Выбрать главу

— Tess não o sepultaria como ele queria. Suponho que é o mínimo que um amigo pode fazer. Providenciarei o cúter.

Jamie saiu. No silêncio cada vez mais denso da sala, Angelique suspirou, pegou o jornal e recomeçou a ler.

Naquela noite, quando o Dr. Hoag chegou à legação em Kanagawa, parte do templo budista, foi recebido por Towery, sargento no comando, elegante em seu uniforme da guarda, túnica escarlate, calça branca, botinas pretas.

— Não o esperava até de manhã, doutor.

— Precisava verificar se estava tudo pronto. Queremos partir cedo.

Escoltando-o até a parte do templo usada como necrotério, Towery riu.

— Se o deixou pronto, doutor, ele continua pronto, porque não saiu para dar uma voltinha.

Ele abriu a porta. A sala era grande, o chão sujo, com um acesso ao jardim por portas de veneziana. Towery farejou o ar.

— Eles ainda não fedem. Nunca gostei de cadáveres. Quer uma ajuda?

— Não, obrigado.

Os dois caixões estavam sobre cavaletes, as tampas ao lado, havia outros, encostados na parede. Os corpos se encontravam estendidos em mesas de mármore, cobertos por lençóis. Havia enormes barricas no outro lado, contendo gelo. A água vazava das barricas para o chão de terra batida.

— O que me diz do nativo? Por quanto tempo vamos mantê-lo aqui?

— Até amanhã.

Hoag sentiu uma súbita vertigem, lembrando que, pelo costume, o corpo seria reivindicado para cremação, segundo o ritual xintoísta, mas agora não haveria corpo...

— Qual é o problema, doutor?

— Nada, apenas um... obrigado, Sargento.

Seu coração recomeçou a bater ao recordar que o homem era coreano, um dos pescadores de um barco naufragado, levando uma existência patética, sem meios de voltar para sua terra, indesejado e desprezado pelos locais. Babcott concordara cremar o corpo no crematório budista.

— Na verdade, sargento, poderia me dar uma ajuda.

O cadáver de Malcolm fora limpado e vestido, depois da necropsia, pelos assistentes japoneses. Com a ajuda do sargento, que pegou os pés, eles o puseram no caixão.

— Ele parece muito bonito para um cadáver — comentou o sargento, pois o rosto de Malcolm era sereno na morte. — Vamos fazer a mesma coisa com o outro, doutor. Não vai querer ficar com uma hérnia, não é? É verdade que este sujeito não deve pesar muito.

— É melhor envolvê-lo com o lençol.

O coreano era só pele e ossos. A disenteria o matara. Juntos, levaram-no para o caixão.

— Obrigado. Vou terminar de arrumar tudo aqui, e depois irei me deitar.

— Certo, doutor. Cuidarei para que seu quarto esteja arrumado.

Assim que ficou sozinho, Hoag trancou a porta. Com a concordância de Angelique, haviam decidido que não haveria a tradicional exposição, com o caixão aberto, para que as pessoas prestassem a última homenagem ao falecido. Com todo cuidado, ele ajustou a tampa no lugar. Não demorou muito para pregá-la.

Agora, o outro. Haveria uma grande diferença no peso. O que usar para compensar? Terra. Havia uma pá que pertencia aos coveiros num lado... nem todos os corpos eram cremados. Lá fora, a terra era mole, a noite fria, com um vento ameno, que fazia a vegetação sussurrar. Ele cavou depressa, entrando com a pá cheia, espalhando aterra por cima e em torno do cadáver, compactando-a. Uns poucos galhos preencheram os espaços vazios. Satisfeito, ele baixou a tampa, martelou os pregos. Encostou-se no caixão, ofegante, suado e sujo, ainda mais preocupado do que no momento em que começara. Heavenly tem razão, pensou ele, enquanto lavava as mãos num balde, nunca escaparemos impunes a uma coisa assim.

— Perdeu o juízo por completo, doutor — dissera Skye, com sua tosse seca. — Ela também, e até eu, porque vou entrar nessa. Wee Willie vai subir pelas paredes, mas não importa, cuidaremos de tudo amanhã de noite.

Haviam conversado no clube, poucas horas antes, o ambiente enfumaçado e barulhento, como sempre.

— Toma outro uísque, doutor?

— Não, obrigado. Prefiro um café e depois acho melhor ir embora.

— A história dela me lembrou da minha Nellie, doutor. Casei quando era um aprendiz, tinha dezesseis anos, ela quinze, pelo menos fingíamos que éramos casados, vivíamos numa mansarda perto da Fleet Street, não muito longe do Old Cheshire Cheese Pub, o lugar de Sam Johnson. Ela morreu no parto, a criança teria sido um menino, morreu também.

Ele oferecera um charuto, acendera outro para si mesmo, antes de continuar:

— Cova rasa, umas moedas para o coveiro noturno, traga logo seus mortos, e foi o fim dos dois. O cólera foi terrível naquele ano, a disenteria também, os cemitérios transbordavam. — Heavenly cuspira na escarradeira. — Há anos que não pensava na pequena Nellie. Já foi casado, doutor?

— Uma vez. Ela morreu em Londres também.

— Outra coincidência, hem? Nunca mais tive vontade de casar depois de Nellie... jurei que nunca mais seria tão pobre assim de novo, não importava o que tivesse de fazer... sempre andando, viajando demais. Tive uma porção de mulheres mas nunca peguei a sífilis. Pegou, doutor?

— Não. — Hoag cruzara os dedos. — Ainda não.

— Ei, também é supersticioso, como eu?

— Sou, sim. Tem certeza de nossa posição legal neste caso?

— Tanta certeza quanto se pode ter, tanto quanto merda... mas se Wee Willje quiser, pode inventar uma dúzia de acusações, não se preocupe. Mas o que quer que aconteça, Tess Struan vai ter um ataque, cortará seu estipêndio, e vai se descobrir no meio do rio sem um remo.

— Nada disso. Voltarei à índia...

É estranho como o mal leva ao bem, ou o bem ao mal. Tudo isso realmente me decidiu. Voltarei desta vez, para Cooch Behar, em Bengala, onde servia, e de onde ela saiu. Procurarei sua família, e... veremos o que acontece depois. Tenho dinheiro suficiente para isso, e me restam uns poucos anos, nosso filho e nossa filha estão crescidos agora, parte da vida de Londres, educados da melhor forma que eu podia, minha irmã e seu marido são os verdadeiros pais... ambos o que de melhor existe na Inglaterra.

Sou um bom médico, e Deus sabe como precisam de médicos na índia, até os ruins. Assim, quem sabe, talvez eu possa encontrar um pouco de felicidade... Nem sequer espero isso, apenas um pouco de paz, do horror de tê-la matado.

Exausto agora, ele examinou os dois caixões. Um último olhar para confirmar que tudo estava como deveria. Pegando o lampião a óleo, Hoag saiu e trancou a porta.

Uma lua fúnebre projetava uma sombra pelas janelas abertas. Em silêncio, outra sombra se moveu. O sargento Towery deu uma espiada no necrotério. Estava perplexo. Por que Doc Hoag chegaria no meio da noite, e depois por que escavaria no jardim, como um ladrão de sepulturas, para encher de terra o caixão do nativo?