— É, sim.
— Pois enfatize isso. Mas, acima de tudo, ressalte que fui eu quem o persuadiu a ir procurá-la, que minhas súplicas o convenceram a lhe entregar as informações para destruir os inimigos de Malcolm e dela... que eu lhe assegurei que ela cumpriria o contrato, ou lhe ofereceria outro equivalente. E é o que Tess Struan fará, posso garantir.
— Com sua assinatura?
— É a primeira coisa que ela vai notar, por isso deve mencioná-la antes. Diga que Malcolm me pediu para ser testemunha de sua assinatura, dizendo apenas que era um contrato de negócios entre vocês dois, e que eu assinei na sua presença, sem pensar... na segunda-feira, antes da festa. Por último, diga que tem uma carta urgente minha e entregue-a. — Angelique levantou seu copo. — Se ela ler na sua frente... o que não deve acontecer... mas se ela ler, eu gostaria de saber sua reação.
Angelique tomou agora um segundo gole de champanhe, recostou-se, esperando, os olhos fixados nos dele. Seu rosto nada deixava transparecer.
— O que tem na carta?
— Poderá ler, se assim desejar, antes de eu lacrá-la. — Uma pausa, e ela acrescentou, o tom suave, sem maldade: — Vai lhe poupar o trabalho de abri-la.
A mente de Gornt ponderava sobre o enigma que era aquela mulher à sua frente.
— E a notícia da morte de Malcolm... do casamento e morte... como devo transmitir isso e o resto?
— Não sei, Edward. Você saberá como fazê-lo.
Ele soltou um grunhido, atônito com a desfaçatez, não, não desfaçatez, era mais astúcia. Não restava dúvida de que o objeti vo de Angelique era se insinuar no favor de Tess, superando a hostilidade atual, e prevenindo qualquer ação judicial, cível ou criminal, que uma mãe como Tess Struan, dilacerada pela agonia de sua perda, poderia desencadear contra ela... e as apostas no momento eram de cinco contra um como Tess o faria, e de dois contra um como ganharia.
Mas isso não importava, pois aquela estratégia poderia levar Angelique ao círculo dos vencedores... poderia. Com cuidado, não de todo como Angelique sugeria, mas com muito mais sutileza, ele poderia fazer o que ela propunha sem prejudicar sua própria posição, e fecharia o acordo com Tess Struan, que com certeza lhe daria tudo o que queria... depois que o choque pela morte do filho diminuísse e pudesse avaliar a enormidade do que era oferecido.
É melhor para mim livrar Angelique da ira de Tess Struan, muito melhor. E o que devo pedir em troca? Sua assinatura, é claro, mas o que mais? O que mais desejo dela? Há vários tipos de manobras que eu poderia...
Angelique estendia a mão cara a pena. Sua expressão era solene quando assinou como testemunha, pondo a data de anteontem. Sem dizer nada, ela enxugou a tinta, soprou o excesso de talco e estendeu o documento, ainda com os olhos abaixados.
— Independente do que decida, isto é seu agora, de graça — declarou ela apostando no apregoado senso de honra de Gornt.—Quanto ao resto, se me ajudar Edward...
Ela fez uma pausa, levantou os olhos agora, e alguma coisa no íntimo de Gornt se agitou, cheio de expectativa.
— ...teria também minha gratidão eterna.
Na casa do shoya, Jamie sentava sobre o tatame, de pernas cruzadas, sem sapatos, Hiraga à sua frente. O shoya sentava à cabeceira da mesa, onde havia saquê e chá.
Durante uma hora ou mais, Jamie respondera e fizera perguntas, Hiraga traduzindo, hesitando nas palavras estranhas, pedindo explicações adicionais para compreender com clareza. Jamie sentia-se cansado, não por causa do tempo ali consumido, uma trégua fascinante e bem-vinda em todos os seus outros problemas, mas porque parecia não haver solução para eles. Ficara transtornado com a recusa de Sir William em mudar de idéia sobre o sepultamento, embora compreendesse muito bem... ele faria a mesma coisa se estivesse na posição de Sir William. Pobre Angelique, pobre Malcolm, pobre Casa Nobre. Até mesmo pobre Tess.
Algo tem de ceder. Não será Wee Willie. Só pode ser Angelique... não há nada que ela ou qualquer outro possa fazer. Acho que desta vez ela vai quebrar.
Com toda a simplicidade possível, ele expusera sua idéia para um empreendimento conjunto, o shoya e seus contatos fornecendo as mercadorias em consignação que eles combinassem, Jamie entrando com o know-how europeu, um prazo de seis meses para pagamento, o que daria tempo para que os produtos fossem vendidos e o dinheiro voltasse, ou fosse reinvestido em artigos de produção em massa, que aconselhariam o empreendimento conjunto a importar. Isso levou a uma discussão sobre quantidades e depois a métodos de produção em massa que poderiam enriquecer a todos.
— Shoya pergunta: Quanto custa sua máquina de massu produk’shun?
— Depende do que as máquinas vão produzir — respondeu Jamie.
— Jami-sama, ele pedir, por favor, dizer que produtos fazer para vender na Inglaterra? Não agora, em três dias, por favor. Se shoya concordar, talvez fazer sociedade anônima e trazer máquina de massu produk’shun para Nipão.
Jamie sorriu.
— A produção em massa é inicialmente dispendiosa para se instalar, com máquinas e a fábrica. Não é como o empreendimento conjunto que sugeri. Não tenho a menor possibilidade de levantar tanto dinheiro.
— Jami-sama, não se preocupar, não se preocupar com dinheiro. Gyokoyama pode comprar Iedo, se quiser. — Hiraga sorriu, sombrio, e Jamie piscou, aturdido — Shoya agradecer e eu agradecer. Por favor, em três dias, dizer o que fazer e preço. Eu levar em casa.
— Não precisa, obrigado.
Hiraga fez uma reverência, o shoya fez uma reverência, Jamie retribuiu e saiu para o ar noturno.
— Chá, Sire? — indagou o shoya.
Hiraga recusou com a cabeça, preparando-se para sair também, precisando de um banho e massagem, mas satisfeito consigo mesmo, tudo consumado agora, exceto a cobrança dos supostos honorários de três koku pedidos por Jami Mukfey. O shoya pediu chá fresco e disse, depois que a criada se retirou:
— Tenho algumas notícias, que chegaram por pombo-correio, Otami-sama, sobre lorde Yoshi e sobre os shishi. Talvez queira ouvi-las.
— Pare com esse jogo! Claro que quero ouvir. — Agora que se encontrava a sós com o shoya, Hiraga tornou-se autoritário e samurai, sem sequer percebê-lo. — Quais são as notícias?
— Houve outro atentado contra lorde Yoshi.
— Ele morreu? — indagou Hiraga, esperançoso.
— Não, Otami-sama. Tome aqui. Leia você mesmo, por favor.
Com uma subserviência simulada, o shoya estendeu um papel, o mesmo que mostrara antes a Raiko e Meikin: Uma tentativa de assassinato contra lorde Yoshi, ao amanhecer, na aldeia Hamamatsu, fracassou. A assassina shishi solitária foi morta por ele. A dama Koiko também morreu na luta. Comunique nossa grande tristeza à casa da Glicínia. Mais informações assim que for possível. Hiraga ficou atordoado ao ler.