O tinido de moedas atraiu a atenção de Jamie. Skye abrira a bolsinha de camurça. Continha guinéus de ouro e notas do Banco da Inglaterra. Ele contou, em voz alta. Os olhos de Angelique não se desviaram do cofre.
— Duzentos e sessenta e três guinéus. — Skye guardou tudo de volta na bolsinha. — Este dinheiro deve ser entregue imediatamente à Sra. Struan... ela dará um recibo, é claro.
Jamie disse:
— Talvez seja melhor que nós... eu e você, Heavenly... procuremos Sir Willian. Nunca estive envolvido em nada assim antes, estou fora da minha experiência... pode compreender, não é, Angelique?
— Também estou fora da minha experiência, jamie, à deriva. Sei que me Malcolm era seu amigo e que você era amigo dele, e meu também. Foi o que ele me disse, muitas vezes. Por favor, faça o que julgar melhor.
— Vamos falar com ele agora, Jamie — propôs Skye. — Quanto mais cedo, melhor. Ele pode decidir sobre a propriedade do dinheiro. Enquanto isso...
Ele se adiantou para entregar a bolsinha a Angelique, mas ela disse:
— Levem com vocês, levem tudo, isto também. — Ela estendeu as cartas — Basta me deixarem a fotografia. Obrigada, Sr. Skye. E agradeço a você também meu caro Jamie. Tornaremos a falar quando voltarem.
Os dois esperaram que ela se levantasse, mas Angelique não fez qualquer movimento.
— Não vai continuar aqui, não é?—indagou Jamie, perturbado, pois parecia macabro.
— Claro que vou. Passei tanto tempo aqui, nesta sala, que é... é acolhedora para mim. A porta para a minha suíte está aberta, se eu... se eu precisar descansar Mas, por favor, tirem Ah Tok daqui, a pobre coitada, e digam a ela para não voltar A pobre mulher precisa de ajuda. Peçam ao Dr. Hoag para vê-la.
— Quer que fechemos a porta?
— A porta? Não importa... podem fechar, se quiserem.
Eles o fizeram e entregaram Ah Tok aos cuidados de Chen, que ainda se encontrava transtornado, em lágrimas. Saíram para a High Street, os dois aliviados por estarem outra vez ao ar livre, mas absortos em seus pensamentos. Skye planejava, analisava os atoleiros pela frente. Jamie sentia-se incapaz de planejar qualquer coisa, o cérebro consumido pela tragédia e preocupação com o futuro da Casa Nobre, sem saber por quê.
Seria por ela? — perguntou a si mesmo, alheio ao passeio, ao vento forte, as ondas quebrando na praia de seixos, ao cheiro de algas em decomposição. A tristeza lhe convém. Seria possível que...
Ela é uma mulher agora! É essa a diferença, possui uma profundidade e equilíbrio que não existiam antes. É uma mulher, não mais uma moça. É por causa da catástrofe ou porque deixou de ser virgem... a mudança mística que dizem que ocorre ou se supõe que acontece na transmutação? Ou as duas coisas, talvez com o dedo de Deus ajudando-a a se ajustar?
— Por Deus — disse ele, incapaz de se conter, pensando em voz alta — o que acontece se ela tiver um filho?
— Pelo bem dela, rezo para que isso aconteça — arrematou o advogado.
Assim que eles se retiraram, Angelique fechou os olhos, respirou fundo. Logo recuperou o controle, levantou-se, foi trancar a porta, e depois abriu a que dava para sua suíte. Sua cama estava feita, havia flores frescas num vaso, na penteadeira. Ela voltou à suíte de Malcolm, trancou sua porta, tornou a sentar na cadeira.
Só então olhou para a fotografia... a primeira dos pais de Malcolm que já vira. No verso, havia a data, 17 de outubro de 1861. No ano passado, Culum Struam parecia muito mais velho que sua idade, quarenta e dois anos, enquanto Tess não parecia velha nem jovem, os olhos claros fixados em Angelique, a linha fina dos lábios dominante.
