As mãos de Angelique repousavam tranquilas em seu colo, a voz era suave e controlada.
— Esses segredos que contaria a meu marido... vai revelá-los a mim?
Gornt exibiu seu lindo sorriso, fascinado por ela, sacudiu a cabeça.
— Lamento, madame, mas não... mesmo que tivesse algum. Ela balançou a cabeça, sem se mostrar ofendida.
— Nem esperava que me contasse. Tenho certeza que nunca os entenderia, se me dissesse tudo, e também não teria condições de aproveitá-los, não é mesno?
Gornt sorriu e ela acrescentou:
— Mas Tess Struan pode aproveitá-los, não é?
— Como, madame?
— Meu marido disse que se alguma coisa lhe acontecesse, você partiria no mesmo instante para Hong Kong, a fim de negociar diretamente com sua mãe, e fazer com Tess Struan o mesmo acordo que tinha com ele. E acrescentou que agia assim porque odiava os Brocks... não me explicou por que os odiava. — Angelique estendeu a mão, ficou mexendo na haste de seu copo. — Tess Struan com certeza poderia aproveitar as informações, se o que você alega for verdade, não é? Isso foi na terça-feira, antes de casarmos.
Gornt tornou a avaliá-la, com uma expressão satisfeita em seu rosto bonito.
— Posso compreender por que meu marido gostava de você, Edward, por que seria um inimigo perigoso e um amigo ainda mais perigoso.
Isso o fez rir, e a tensão entre os dois se evaporou.
— Não para você, madame, nunca, eu juro. Nunca mesmo.
— Veremos. Temos muitas pontes a cruzar, você e eu, mas, por Deus, como diria meu marido, estou adotando suas esperanças e sonhos como meus: que você pode ajudar a Struan a destruir os Brocks, de uma vez por todas. Talvez seus sonhos e esperanças também.
— Meus?
Angelique abriu sua bolsa e tirou o papel que encontrara no compartimento secreto do cofre, levantou-o contra a luz e leu em voz alta:
— “Isto é o meu solene acordo com o Sr. Edward Gornt, cavalheiro, da Rothwell, em Xangai: se as informações que ele fornecer ajudarem a Struan a destruir a Brock and Sons, levando-os à ruína nos próximos seis meses, eu garanto, em nome da Struan, que ele receberá, da massa falida, os 50% de participação da Brock na Rothwell, de graça e sem qualquer condição, que o ajudaremos de boa fé, da melhor forma que pudermos, junto ao Victoria Bank, a fim de que levante o empréstimo necessário para a aquisição dos outros 50%, pertencentes a Jefferson Cooper, que a partir desta data, pelo prazo de vinte anos, a Struan lhe concede, ou a qualquer companhia que ele controlar pessoalmente, a posição de nação favorecida, em quaisquer operações comerciais de acordo mútuo.”
Ela estendeu o papel para que Gornt visse, mas não o entregou.
— A data é de anteontem, Edward, está assinado, mas sem testemunhas. Gornt não fizera qualquer menção de pegar o documento. Sua visão era ótima.
Enquanto Angelique lia, já reconhecera a assinatura. Sem as testemunhas, não tem valor real, pensou ele, sua mente se deslocando apressada de um plano para outro, de uma indagação a outra, para as respostas.
— E daí?
— Eu poderia testemunhar a assinatura de meu marido. Sua mente parou de girar, com um solavanco.
— De um modo geral, o testemunho da esposa à assinatura do marido não é válido.
— Digamos que eu testemunhasse no mesmo dia... antes do casamento.
De onde será que ela está tirando tudo isso?, especulou Gornt, frenético. De Jamie? De Heavenly? Ela até parece um dos novos rolos compressores de Stevenson.
— Mesmo assim, mesmo que o documento tivesse uma testemunha, não seria compulsório para a Casa Nobre.
— É verdade, mas teria muito peso com Tess Struan... seria um acordo com seu filho. Não serviria para confirmar que você trabalhava com meu marido clandestinamente, para realizar a maior ambição da vida de Tess Struan?
— É bem possível, madame. — Ele hesitou. — Jamie aprova o documento?
— Ele não sabe nada a respeito. Ninguém mais sabe, só eu.
Angelique acreditava nisso. Por que outro motivo Malcolm o esconderia?
Pensativo, Gornt serviu-se de mais champanhe... e notou que ela não bebera mais nada.
— Imagino que um favor assim exigiria outro em retribuição, madame.
— Gostaria que viajasse no Prancing Cloud, a toda velocidade, como planejava, para se encontrar com Tess Struan. E entregasse uma carta minha.
Os olhos de Gornt se arregalaram em incredulidade.
— Isso é tudo?
— Não exatamente. Quando chegar a Hong Kong... o clíper estará lá muito antes do navio de correspondência... deve procurá-la antes que ela tome conhecimento da trágica notícia da morte de meu marido por intermédio de qualquer outra pessoa. É essencial que você a alcance primeiro, diga que traz uma terrível notícia, mas também informações secretas, informações vitais que garantirão a ruína dos Brocks para sempre, que logo os porão para fora dos negócios para sempre. — Angelique respirou fundo. — É o que vai acontecer, não é?
— É, sim — respondeu ele, pois não havia mais necessidade de negar.
— Depois, diga a ela que os Brocks planejaram assassinar Malcolm, usando Norbert Greyforth. Terceiro, que...
— Eles o quê?
— Não é verdade? Isso não era parte do plano de Tyler Brock? Ou de Morgan? Jamie pensa assim... e seria capaz de jurar. O Sr. Skye me falou sobre o duelo, o resto arranquei de Jamie... por que haveria um duelo. Norbert não era apenas um peão para o assassinato?
— É possível — murmurou Gornt, impressionado. — Mais do que isso, bem provável. E depois?
— Depois... — A voz de Angelique tornou-se mais clara, e estranhamente mais incisiva. — Por favor, diga a ela que é por minha causa que está levando informações para destruírem os Brocks... deve realçar isso.
— Por sua causa?
— Por minha causa. Enfatize isso. É importante para mim, não e pedir demais, e você conseguirá o que quer, de qualquer maneira.
— Tem certeza?
— Tenho. Diga a ela que ia esquecer esse contrato escrito com seu filho achando que não tinha mais valor. Mas como eu pedi, até suplique que a procurasse, no lugar do filho, você decidiu seguir o mais depressa possível para Hong Kong. — Angelique inclinou-se para a frente. — As informações exigem urna ação rápida, não é mesmo?