slbilando como uma cobra. — Umas poucas contas grandes, é verdade, mas nunca mais do que o mercado podia absorver. Aquela mulher precisa de ajuda, e sou eu quem pode dar, não você.
— Posso, e darei, por Deus!
— Não concordo. Malcolm me contou que a outra Sra. Struan, a mulher em Hong Kong, o despediu. Verdade ou mentira? E é verdade ou mentira que você e Malcolm vinham recebendo cartas furiosas dela, até ameaçadoras, há semanas, cartas paranóicas contra minha cliente e o noivado, com todos os tipos de acusações infundadas? É verdade ou mentira, pelo amor de Deus, que aquela moça precisa de amigos?
— Concordo que ela precisa de amigos, e não me oponho a que tenha um advogado, mas quero ter certeza de que você agirá de uma maneira correta.
— Nunca enganei um cliente em toda a minha vida. Posso ser um advogado morto de fome, mas sou muito bom, Jamie, e quero lembrá-lo de que estarmos do mesmo lado. Ela precisa de amigos, Malcolm a amava, e você era amigo de Malcolm... ele me falou sobre as cartas pelas quais você se arriscaria à forca.
— Não importa o que...
— Não quero discutir com você, Jamie. Ela é minha cliente, e jurei que faria o melhor que puder para ajudá-la. O atestado de óbito, por favor.
Irritado, Jamie abriu a gaveta, entregou uma cópia.
— Obrigado... ah, três, hem? Uma para os seus arquivos, outra para acompanhar o corpo, e a terceira para ela. Absolutamente correto, embora eu me sinta surpreso por terem se lembrado dela. O original segue para Hong Kong por mensageiro especial. — Heavenly examinou o documento. — Deus Todo-Pode-roso!
— Qual é o problema?
— Hoag e Babcott. Eles podem ser bons médicos, mas são um desastre como testemunhas de defesa. Merda! Eu deveria ter sido informado antes que eles escrevessem isto... qualquer idiota poderia lhes indicar uma redação melhor.
— Mas do que está falando?
— Assassinato ou, pelo menos, uma acusação de assassinato.
— Ficou louco?
— Não seria a primeira vez para Tess Struan. Lembra do contramestre? Todos em Hong Kong sabiam que foi um acidente, mas ela acusou-o de assassinato, o pobre coitado foi considerado culpado de homicídio involuntário e condenado a dez anos!
— Foi o júri quem o considerou culpado, não Tess, e...
— Mas foi ela quem apresentou a acusação! — retrucou Skye, mantendo a voz baixa. — E também vai apresentar uma acusação neste caso. Se isto for lido no tribunal, num processo criminal ou cível, nosso advogado oponente alegaria que ele morreu fodendo... por favor, perdoe minha vulgaridade... “e a outra metade do ato está sentada ali, no banco dos réus, senhoras e senhores do júri, uma mulher cujo pai é um criminoso fugitivo, cujo tio se encontra numa prisão francesa, uma aventureira sem dinheiro, uma Jezebel que seduziu insidiosamente aquele pobre rapaz, menor de idade, levando-o ao casamento, e depois, senhoras e senhores do júri, com uma perfídia deliberada, seduziu-o a uma morte prematura... com uma perfídia deliberada... sabendo muito bem que os ferimentos do pobre rapaz fariam o trabalho por ela!” Verdade ou mentira?
Jamie sentou, mais pálido do que antes. As palavras de Hoag afloraram e sua mente.
— O que pretende fazer?
— Primeiro, tentarei mudar esta redação. Não creio que eles concordem, mas tentarei. Tem o testamento de Malcolm?
Jamie sacudiu a cabeça.
— Ele nunca me falou num testamento.
— Eu disse a ele que era importante fazer um testamento, quando me procurou pela primeira vez... isso é rotina. Tem certeza?