Ah Soh ajudando-a a entrar num banho, a água fria, nunca bastante quente para limpá-la, até sua morte, mais náusea, e depois o veneno ofuscante a dominá-la, a afogá-la, até que se vira gritando para Hoag, uma imagem de feiúra, feio demais.
Ela estremeceu. Terei essa aparência quando ficar velha? Quão velha é ser velha? Não muito, com certeza. O que exatamente dissera a Hoag não podia recordar, nem mesmo agora, apenas que o veneno fora expelido, e com a torrente viera o sono bom.
Tenho muito que agradecer a Hoag, e muito para detestar em Babcott... pois sua poção para dormir começou a me mergulhar no desespero. Não tenho mais medo, não estou mais desesperada, não compreendo por que, mas é verdade... graças a Malcolm e a Hoag, àquele pequeno advogado fedorento, com um hálito insuportável, e a André. André ainda é sensato, ainda é meu confidente, e assim permanecerá, contanto que eu lhe pague. Ele é um chantagista, sem dúvida. Mas isso não importa. Para ajudar a si mesmo, ele tem de me proteger, e no final das contas há um Deus no céu, e os caminhos de Deus podem ser lentos, mas não falham.
Posso tratar da minha vida agora, eu acho, se for cuidadosa.
Madona, concordamos há muito tempo que eu tinha de ajudar a mim mesma, não podia ser dependente de um homem, ou homens, como o resto das minhas pobres irmãs. Sei que sou uma pecadora. Malcolm foi de fato o único que já conheci que desejei de verdade, amei de verdade, com quem quis casar, amei como só uma adolescente tola pode amar. O primeiro amor é o verdadeiro amor? Ou o amor é uma emoção adulta? Sou adulta agora. Meu amor por Malcolm era adulto. Acho que sim e espero que sim.
Mas meu querido morreu. Aceito isso. E agora?
Tess? Hong Kong? André? Gornt? O lar? Tess?
Uma coisa de cada vez.
Primeiro, meu querido deve ser posto para repousar. De forma apropriada.
Ela olhou para o cofre, a porta fechada, mas não trancada. Levantou-se, abriu toda a porta, estendeu a mão, comprimiu uma pequena e oculta depressão no funo. Parte da parede da esquerda se abriu. Na cavidade, havia alguns papéis, outro sinete pessoal, outra bolsa com moedas e notas. Um vidro do medicamento dele. Uma caixa pequena. Uma semana antes, Malcolm lhe mostrara a cavidade secreta, sorrindo.
— Não há muita coisa para esconder por enquanto, pois todas as coisas importantes ficaram em Hong Kong, com a mãe, os documentos sobre ser o tai-pan, uma cópia do testamento do pai, o testamento da mãe, o sinete do tai-pan, assim por diante. Isto... — Ele dera de ombros, os olhos brilhando. — ...é para miudezas, os presentes secretos que eu possa lhe dar, se for muito boa, e me amar até a loucura...
Angelique abriu a caixa. Um anel de ouro, com rubis. Não muito valioso, mas o suficiente. Os documentos eram dos negócios, listas de números, que ela não entendia.
E nada de testamento.
Droga, pensou ela, sem raiva. Tornaria o futuro mais simples. Fora o que André ressaltara.
Ele fora chamado por Vargas naquela manhã, a seu pedido, da lista de pessoas que haviam comparecido e deixado cartões.
— Monsieur Vargas, primeiro meu alfaiate, preciso de roupas de luto com urgência. Depois, monsieur André e o Sr. Skye... não há necessidade de incomodar o Sr. McFay, até eu mandar chamá-lo. Para qualquer outra pessoa, estou descansando. — Uma pausa, e ela acrescentara, com o maior cuidado: — E, monsieur, cuide disso tudo com a discrição que meu marido disse que possui. Receberei a todos na sala do tai-pan.
Ela percebera um brilho nos olhos de Vargas ao “tai-pan”, mas ele nada dissera, e por isso não houvera necessidade de ser mais firme. A sala fora escolhida com todo cuidado, e quando o velho alfaiate chegara, com Vargas, Angelique dissera:
— Por favor, pergunte quanto tempo levaria para fazer um vestido de luto, preto, como este.
O que ela usava era de mangas compridas, gola alta, azul marinho.
— Ele diz que três dias. Luto, senhora? A cor para o luto na China é branco.
— Eu quero preto. De seda. E amanhã.
— Três dias.
— Se ele levar meu outro vestido, o azul claro que fez para mim, e tingi-lo de preto, quanto tempo?
— Ele diz que dois dias.
— Diga a ele que a viúva do tai-pan da Casa Nobre exige um vestido preto amanhã. Amanhã de manhã.
O velho chinês suspirara, fizera uma reverência e se retirara. Depois, Vargas anunciara André Poncin.
— Olá, André.
— Olá. Nunca a vi mais linda.
Era uma declaração, não um galanteio.
— Preciso de conselho, depressa, e confidencial. Devemos ser rápidos e sensatos. Meu casamento é legal?
— Achamos que sim, segundo a lei naval britânica. Não temos certeza sob a lei francesa. Ambas são áreas meio indefinidas.
— Não entendi.
— Sujeitas a contestações. Se houvesse uma disputa entre advogados franceses e britânicos, a lei britânica prevaleceria. O fato de ele ser um menor, os dois para ser mais preciso, embora neste caso ele seja mais importante, somado à sua desobediência às determinações por escrito da tutora legal, significa que a cerimônia de casamento provavelmente será contestada.
— Onde? Aqui? Por quem?
— Por Tess Struan. Quem mais? — dissera André, zombeteiro.
— A morte de Malcolm não tem o menor significado para você, não é?
— Ao contrário, complicou demais a minha vida, madame — respondera ele, usando o título pela primeira vez. — É uma complicação séria para nós dois.
Angelique resolvera sentar por trás da mesa de Malcolm, na sala de Malcolm, pois seu futuro estava em jogo, e precisava ter cem por cento da astúcia daquele homem, e mais ainda. Em sua suíte, poderia se sentir menos confiante, embora costumasse se apresentar da melhor forma possível em seu boudoir. É por isso que os homens têm escritórios, e as mulheres ficam limitadas à chaise e à feminilidade de um semiquarto?
— E como se pode descomplicar a situação, André?
— Já descomplicou a primeira complicação.
Quando ela fugira em desespero para a legação, André a interceptara, quase a arrastara para seu escritório, critidando-a assim que a porta fora fechada, sacudindo-a, furioso, e dizendo: Sua idiota, você enlouqueceu? Volte para a casa dele e fique lá! Não pode se esconder aqui ou vai se arruinar! Volte para lá, sua tola! Conversaremos mais tarde e, pelo amor de Deus, não assine coisa alguma, não concorde com nada! Vamos, vá logo!