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— Se Hong Kong fosse católica, minha Igreja também se mostraria hostil. O escândalo ameaçava a colônia, e era uma ocasião em que a maior parte de Hong Kong se encontrava em ruínas, depois do tufão... e sem gelo.

Todos se remexeram em suas cadeiras, exceto Skye, que arriou ainda mais na sua, com o mesmo tênue sorriso. Babcott disse, gentilmente:

— É a prática médica normal e correta para pessoas importantes, nessas circunstâncias, Angelique. Seu marido era e ainda é importante para nós. Deve acreditar nisso.

— Acredito. — Ela desviou os olhos dele, fitou Sir William, como antes continuando a falar no mesmo tom tranquilo: — Para romper o impasse, chegou-se a um acordo. Foi proposto por Gordon Chen e Aristotle Quance, verbal, nada por escrito. Discretamente... seria melhor falar em segredo, pois foi assim... os corpos foram levados para o China Cloud. A cerimônia da igreja anglicana foi oficiada pelo capelão naval e o capitão Orlov. Foi um sepultamento cristão correto. Dirk Struan e sua amante, May-may Sheng, foram sepultados juntos, como ele desejava.

— Se foi tão secreto assim, como pode saber que isso é verdade?

— Ficou registrado no diário de bordo, Sir William, que foi imediatamente levado para o cofre particular do tai-pan. Todas as testemunhas, Culum e Tess Struan, Aristotle Quance, Gordon Chen e a tripulação mínima a bordo prestaram sagrado juramento de segredo. O capelão naval, não sei quem era, foi enviado de volta à Inglaterra logo em seguida. O outro funeral foi realizado com toda a pompa devida ao tai-pan da Casa Nobre.

O silêncio persistiu na sala, rompido apenas pelo barulho do vento contra as janelas, uma tarde de sol lá fora. Sir William perguntou:

— Viu o diário de bordo?

— Não, nem falei... com a mãe dele sobre isso.

Jamie disse:

— Tess Struan poderia confirmar, ou Gordon Chen... se concordassem em violar seu juramento... e se quisessem fazê-lo.

Skye empertigou-se em sua cadeira.

— Esta manhã a Sra. Struan me perguntou se era verdadeira essa história que seu marido lhe contara. Por sorte, pude confirmar alguns detalhes.

— E sabe que é verdade por causa disso?

— Conheci por acaso um dos tripulantes, menos suscetível ao juramento de sigilo do que os outros. Um marujo, Hennery Fairchild... não tenho a menor idéia se continua vivo ou se já morreu... mas assim que cheguei a Hong Kong, Sir William, tratei de descobrir tudo o que pudesse sobre a Casa Nobre, os Brocks, Quance, sobre a fundação de Hong Kong, e... as várias corrupções que ocorreram em altos postos.

Sir William balançou a cabeça, irritado, achando o mau hálito e os dentes podres do pequeno advogado mais repulsivos do que o habitual, a par de alguns dos sórdidos escândalos que haviam sido mantidos longe do conhecimento público, antes de sua vinda para a colônia.

— Tudo isso não passa de boato.

— Não teria muita influência num tribunal, Sir William, mas é verdade.

O que fazer?, pensou Sir William. Tenho de fazer a coisa certa. O julgamento de Páris? Não, tudo isso é apenas um tufão numa taça de vinho.

— Muito bem, madame, vamos respeitar os desejos dele. Jamie, envie o corpo imediatamente para Hong Kong, onde será sepultado no mar.

Ali chegando, pensou ele, Tess Struan pode cuidar do problema e se engalfinhar com Angelique Struan, que não vou mais me envolver. O que deu em Angelique? Nunca vi uma mudança tão grande!

— Posso compreender sua aversão ao Prancing Cloud. Providenciaremos a viagem no navio de correspondência.

— Obrigada, Sir William, mas não será assim — disse Angelique, sempre calma. — Meu marido não será enviado no gelo para Hong Kong, como uma carcaça. De jeito nenhum.

— Por Deus, madame, se eu ordenar, assim será feito.

— Tem razão, se ordenar. Mas, Sir William... — Ela olhou para Skye. — Qual é a situação legal?

— Legalmente, os desejos do marido, apoiados pela viúva, teriam precedência.

— Antes de eu responder a isso, onde há alguma prova? Não existe nenhuma. Quanto à precedência... sobre quem? — Sir William estava irritado agora. — Sobre a Sra. Struan, Tess Struan, é isso o que está querendo dizer? Devemos ignorar qualquer consideração com ela?

Skye fez menção de responder, mas Angelique gesticulou para que ele ficasse calado, e disse:

— Claro que não. Se o Prancing Cloud zarpar agora. Uma viagem rápida até Hong Kong dura dez dias, com outros dez para voltar, o tempo bom. Dr. Hoag, há tempo para o seu... o seu gelo preservar os restos mortais de meu marido de maneira apropriada durante esse período, para que sua mãe venha até aqui... se ela desejar vir?

Hoag pensava em Dirk Struan e sua lendária May-may, sua amada beldade, sobre o casamento inter-racial, como ele próprio desejava não ter matado sua esposa, o grande amor de sua vida.

Muitas vezes sentira que fora o culpado. Seu amor por ela deveria ter sido bastante grande para evitar o casamento, para não tirá-la de sua segura e serena vida indiana, levando-a para o desastre, que sabia ser o fado de ambos. E fora mesmo.

Mais uma vez, seu futuro se encontra na balança, Hoag, meu velho. Vai ajudar esta moça ou Tess Struan? Não se esqueça de que foi culpa sua que o maldito assassino sobrevivesse para assustá-la de novo, quase até a morte.

— Em termos médicos, é possível, mas aconselho contra — disse ele, lançando rápido olhar para Babcott, advertindo-o a não interferir. — A decisão, Sir William, é se ele deve ser enviado para Hong Kong ou não. Se não, acho que deve ser sepultado como... como sua esposa deseja.

Sir William hesitou, irritado porque sua solução não fora aceita.

— Angelique, porque se opõe a ir com o corpo para Hong Kong, se não no Prancing Cloud, então no navio de correspondência?

— Eu me oponho porque neste caso ele não será sepultado da maneira como deseja, como o avô... a mãe nunca admitiria a outra história, nem poderia. Sou a viúva e os desejos de meu marido são os meus desejos, com toda a força do meu coração.

Sir William não tinha certeza de sua base legal para concordar ou discordar e sentia a maior preocupação por Tess Struan, agora no comando de fato da Casa Nobre, por sua oposição por escrito ao casamento, e o que ela faria se o corpo não fosse enviado a Hong Kong.

Ficará furiosa, com toda certeza, pensou ele, sentindo um calafrio. É óbvio que ela haveria de querer que o sepultamento fosse lá, deve ser lá, no mar ou não, qualquer que seja a verdade ou inverdade da história, e cinqüenta libras contra um penny furado como ela tentará de qualquer maneira anular o casamento, com uma boa chance de conseguir. Ou seja, minha pobre dama, você se encontra numa situação crítica, quer goste quer não.

— Receio que esteja convertendo um acontecimento já trágico numa coisa ainda mais complicada do que precisa ser. O pobre coitado pode ser sepultado no mar tanto em Hong Kong quanto aqui. Assim, a melhor coisa...