— Tai-tai! Você é surda?
— Quer que eu arrume as coisas... tai-tai?
— Não. Amanhã, se der.
— Como, miss?
Angelique suspirou.
— Tai-tai!
— Miss tai-tai?
— Saia!
— Homem da medicina quer falar.
Ela já ia dizer “saia!” de novo, mas mudou de idéia.
— Que homem da medicina?
— O sapo, miss tai-tai.
Hoag. É verdade, ele parece um sapo, pensou Angelique, e se surpreendeu ao descobrir que estava sorrindo.
— Mande ele entrar.
Quando Hoag entrou, ela disse:
— Boa noite, doutor. Como tem passado? Estou bem agora, graças à sua ajuda.
— Está mesmo? — Ele tinha os olhos injetados de fadiga, o rosto pálido e amassado, como sempre, mas irradiava uma simpatia que era fascinante. Fitou-a nos olhos. — Tem razão, dá para perceber. Mas seja cautelosa, Angelique, não se exija demais, vá com calma. Use o bom senso.
— Prometo que farei isso.
— Foi maravilhosa esta tarde.
— Mas perdi.
— É verdade. George Babcott e eu lamentamos muito por isso, ficamos comovidos com a sua história, e o apelo de Heavenly. George vai jantar com Wee Willie e tentará de novo, mas eu... nós não temos muita esperança.
Ele a viu dar de ombros, apenas um gesto mínimo, e continuar a observá-lo, os olhos enormes na palidez de seu rosto.
— Precisa de alguma coisa? Para dormir ou se acalmar... não, posso ver que não precisa de nenhum calmante. Fico contente por isso, muito contente. Queria conversar um pouco com você... importa-se?
— Claro que não. Sente-se, por favor. Como foi a audiência? Ah, tem uísque e outras bebidas ali, se quiser.
— Obrigado.
No aparador, havia copos Waterford e garrafas de cristal, alinhadas como soldados, em descansos de prata georgiana, com rótulos também em prata pendurados no gargalo: Uísque, Conhaque, Xerez, Porto. Ele escolheu uísque, serviu-se de meio copo.
— A audiência transcorreu como se esperava, Edward Gornt foi absolvido de qualquer culpa e elogiado por sua bravura. O juiz sumariante, Skye, considerou que a morte de Greyforth foi acidental e Gornt perfeitamente correto ao tentar impedir o que poderia ter sido um assassinato brutal. Ficamos surpresos por ele ter usado palavras tão fortes, embora verdadeiras. — Hoag sentou na frente dela, ergueu o copo. — Saúde!
— Salut! Estou contente por Edward. Ele merece muitos louvores.
— E você também. Sua história me deixou profundamente comovido.
— E é verdadeira. Também não acredita em mim?
— Claro que acredito. E é sobre isso que queria conversar. E a compreendo muito bem.
Depois, com eloqüência, Hoag relatou sua própria história, o tempo que passara no exército indiano, como se apaixonara e casara, contra todas as convenções, o ostracismo imediato, terrível, o retorno à Inglaterra. E a situação não melhorara ali.
— Tornou-se até pior. Arjumand morreu, era esse seu nome, o mesmo da amada de Shah Jahan, que construiu o Taj Mahal. — Ele olhava para o fogo contando a história ao fogo também, vendo imagens de seu amor ali, os dois juntos, nos dias felizes antes do casamento. — Fiquei muito triste, mas ao mesmo tempo contente, por ela não sobreviver demais no ódio. Pegou uma gripe e morreu depressa, como uma gloriosa planta de estufa numa aragem gelada... e ela era isso, não pode imaginar como era refinada, assim como não posso acreditar que ela me amava... pois sei como sou feio. Eu a amava loucamente e a matei.
— Seu rosto muda quando fala sobre ela. Não a matou. Foi o destino. Você não foi culpado.
Essa palavra de novo, pensou Angelique.
— Fui, sim, ao casar com ela, levá-la para a Inglaterra. May-may morrido também, desamparada, solitária, desesperada de saudade de sua terra. Nem mesmo o grande Dirk Struan poderia resistir à opinião pública, se não se tivessem casado. Ambos tiveram sorte de morrer daquele jeito. Angelique observava-o, viu seus olhos úmidos.
— Malcolm teve sorte por ter morrido como morreu? Disse que ele estava muito sereno. Morreria de qualquer maneira?
— Receio que sim. Poderia ter morrido a qualquer dia, a qualquer hora. Vivia em tempo emprestado e acho que sabia disso. Isso a deixou arrepiada. — Por que ele não foi informado... por que não o avisou, a nós dois?
— Foi um ato de Deus... não sabíamos, não com certeza, como sabemos agora. Era impossível saber ou teríamos avisado.
— Não estou entendendo. Diga-me a verdade, por favor. Preciso compreender.
Hoag explicou, gentilmente:
— Suas entranhas, por baixo e ao redor do ferimento, se encontravam em pior situação do que imaginávamos. George não podia sondar muito em torno do ferimento, quando o levaram ao hospital, pois isso o teria matado na ocasião. A autópsia revelou que ele estava apodrecendo.
— A operação foi bem-feita?
— Foi, sim, um trabalho de primeira classe. A reparação realizada por George foi admirável, tão boa quanto qualquer outro poderia fazer — declarou ele e Angelique acreditou. — O problema é que não podemos substituir, apenas reparar, e havia bolsas de septice... o motivo de tanta dor, pobre coitado... e lesões graves, que o impediam de se empertigar.
Uma pausa e Hoag acrescentou, desolado:
— Ele estava no final de seu tempo emprestado. Mesmo assim, tenho certeza que você transformou seus últimos dias nos mais felizes que qualquer homem poderia desfrutar.
Um carvão caiu no braseiro. Os olhos de Angelique desviaram-se nessa direção. A chama se elevou, tremeu, extinguiu-se... como meu Malcolm, pobre coitado, pobre amor.
— Triste — murmurou ela para o fogo. — Muito triste.
Hoag a avaliava, avaliava a si mesmo, e à lembrança de Arjumand... que Angelique fizera renascer. Era fácil decidir agora, depois de partilhar Arjumand, Pesou ele. Nervoso, ele terminou o drinque.
— Posso?
— Claro. À vontade.
Hoag tornou a se servir, em quantidade menor.
— Mas eu queria realmente falar sobre o sepultamento. Ainda é possível fazer o que você e Malcolm queriam.
— Como?
Ele voltou a sentar diante de Angelique.
— Sepulte-o no mar, como o avô, como ele queria, como você quer. Posso ajudá-la.
— De que jeito?
Hoag enxugou o suor da testa.
— Procure Sir William, diga que se submete ao inevitável, por mais que deplore sua decisão, vai permitir que o corpo seja enviado para Hong Kong. Amanhã, nós, Babcott e eu, levaremos o caixão para bordo do Prancing Cloud, de Kanagawa, onde se encontra no momento. Você testemunha a partida do caixão oficialmente, alegando que não suportaria acompanhá-lo no Prancing Cloud, mas seguirá no dia seguinte, no navio de correspondência, quando zarpar para Hong Kong. Todos ficam satisfeitos.