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— Quando aconteceu?

— Há cinco dias, Otami-sama.

— E não teve mais notícias?

— Ainda não.

Lendo a mensagem, sua dor de cabeça se tornara ainda maior, os pensamentos confusos. Koiko morta, outra shishi morta! Quem? Se ela morreu, o que aconteceu com Sumomo?

— Já comunicou à casa da Glicínia?

— Já, sim, Otami-sama.

— O que Meikin disse?

Ficou transtornada, Otami-sama, como não podia deixar de ser.

— O que mais sabe, shoya?

— Já disse o que sei que pode afetá-lo e aos shishi.

— O que sabe sobre Katsumata e Takeda?

— A notícia, Sire, é de que eles ainda viajam para cá, assim como, supostamente, lorde Yoshi.

— Quando ele chega de volta? Mudou seus planos agora?

A mente de Hiraga era um turbilhão. Se Koiko morrera na luta, teria sido por acidente ou Yoshi descobrira que ela estendia seus tentáculos até nós, como Meikin?

— Não sei. Talvez em oito dias, Otami-sama.

O shoya percebeu a preocupação de Hiraga, e achou que era normal, pois era óbvio que ele corria um grande perigo... mas como é valioso! Concordo que ele é um tesouro nacional ou deveria ser. Empreendimento conjunto... uma idéia caída do céu! Meu filho trabalhará com esse gai-jin Jami, a partir de amanhã, para aprender as coisas dos bárbaros, depois não precisarei de Hiraga, que nada representa, a não ser problemas para mim, diretamente. Por mais que eu lamente, ele é um homem condenado. Como todos nós, se não tomarmos cuidado.

— Otami-sama, há muitos movimentos de tropas ao nosso redor.

— Hem? Que tipo de movimentos?

— O Bakufu reforçou as três estações de posta mais próximas de nós. E há ainda quinhentos samurais vigiando a estrada, ao norte e ao sul daqui. — Uma gota de suor escorreu pela face do shoya. — Estamos numa emboscada do tairo Anjo?

Hiraga praguejou; também podia sentir a crescente pressão.

— O que soube, shoya? Ele está planejando nos atacar aqui?

— Eu bem que gostaria de saber, Otami-sama. Talvez falar a Taira sobre as tropas possa ajudar a descobrir qual é o plano dos gai-jin.

— Eles vão bombardear Iedo, qualquer idiota sabe disso. — Hiraga sentiu intensa angústia ao pensamento da inevitável vitória dos gai-jin, embora isso fosse servir a sonno-joi mais do que qualquer outra coisa. — Não há nada que o tairo possa fazer para evitar...

Seu coração saltou uma batida, ele parou de falar.

— Exceto o quê, Otami-sama?

— Exceto a resposta da história, a solução habituaclass="underline" um ataque de surpresa, súbito e brutal, para destruir a base da esquadra.

Hiraga espantou-se por ter partilhado seu pensamento tão francamente com uma pessoa inferior, embora o shoya fosse inteligente, um aliado valioso, e muito em breve um parceiro nos negócios.

E ele pensou, em meio às vibrações da cabeça latejando, há muita coisa que não compreendo, o mundo está virando pelo avesso, tudo é diferente, eu me tornei diferente, não sou mais samurai, não totalmente samurai. É culpa desses repulsivos gai-jin, com suas idéias sórdidas, gananciosas... e tentadoras. Eles devem ser expulsos — sonno-joi, sonno-joi, sonno-joi — mas ainda não. Antes, massu produk’shun e, primeiro, fabricar fuzis.

Shoya, mande espiões espreitarem, caso seja esse o plano de Anjo.

— Espiões, Otami-sama?

— Já é tempo de parar com os jogos, shoya. Está me entendendo? Nada mais de jogos!

— Obedeço em tudo, Otami-sama. Como sempre, como...

— Saiu-se muito bem esta noite, shoya. Assim que tiver mais notícias sobre Yoshi ou os shishi, mande me avisar, por favor.

Hiraga acrescentou o “por favor” como uma grande concessão.

— Tão depressa quanto uma ave marinha pescadora, Sire.

— Boa noite então... Ah, desculpe, já ia me esquecendo dos honorários do gai-jin. Ele me pediu para lembrar-lhe.

O shoya sentiu o estômago embrulhado. Tirou da manga uma pequena bolsa... teria sido uma grosseria a entrega direta a Jami-sama.

— Aqui tem o equivalente em oban de ouro a um koku e meio, Otami-sama, O resto dentro de dez dias.

Hiraga deu de ombros, guardou a bolsa em sua manga, como se fosse uma coisa irrelevante, mas se espantou com o peso e alegria que lhe proporcionou.

— Avisarei a ele e o trarei aqui dentro de três dias.

— Obrigado, Otami-sama. Esses movimentos de tropas me deixam muito preocupado. A guerra é iminente. Meus superiores dizem que se pudessem ter um aviso antecipado sobre os planos dos gai-jin... ficariam profundamente agradecidos por qualquer ajuda. Talvez o seu Taira-sama...

Esperançoso, o shoya deixou o nome ressoando no ar. Ele recebera hoje outra mensagem do escritório central em Osaca, mais urgente do que a anterior. Como se eu não soubesse ler?, pensou o shoya, irritado, como se fosse negligente e desleal. Faço tudo o que posso. O problema é daquelas mama-sans desgraçadas. Dois dias, e ainda não tive nenhuma notícia delas!

Antes de deixar Raiko e Meikin, ele ressaltara a necessidade urgente de saber tudo o que elas sabiam, ou pudessem descobrir, o mais depressa possível. Sua raiva começou a aumentar, não apenas porque as duas mulheres haviam fingido que não sabiam de nada, por mais que as adulasse, muito embora tivesse certeza de que elas estavam a par de alguma coisa, mas também porque seus preciosos oban de ouro se encontravam na manga daquele ganancioso samurai, para pagamento a um ganancioso gai-jin, mesmo que os honorários fossem bem merecidos. E onde vão terminar todos os meus adoráveis oban? Com toda certeza, na ravina de ouro de alguma prostituta.

— Muito obrigado, Otami-sama — disse o shoya, untuoso, enquanto Hiraga se retirava.

Ele manteve a cabeça no tatame para esconder o rilhar dos poucos dentes quebrados restantes, querendo humilhar Hiraga, fazê-lo suar, contando tudo, sem o menor remorso: Ah, sinto muito, sua falecida prostituta Koiko estava implicada na conspiração, assim como sua assassina treinada e ex-futura esposa, Sumomo, que também teve a cabeça cortada, e sua partidária dos shishi, Meikin, mama-san dos homens mais importantes de Iedo — até mesmo líderes da Gyokoyama — não continuará neste mundo por muito mais tempo, pois presumimos que Yoshi também sabe de tudo a seu respeito.