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— Espero que dure — disse ela a seu reflexo. — Devemos nos empenhar para que dure. Esta minha personalidade é melhor do que a outra.

E ela pegou a primeira das cartas. As cartas de Tess Struan. Queria deixar a de Malcolm para o fim.

Sir William mantinha-se impassível. O mesmo acontecia com Jamie. Hoag e Babcott franziam o rosto. Heavenly Skye tinha um brilho divertido nos olhos, Todos sentavam em cadeiras diante da mesa de Malcolm. Angelique fitava-os de sua cadeira alta, pequena, mas segura ali. O vestido mais escuro do que antes, mangas três-quartos, decote quadrado, costas empertigadas, penteado impecável. Sem maquilagem, com uma aparência imponente.

— Depois de amanhã? — disse Sir William.

— Isso mesmo — confirmou Angelique. — Meu marido não deve ficar exposto por tempo demais para as pessoas prestarem sua última homenagem. Três dias não é o prazo normal, doutor?

— É, sim, Angelique, o normal — respondeu Hoag. — Mas já tomamos todas as providências para a preservação do corpo na viagem de volta a Hong Kong Tudo correrá bem, não precisa se preocupar. — Uma pausa, e ele acrescentou gentilmente: — Ele deve ser sepultado lá. Todos concordamos que é o melhor

— Já o embalsamaram?

Os homens se mexeram em suas cadeiras, apreensivos. Hoag disse:

— Não, pois não é o que se costuma fazer. Usamos... ahn... usamos gelo para garantir a preser...

— Gostaria de ser empacotado em gelo e despachado para Hong Kong como uma carcaça de carneiro da Austrália?

A tensão na sala disparou, os homens ainda mais embaraçados do que antes. A voz de Angelique permanecia serena, firme e cordial, o que tendia a enfurecê-los mais ainda. Exceto por Skye, para quem ela adquiria uma nova dimensão.

— Não é essa a questão, madame — disse Sir William. — Achamos que, por ele e pela família, o sepultamento em casa é o mais sensato.

— Ele admirava o avô, o tai-pan, não é mesmo?

— É, sim. — Abruptamente, Sir William relaxou, não mais preocupado, pois agora tinha a solução para o enigma, independente do que ela pudesse dizer. — Todos sabem disso. Por quê?

— Muitas vezes, em várias palavras, Malcolm disse que queria viver como ele, ser lembrado como ele, e sepultado como ele. E é assim que será.

— Correto e muito sensato. — Sir William acrescentou, incisivo: — O avô está sepultado na cripta da família, no cemitério em Happy Valley. Angelique, concordo que deve ser assim com Malcolm. Compreendo agora...

— Mas Dirk Struan não foi sepultado em Hong Kong — declarou ela, surpreendendo a todos. — Sei que seu nome foi esculpido na lápide, mas ele foi sepultado no mar. Meu marido será sepultado no mar, da mesma maneira.

— Desculpe, Angelique, mas você se engana — interveio Jamie. — Eu estava presente, tinha acabado de ingressar na Struan, como um aprendiz de mercador na China, recém-chegado da Inglaterra, e compareci ao funeral. Foi imponente, com a presença de todos em Hong Kong. Houve até uma procissão imensa e separada em Chinatown, organizada por Gordon Chen.

— Desculpe, Jamie, mas é você quem se engana. Puseram um caixão vazio na cripta. Ele foi sepultado no mar, junto com sua amante, May-may, em águas internacionais, ao largo de Hong Kong. — Ela sentiu as lágrimas se aproximarem. Nada de lágrimas, ordenou a si mesma. Ainda não. — Ele foi sepultado no mar. Houve um serviço cristão, celebrado da maneira correta, como ele desejava, e as testemunhas foram Culum e Tess Struan, Gordon Chen e Aristotle Quance.

— Não é possível! — protestou Jamie.

— É, sim, e foi o que aconteceu. A hierarquia de sua Igreja recusou-se a permitir que eles fossem sepultados juntos, recusou-lhes um sepultamento cristão no campo consagrado de Happy Valley.

— Mas eu assisti ao funeral, Angelique! Ele foi sepultado ali. Não sei onde May-may foi sepultada, mas concordo que não estava com ele.

— Você testemunhou uma impostura, Jamie. O caixão estava vazio.

— Isso é bobagem — disse Sir William.

— A hierarquia foi intransigente na proibição a que fossem sepultados juntos — continuou Angelique, como se ele não tivesse falado. — Seria uma coisa sem precedentes. Sentiam-se escandalizados com Dirk Struan por muitas razões, como sabe muito bem, Sir William, e essa idéia era demais para eles. Em seu testamento, a parte que é transmitida de tai-pan para tai-pan, escrevera duas semanas antes de sua morte que se morresse junto com May-may deveriam ser sepultados juntos, já que tinha a intenção de casar com ela, e...

— Ele escreveu mesmo isso? Pretendia casar com ela? — Sir William mostrava-se chocado, tanto quanto os outros, pois mesmo hoje o casamento com uma chinesa era inadmissível... o ostracismo seria permanente, até mesmo para Dirk Struan. — Ele escreveu mesmo isso?

— Escreveu — confirmou Angelique, percebendo que Hoag era o único que não partilhava a consternação de Sir William.

Os ingleses, os britânicos em geral, são pessoas horríveis, pensou ela. Hipócritas, fanáticos, bárbaros, diferentes de nós, sempre manifestando seu antagonismo ao casamento entre protestantes e católicos, detestando ainda mais o casamento inter-racial com povos de seu Império.

Por que considerar o casamento inter-racial um pecado hediondo, ela teve vontade de gritar, já que vocês sempre têm amantes nativas, e filhos com elas, abertamente? Quanta hipocrisia! Nunca foi assim entre nós, em nossas colônias, no império francês. Se um francês casa com uma nativa, ela se torna não apenas sua esposa, mas também francesa, com toda a proteção da lei francesa. Até encorajamos o casamento inter-racial, o que é correto. Um homem é um homem e uma mulher é uma mulher, qualquer que seja a cor de sua pele, mas não para vocês. Deus me guarde de me tornar inglesa. Graças a Deus que nunca poderei renunciar à minha cidadania francesa, não importa com quem case...

Mas o que estou pensando? — ela perguntou a si mesma, com um sobressalto, obrigando-se a retornar à sala, a enfrentar aqueles inimigos de seu marido. — Teria tempo suficiente para tais devaneios mais tarde.

— Acho difícil compreender algumas atitudes britânicas, Sir William, sobre o casamento inter-racial, mas também sou francesa. Entretanto, deixando isso de lado, posso dizer que houve um impasse no funeral do avô de meu marido: sua Igreja ficou indignada, não queria concordar que os dois fossem sepultados juntos. O novo tai-pan, o filho dele, Culum, insistia nisso... qualquer outra coisa que não um sepultamento cristão apropriado para Dirk Struan era inconcebível. Culum Manteve uma posição mais firme do que Tess, perturbada pelos desejos de Dirk, com seu escárnio às convenções, que eram os alicerces de todas as convicções dela. Seu pai, Tyler Brock, agora o mais poderoso mercador na ilha, opunha-se, com veemência, assim como a mãe, e a maioria dos mercadores, publicamente, independentemente do que sentissem em particular. O governador apoiou a Igreja.

— É verdade — murmurou Sir William.