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— Mas o caixão segue vazio? — indagou Angelique, excitada.

Ele sacudiu a cabeça, a testa e as bochechas brilhando, à luz do fogo.

— Não. Haverá um corpo no caixão, mas não o dele. De um pescador coreano, que morreu em Kanagawa esta manhã, na clínica. Enquanto isso, o corpo de Malcolm fica em outro caixão, ainda em Kanagawa, secretamente. Se Jamie nos apoiar, poderia levar o cúter até lá amanhã, ao final da tarde. Sairemos para o mar, e se conseguirmos Tweet para oficiar a cerimônia, Malcolm poderá ser sepultado como você deseja. No dia seguinte, você embarca no navio de correspondência, sem que mais ninguém saiba... basta todos os envolvidos jurarem segredo.

— Há muitos “ses” — murmurou Angelique, o coração batendo forte.

— E outros ainda, nos quais ainda não pensei — disse Hoag, tornando a enxugar a testa, sentindo um aperto na garganta. — Foi apenas... A idéia me ocorreu há poucos minutos. Ainda não pensei em tudo, pode ser impossível, mas eu queria ajudar. Com ou sem George, posso fazer a primeira parte, trocar os corpos. Você tem de fazer o resto. Talvez eu possa ajudar, não sei. Não sou muito bom em guardar segredos. E temos de decidir agora, se... Eu teria de voltar a Kanagawa esta noite, enquanto George janta aqui. O que você acha?

Angelique levantou-se abruptamente, foi abraçá-lo, envolvendo-o com perfume e gratidão.

— Vamos tentar... e obrigada, muito obrigada.

— Queria me falar, madame? — disse Gornt.

— Queria, sim. Entre e sente-se, por favor.

Angelique sentava junto da janela grande do escritório do tai-pan, onde havia cadeiras de braços, uma mesa de carvalho e um aparador. Chen se encontrava de pé ali perto.

— Gostaria de dizer mais uma vez como lamento o que aconteceu. Se houver alguma coisa que eu possa fazer, madame, basta pedir.

— Sei disso, e agradeço, Edward. E pode ajudar. Todos nós precisamos de amigos. Fico contente que a audiência tenha transcorrido sem problemas... deveria ganhar uma medalha. Foi muita bravura sua. Quero lhe agradecer por Jamie, pois não sei o que faria sem ele.

Um bom fogo ardia na lareira, as delicadas cortinas de seda tailandesa excluíam a noite. Chen encaminhou-se para o balde de gelo, onde havia uma garrafa aberta.

— Meu marido disse que gosta de champanhe.

— É verdade, madame, gosto mesmo.

Gornt pensava na audiência e no veredicto que encerrava para sempre o perigoso capítulo de Norbert. O juiz sumariante, Heavenly Skye, fora mesmo uma dádiva celestial, correspondendo a seu nome. Angelique gesticulou para que Chen servisse os dois copos altos.

Doh jeh — obrigado, disse Gornt, aceitando seu copo.

Chen fitou-o boquiaberto, como se não tivesse entendido, desprezando ainda mais aquele impertinente demônio estrangeiro por ousar falar um dialeto civilizado.

— Espere lá fora, Chen—ordenou Angelique. — Se quiser chamá-lo, usarei o sino.

Ela indicou o sino de prata na mesinha lateral.

— Está bem, miss.

Angelique lançou-lhe um olhar furioso.

Tai-tai!

— Pois não, miss tai-tai.

Chen retirou-se, satisfeito com as pequenas vitórias. Os criados haviam solicitado uma reunião, que ele presidira. Ah Tok, a mente divagando, queria que usassem um bruxo para pôr o mau olhado naquela “possuidora de um canal da morte”, mas ele dissera:

— Não, não podemos... e não foi isso. A morte do amo não foi culpa dela. O amo casou com ela, e nos obrigou a chamá-la de tai-tai, na sua presença. Nosso acordo é chamá-la primeiro de “miss “ e depois de “miss tai-tai”, até que a questão seja decidida pelo ilustre Chen, para quem meu relatório urgente e detalhado já foi despachado, e se encontra a bordo do Prancing Cloud.

Na sala, Angelique disse:

Salut, Edward.

— À sua saúde, madame.

Ela tomou um gole mínimo, ele bebeu com satisfação.

— Champanhe é uma fonte de vida para mim — comentou Gornt, desejando mesmo instante não ter dito isso. — Nunca tive condições de beber, a não ser em ocasiões festivas.

— Também gosto de champanhe, só que não esta noite. Mas em breve você terá condições de tomar todo champanhe que quiser, não é mesmo? Meu marido me contou que seus negócios vão melhorar, e muito, e que tinha muitos segredos a partilhar com ele... em benefício mútuo.

— Ele contou? — Gornt foi apanhado desprevenido, pois combinara com Malcolm Struan que não revelariam nada a ninguém. Norbert? Norbert não contava, pois era parte do plano confundir o inimigo, e Norbert sempre fora inimigo. — Segredos, madame?

— Ele me disse que o apreciava e confiava em você, assim como eu, que era um homem capaz de guardar segredos, além de conhecê-los, e que compreendia o valor de velhos amigos... no sentido chinês.

— Essa parte é verdade. Eu também o apreciava, e confiava nele.

— Jamie disse que você reservou passagem no Prancing Cloud.

— É verdade, madame.

— Meu marido contou que você lhe daria informações especiais sobre a maneira de arruinar os Brocks. Falaria tudo ontem de manhã, depois... foi apenas ontem? Parece que tudo aconteceu há uma vida inteira... e para Malcolm foi mesmo, pobre Malcolm.

Gornt suspirou, triste por ela.

— Tem razão. Posso dizer que mudou, madame? Está diferente. Sem querer ser impertinente, ou insensível, permita-me dizer que a mudança lhe foi bastante favorável.

— Eu preferia dez mil vezes ter meu marido vivo e não ter mudado. — A franqueza a surpreendeu, embora sempre achasse fácil conversar com Gomt, como também acontecia com Malcolm. — Ainda não tenho certeza sobre a mudança, se me agrada. Crescer tão depressa é... não sei a palavra certa... angustiante, assustador.

Ela se levantou, serviu mais champanhe no copo de Gornt, pôs o balde com o champanhe na mesa, mais perto dele.

— Obrigado — murmurou Gornt, mais consciente da presença de Angelique do que nunca.

— Decidi não viajar para Hong Kong no clíper.

— Já ouvi um rumor, madame, que não queria ir a bordo daquele navio de novo... nem os restos mortais de seu marido... e seguiria pelo navio de correspondência. — Assim que ouvira isso, por precaução, ele procurara o agente para reservar passagem também no navio de correspondência, mas todos os camarotes já estavam ocupados. Contrariado, tentara falar com Jamie, mas não o encontrara. — Posso compreender que não queira embarcar nunca mais no Cloud.