— Não tem problema. Ele leu as cartas?
— Não, ninguém leu. — Hesitante, Jamie largou-as em cima da mesa. — Há mais algumas coisas... fizemos uns acertos... gostaria que eu lhe dissesse agora, ou... posso voltar mais tarde.
— Não, estou bem. Que acertos, Jamie?
Ele respirou fundo, detestando ter de contar tudo, mas era seu dever.
— Em conferência com Sir William, Babcott e Hoag, acertamos que o corpo será despachado de volta a Hong Kong amanhã, para ser sepultado. Todos concordamos que seria o melhor. Estamos tomando todas as providências para tomar as coisas mais fáceis para você e a viagem tão tolerável quanto possível. O Dr. Hoag irá junto, para cuidar que não haja problemas.
O sorriso de Jamie era vazio, seu rosto um espelho de infelicidade.
— Não posso deixar de dizer como tudo isso me deixa triste. Ah Soh pode arrumar sua bagagem, no momento devido, Chen ajudará, se for necessário, e embalará as coisas que seguirão no navio, que zarpará com a maré noturna. Até lá, se precisar de alguma coisa, basta me avisar.
Jamie viu-a baixar os olhos para as mãos, os dedos virando o anel de sinete de Malcolm no dedo. Pobre Angelique, nem mesmo tem uma aliança de casamento.
— Bom, isso é tudo, no momento... gostaria de companhia no jantar esta noite?
— Obrigada, mas não. Comerei aqui, na sala de jantar, ou em meus aposentos. Mas, por favor, sente-se. Desculpe, mas isso não é tudo no momento. Meu marido não será levado de volta a Hong Kong para sepultamento. Quero que seja sepultado aqui. Nem eu nem meu marido jamais tornaremos a embarcar no Prancing Cloud.
Ela viu a expressão de Jamie, mas não se desviou do que decidira naquela manhã: a confrontação deveria ocorrer à primeira menção dos arranjos deles.
— Gostaria que eu lhe dissesse as disposições para o funeral agora ou prefere deixar para mais tarde?
— Mas já está tudo acertado! Todos achamos que seria melhor assim... sabemos que seria o melhor para você e todo mundo. A Sra. Struan certamente aprovaria, e gostaria que ele fosse sepultado em Hong...
— Sra. Struan? Eu sou a Sra. Struan. Está se referindo à outra Sra. Struan, Tess Struan? — Angelique falava sem qualquer emoção. — Ela não tem precedência neste caso. Sou a viúva e tenho precedência sobre a mãe.
— Por Deus, Angelique, só porque Skye diz que você é...
— Isso nada tem a ver com o Sr. Skye, Jamie. Não foi ele quem sugeriu nem o consultei. Ainda. Mas conheço os meus direitos, e os desejos de meu marido que serão cumpridos.
— Mas... mas... — O choque de Jamie era tão intenso que por um momento ele não conseguiu falar, mas depois as palavras saíram num fluxo rápido.— ...mas não pode prevalecer sobre o que Sir William, Babcott, Hoag e eu achamos que é melhor para você e para ele, o que temos certeza que é melhor para você e para todos. Está nervosa demais neste momento, Angelique. É o melhor, Angelique pode ter certeza de que é o melhor.
— Nervosa? Eu? Não diga bobagem, Jamie. — Ela se permitiu um pequeno sorriso glacial. — Não estou nem um pouco nervosa. Apenas pretendo cumprir os desejos de meu marido.
— Mas já foi tudo acertado, o Prancing Cloud está pronto para zarpar e... já foi tudo combinado.
— Fico contente em saber que o clíper está pronto para partir. Pois despachem-no imediatamente, a mãe deve ser informada da terrível notícia o mais depressa possível... e você mesmo deve cuidar disso, Jamie, siga no Prancing Cloud, é o mais alto funcionário da companhia aqui, tem esse dever. Peço-lhe que não espere até amanhã. Parta esta noite. Pode lhe transmitir a notícia terrível; isso vai atenuar um pouco a dor. Você tem essa obrigação.
— Claro que farei isso, se for necessário — murmurou ele, detestando a idéia. — Mas isso é um absurdo, Angelique, você não pode estar falando sério, deve compreender o que é melhor! Por Deus, Angelique, deve saber que isso é...
— O melhor para você e os outros, talvez, mas não para meu marido, e, portanto, não para mim. Ele tem o direito de ser sepultado como...
— Deve nos permitir fazer o que é o melhor! Seu corpo...
— O corpo de meu marido não vai, de jeito nenhum, embarcar naquele navio, nem eu — declarou ela, a voz calma. — Diga-me, meu amigo, se eu embarcasse no navio, como sugere, onde ficaria? No camarote principal?
Jamie fitou-a, surpreso, pois tal problema não lhe ocorrera.
— Não, claro que não. Poderia escolher qualquer outro camarote, e garanto que tudo...
— Pois eu garanto que tudo, até os mínimos detalhes, será feito de acordo com os desejos de meu marido.
Jamie limpou o suor da testa, a mente funcionando como nunca antes, um pouco nauseado, atordoado, pois era evidente que ela assumira o controle agora. Uma súbita idéia.
— Talvez você tenha razão. O Prancing Cloud seria um equívoco. Fretaremos outro navio... espere, o navio de correspondência deve zarpar depois de amanhã. Providenciaremos espaço a bordo para você, Hoag e... e ele. Além disso, persuadirei o capitão a partir antes. Amanhã... Isso resolveria tudo, não é?
— Não. — Angelique suspirou, cansada. — Desculpe, Jamie, mas não resolveria.
Havia agora uma ligeira irritação em sua voz, que se tornou mais incisiva:
— Por favor, Jamie, compreenda. A resposta é não. Ele será sepultado aqui, como desejava. Depois de amanhã.
— Não pode fazer isso! A Sra. Struan deve... isto é, Tess Struan precisa de mais tempo. Mandaremos o Prancing Cloud buscá-la, ela gostaria de comparecer ao funeral, deve estar presente.
— Você pode fazer o que quiser, mas meu marido será sepultado depois de amanhã, como queria... não creio que haveria tempo para o que você sugere. Mas não vou discutir. Desculpe, velho amigo, mas é você quem está nervoso e posso compreender. Por favor, peça a Sir William e ao Sr. Skye para virem falar comigo, juntos, o mais depressa possível, e acertarei a questão formalmente.
— Pelo amor de Deus! A cripta da família em Happy Valley é o lugar em que estão sepultados o avô, o pai, os irmãos e irmãs!
— Jamie, estou me cansando de repetir. Por favor, peça a Sir William e ao Sr. Skye para virem até aqui o mais depressa possível. Juntos.
Ele não sabia o que fazer, por isso deu de ombros, impotente, e se retirou.
Durante alguns minutos, Angelique permaneceu imóvel na cadeira, respirando fundo. Não fora tão ruim assim, pensou ela, depois esticou-se, levantou-se, foi para seu quarto. Havia um vestido limpo separado, austero, cinza escuro, estendido na cama. O vento sacudia as janelas, mas não lhe provocou nenhum calafrio. O espelho a chamava. Examinou-se. Em termos críticos. Sem sorriso. Ficou satisfeita com o que viu. A nova pessoa em que se transformara também a agradava. Era como se ajustar a um novo vestido... não, a uma nova pele.