Выбрать главу

— Você tinha toda razão, André — dissera ela, sem qualquer ressentimento contra sua veemência, compreendendo tudo agora. — Obrigada por me falar de maneira que eu pudesse entender, penetrando minha angústia. Essa foi a primeira complicação. Qual é a seguinte?

As rugas na testa de André se aprofundaram. Aquela era uma nova Angelique, uma quantidade desconhecida, inesperada. Ele testemunhara uma mudança assim duas vezes antes, em homens, nunca em uma mulher. Ambos eram espiões inimigos, libertados após extrema tortura. Os médicos não tinham outra explicação que não dizer que os homens não mais sentiam medo, não mais temiam a tortura nem a morte. Haviam sido arrastados à beira do abismo, sobreviveram, e agora estavam convencidos, acima e além de qualquer dúvida, que sobreviveriam de novo, independente do que lhes fizessem, ou morreriam, e isso já não importaya mais. Os médicos disseram que a própria morte nada significaria, até o dia, semanas, meses ou anos depois, em que o terror tornasse a erguer sua vil cabeça, como era inevitável.

Pobre Angelique, sentada ali, tão confiante, tão pretensiosa... Virá o dia em tudo vai transbordar e destruí-la. Vai conseguir se sobrepor ou acabará num hospício?

Pessoalmente, ele poderia apostar que tantas calamidades seriam demais para uma jovem assim: a fuga do pai, o roubo de seu dote, o estupro e a gravidez, a morte do estuprador, e agora essa nova e terrível morte, cujos detalhes ele e toda a colônia conheciam. André e Seratard haviam esperado que a mente de Angelique se dissolvesse, há meses, ainda esperavam que isso acontecesse, nenhum dos dois acreditando em Hoag, quando o interrrogaram.

Se Hoag pôde realizar esse milagre, pensou ele, irritado, por que os médicos não podem curar a maldita doença inglesa? Não é justo.

— A vida não é justa, não é?

— Não — concordou Angelique —, nem um pouco.

— Ele deixou um testamento, indicando-a como sua herdeira?

— Não sei. Malcolm nunca me falou a respeito.

— Angelique, no futuro, refira-se a ele como seu marido e a si mesma como a viúva.

— Por quê?

— Para ajudar a firmar sua pretensão à herança.

Ele a vira acenar com a cabeça e se impressionara com seu controle. É um ato de Deus que ela possa parecer tão tranqüila?

— Se não houver testamento, isso faz alguma diferença?

— É o que estamos tentando descobrir. Seria melhor se houvesse um testamento designando-a como herdeira. Agora, você deve voltar com... com os restos mortais para Hong Kong. Esteja preparada para a hostilidade da mãe... em público, tente se mostrar amiga. Deve comparecer ao funeral, vestida corretamente, é claro. — Depois, ele acrescentara: — Talvez Henri possa lhe dar uma carta para o nosso embaixador. Já o conhece?

— Já, sim. Monsieur De Geroire. Henri “poderia”? Que tipo de carta ele Poderia escrever para mim?

— Se fosse possível persuadir Henri, com sua recomendação você poderia ficar sob a proteção de De Geroire, como uma tutelada do Estado. Estou convencido de que é legalmente a viúva do falecido tai-pan, Malcolm Struan. Se Henri nos apoiasse com vigor, essa poderia se tornar uma política de Estado.

— Quer dizer que preciso de uma grande proteção?

— Eu tenho certeza disso, o que já não acontece com Henri.

Angelique suspirara. Fora isso também o que ela concluíra. Mas política de Estado? Era uma idéia nova, uma possibilidade em que não pensara. Política de -Estado representaria a proteção da França. Qualquer coisa valeria isso... não, não qualquer coisa.

— O que eu poderia fazer para persuadir Henri?

— Posso fazer isso por você. Ou pelo menos tentar.

— Pois então comece logo. E me avise esta noite o que posso fazer em retribuição. Antes do jantar seria conveniente ou amanhã de manhã... como você preferir.

Não houvera necessidade de dizer mais. Amanhã seria melhor, André informara, retirando-se em seguida. Antes da chegada da pessoa seguinte na lista, Skye, ela se recostara na cadeira, sorrira para o teto, especulando sobre o preço.

Tutelada do Estado francês? Gostava da idéia, pois sabia que precisaria de toda a ajuda que pudesse obter para combater a ogra de Hong Kong...

E agora, enroscada na outra cadeira de Malcolm, na suíte do tai-pan, a porta trancada por dentro, ela apreciou a idéia ainda mais, e outra vez especulou sobre o preço. Seria alto. As moedas de ouro secretas serão o suficiente para começar, depois o anel de rubis, e agora tenho um sinete, o sinete de Malcolm.

Ela guardou tudo de volta, fechou o compartimento secreto.

Contente com o progresso efetuado no primeiro dia de sua nova vida, fechou os olhos e mergulhou num sono sem sonhos, até que uma batida na porta a despertou. Eram quase quatro e meia.

— Quem é, por favor?

— Jamie, Angelique.

Uma corrente de expectativa a percorreu. Mantenha a calma, advertiu a si mesma, enquanto destrancava a porta, o gelo que você atravessa é extremamente fino e as águas por baixo são letais.

— Entre, por favor, meu caro Jamie. — Outra vez Angelique sentou na cadeira do marido, gesticulando para que ele se instalasse na cadeira que ela sempre ocupara antes. A mudança agradou-a. — Você parece muito aflito, triste demais.

— Ainda não consegui me acostumar à idéia... nem com as mudanças, Angelique.

— Posso compreender. É mesmo muito difícil.

— Você também mudou. Posso... posso dizer como parece maravilhosa, tão forte... ora, sabe como é.

— É justamente esse o problema, meu caro Jamie, não sei. Só sei o que aconteceu, e posso aceitar, já aceitei. Minhas lágrimas... creio que devo ter derramado todas as lágrimas da minha vida. Por isso, pelo menos no momento-não há mais lágrimas. Conversaram com Sir William?

— Conversamos. Skye disse que voltaria por volta das seis horas, se for conveniente para você.

Ele a viu balançar a cabeça, distraída.

— Não gosta dele, não é, Jamie?

— Não gosto de nenhum advogado. Eles sempre criam problemas, embora Skye não seja um mau sujeito. E creio que a servirá direito. Mas se ficar preocupada, trate de me avisar. Mal... Malcolm gostava dele, e você precisava de alguém para representá-la.

— Também é difícil para mim dizer o nome dele, Jamie. “Marido” é igualmente difícil. Ainda mais difícil. Não se sinta embaraçado.

Jamie balançou a cabeça, desolado, tirou as cartas do bolso.

— Sir William disse que as cartas fazem parte do espólio, como o dinheiro. Não pode decidir sobre as questões legais... vai enviar uma carta urgente ao procurador-geral em Hong Kong... mas não vê motivo para que você não fique com as cartas, se prometer não destruí-las. Quanto aos soberanos, você deve recebê-los... expliquei a ele que achava que você não tinha qualquer dinheiro seu no momento... mas ele pede, por favor, que lhe dê um recibo.