— Sei que não tenho nenhum testamento, não em nosso cofre.
Jamie franziu o rosto. Malcolm teria feito um testamento? Se eu estivesse para casar trataria de fazê-lo. Espere um pouco, fui noivo de Maureen por anos, e jamais cuidei disso. Por Deus, eu gostaria de saber como ela está, o que pensou ao receber minha carta.
— Ele nunca me mencionou um testamento. Falou alguma coisa a respeito com Angelique?
— Não. Essa foi minha primeira pergunta. Talvez ele tenha feito um testamento sem que vocês soubessem. Ele tinha um cofre particular ou algum lugar para guardar seus documentos pessoais?
— Não. Se tivesse, seria em Hong Kong. Mas há um pequeno cofre em seus aposentos.
— Vamos examiná-lo.
— Não podemos fazer isso.
As palavras saíram ríspidas e formais:
— A Sra. Angelique Struan era sua esposa legal, e agora é sua viúva, a herdeira imediata de todos os seus bens materiais, a menos que seu testamento enuncie o contrário. Se não há testamento, então ela herda tudo, depois da homologação pelo tribunal, e do pagamento dos honorários legais e impostos. Vamos dar uma olhada no cofre.
— Não podemos presu...
— Devemos resolver isso entre nós três, como amigos, ou providenciarei uma ordem judicial formal, através de Sir William, ainda hoje, para o seqüestro de tudo, de todos os seus documentos, de todos os documentos da Struan, em Iocoama e Hong Kong, para a busca de um testamento, a que a minha cliente tem direito. — Seu olhar era inflexível. — Desculpe, meu velho, mas tem de ser assim. Certo?
— Vamos perguntar a Angelique.
Inseguro, sabendo que nunca poderia permitir que alguém de fora examinasse os documentos e registros da Casa Nobre, Jamie seguiu Skye de volta à sala do tai-pan. Por que ainda penso assim? — perguntou-se ele, irritado. Deve ser porque é mesmo a sala do tai-pan. Mas quem é o novo tai-pan? Oh, Deus, que confusão!
Angelique continuava sentada onde a haviam deixado. Impassível, ela escutou Skye.
— Não há necessidade de nos acompanhar, Sra. Struan. Pode ter certeza de que agirei em seu nome.
— Obrigada, mas eu gostaria de estar presente.
Eles seguiram-na pela escada imponente, a primeira vez para Skye, que tentou não se mostrar impressionado demais pelo lustre espetacular e os óleos valiosos. Jamie abriu a porta da suíte do tai-pan. Ardia ali um agradável fogo de carvão. A cama de dossel estava arrumada, à espera. Escrivaninha impecável, sem papéis em cima. Ah Tok agachava-se num canto próximo da porta, murmurando, em desespero, parecendo ainda menor agora, mais feia, uma anciã. Não lhes prestou a menor atenção. Angelique estremeceu, seguiu os dois, foi sentar na cadeira de encosto alto de Malcolm, de frente para eles. Observando-os atentamente.
O pequeno cofre de ferro na parede ficava atrás de um quadro a óleo, outro Aristotle Quance. Skye sorriu. O quadro mostrava uma menina chinesa carregando no colo uma criança loura, de pele clara, com um rabicho, um menino, tendo a fundo uma paisagem de Hong Kong. Ele já ouvira falar do quadro, mas nunca o vira. Quance era o decano dos pintores que haviam feito a crônica de Macau e dos primeiros tempos de Hong Kong, um irlandês que ali vivera por muitos anos e morrera há poucos anos, em Macau, onde fora sepultado. Era também um voraz bêbado, jogador e libertino, mas velho amigo e devotado a Dirk Struan. O rumor era de que a moça era a famosa May-may, a amante chinesa de Dirk, a que morrera com ele no tufão de 1842, em seus braços, e a criança o primogénito dos dois.
Ele olhou para Angelique, que observava Jamie, impassível, procurando num molho de chaves. Especulou se ela sabia dos primos eurasianos de Malcolm e de seu tio, o compradore Gordon Chen — filho de Dirk com outra amante —, que segundo as intrigas de Hong Kong “conhecia mais segredos e tinha mais taéis de ouro do que um boi tinha pêlos”. O relógio no consolo da lareira bateu três horas.
— Quem mais tem chaves, Jamie? — indagou Skye.
— Apenas eu e... e o tai-pan.
— Onde estão as dele?
— Não sei. Presumo que ainda... ainda se encontram a bordo.
A porta do cofre foi aberta. Umas poucas cartas, todas com a letra de Tess Struan, exceto uma com a letra de Malcolm, aparentemente inacabada, uma pequena bolsa de camurça e uma carteira. A carteira continha uns poucos daguerreótipos desbotados de seu pai e mãe, espiando contrafeitos para a câmera, o sinete de Malcolm, uns poucos documentos... promissórias, uma lista de dívidas e devedores. Heavenly folheou tudo.
— Seriam dívidas de jogo que ele tinha, Jamie?
— Não faço a menor idéia.
— Dois mil, quatrocentos e vinte guinéus. Uma quantia considerável para um jovem emprestar ou dever. Reconhece algum destes nomes?
— Apenas este. Jamie fitou-o.
— Madame Emma Richaud? Quinhentos guinéus.
Angelique explicou:
— É minha tia. Ela e tio Michel me criaram, Sr. Skye. Chamava minha tia de mamãe, pois ela sempre foi uma mãe para mim, já que a minha morreu quando eu era pequena. Precisavam de ajuda, e Mal... Malcolm teve a gentileza de lhes enviar esse dinheiro. Pedi a ele.
— Jamie, eu gostaria de ter uma cópia desta lista, por favor. Você é obrigado a manter esses documentos em salvaguarda.
O advogado estendeu a mão para a meia dúzia de cartas, mas Jamie se antecipou.
— Eu diria que estas eram particulares.
— Particulares para quem, Jamie?
— Para ele.
— Obterei uma ordem judicial para vê-las e mandar copiá-las, se considerar que são importantes.
— Pode fazer isso — respondeu Jamie, rangendo os dentes, furioso consigo mesmo por ter concordado em abrir o cofre, antes de pedir o conselho de Sir William.
Angelique interveio:
— Posso vê-las, Jamie, por favor? Creio que são parte dos pertences de meu marido. No momento, parecem bem poucos.
A voz era tão gentil, tão triste, sem qualquer insinuação de súplica, que ele. suspirou, e disse a si mesmo: Rapaz, já está todo encrencado, não faz mais diferença. Sir William decidirá sobre a legalidade. E, de repente, ele voltou ao anoitecer do dia anterior, no cais, os três alegres e descontraídos, rindo, confiantes, as futuras nuvens de tempestade em Hong Kong parecendo muito distantes, e depois os dois no cúter, a caminho da noite de núpcias, com Malcolm dizendo:
— Obrigado, meu bom amigo. Guarde a nossa retaguarda, pois vamos precisar. Promete?
Ele prometera, jurara que faria isso, e também protegeria Angelique, desejando a ambos uma vida longa e feliz, acenara em despedida, o último na praia. Como Malcolm estava certo! Tivera uma premonição?
— Tome aqui — disse ele, gentilmente.
Sem olhar para as cartas, Jamie largou as cartas no colo de Angelique, que cruzou as mãos, tornou a ficar imóvel. Uma brisa agitou uma mecha de cabelos, perto da têmpora. Afora isso, ela parecia uma estátua.