Tess tinha trinta e sete anos. Como vou parecer quando chegar à sua idade, daqui a dezenove anos, mais do que o dobro da minha idade hoje? Terei a mesma expressão dura, que proclama um casamento sem amor, e opressivos fardos de família.— odiando seu pai e os irmãos, eles também a odiando, os dois lados tentando se arruinar mutuamente —, que no seu caso começaram de maneira tão romântica, fugindo para casar no mar, como nós fizemos... mas, por Deus, que diferença!
Ela olhou pela janela, para a baía e os navios, um vapor mercante deixando o porto... capitão e oficiais na ponte de comando, o navio de correspondência cercado por tênderes, o cúter da Struan junto ao Prancing Cloud. Elegante, ansioso por levantar âncora, içar as velas, enfrentar os ventos mais furiosos. Era o que Malcolm sempre dizia sobre seus clíperes, pensou ela, aqueles clíperes velejam com os ventos mais fortes.
Angelique fechou os olhos, esfregou-os, tornou a olhar. Não havia equívoco. Durante o dia inteiro seus olhos haviam demonstrado inesperada e supreendente lucidez de visão. Percebera-o no momento em que despertara naquela manhã, todos os detalhes do quarto em foco, as cortinas, as flores mortas no vaso, moscas circulando, quatro moscas. Segundo depois, ouvira uma batida na porta, e a voz de Ah Soh:
— Miss? O homem da medicina quer ver a miss.
Sua audição também parecia mais intensa, o som dos passos leves de Ah Soh arrancando-a do sono.
Ainda mais estranho era a lucidez de sua mente, todo o peso parecia ter se dissolvido, não a tristeza, a maneira objetiva com que considerava problema após problema, sem consternação, sem jamais misturá-los, sugerindo soluções, sem o medo habitual, nem mesmo um pouco. A preocupação, sim, mas isso era apenas sensatez, mas não mais o pânico nauseante, a indecisão.
Podia agora recordar aquele dia e aquela noite em todos os detalhes, sem uma pressão opressiva, inumana e insensata. Tornei-me insensível? Para sempre? É correto o que o Dr. Hoag disse esta manhã?
— Não se preocupe, você está curada de qualquer problema. Desde que possa chorar de vez em quando, e não ter medo de voltar no tempo, se é isso o que sua mente deseja, então sua vida correrá bem, melhor a cada dia. Tem juventude e saúde, a vida se estende à sua frente...
Mon Dieu, quantos chavões os médicos dizem! Depois de Hoag, Babcott. Mais da mesma coisa. Ele se mostrara gentil e terno, uma ternura que poderia se transformar em ardor, se ela permitisse. Mas chega de paixão, pensou ela, pelo menos enquanto eu não estiver livre. E segura. Segura e livre.
Seu corpo estava repousado. Não havia dor de cabeça lancinante, nem mesmo pequena, nenhum clamor interior. Sabendo de imediato onde se encontrava, quem era e por que se achava ali, por que sozinha, e o que acontecera. Experimentando de novo, observando a si mesma no pesadelo desperta, consciente de tudo, mas não envolvida, não envolvida de fato: observando a si mesma sendo acordada pelo grito estridente de Chen, arrancada do sono, vendo a si mesma em pânico, sacudindo Malcolm para acordá-lo também, vendo o sangue em suas pernas, horrorizada por um momento, com medo de ter se cortado demais, depois compreendendo que era o sangue dele, que ele estava morto, morto, morto.
Saltando da cama nua, sem percebê-lo, apavorada, gritando, não acreditando no que olhos e ouvidos lhe diziam, rezando para que fosse um sonho, outras pessoas entrando correndo no camarote, Ah Soh, Ah Tok, alguém cobrindo-a, vozes, gritos, perguntas e mais perguntas, até o camarote sufocá-la na escuridão e terror. Depois, na ponte de comando, congelando e ardendo, perguntas sem respostas, sua boca trancada, a cabeça em fogo, o cheiro de sangue, o gosto de sangue, sangue em sua virilha, sangue nas mãos, nos cabelos, o estômago se rebelando.