A curiosidade matou o gato, meu caro, mas não no meu caso, não quando estou no comando. Amanhã você vai verificar tudo direitinho, antes de o bom doutor acordar, e antes do senhor-deus-todo-poderoso Pallidar chegar para a inspeção. Ele pode encontrar a resposta.
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KANAGAWA
Sexta-feira, 12 de dezembro:
Pallidar disse, a voz fria:
— E então, doutor?
Hoag acabara de ser chamado. Sentava na beira da cadeira, contrafeito e pálido. Empertigado, de uniforme, Pallidar era imponente, embora estivesse com um forte resfriado. Na mesa estava seu chapéu emplumado, a espada ao lado. A primeira claridade da manhã refletia-se nos alamares. Por trás dele se postava o sargento Towery. Os sinos do templo ressoaram, ominosos. Hoag deu de ombros.
— Lastro.
— Pelo amor de Deus, doutor, isto não é uma corte marcial, e pessoalmente não me importo se enche os caixões com bosta de vaca. Por favor, diga-me por que fez o que fez na noite passada.
— Eu... achei que era uma boa idéia.
— Quero saber, agora...
Um acesso de tosse interrompeu-o. Exasperado, Pallidar assoou o nariz, tossiu, limpou a garganta, tossiu de novo. Hoag disse, animado:
— Eu... nós temos uma mistura nova e especial para a tosse na clínica. Vai livrá-lo desse resfriado num instante. Tem quinino e ópio também. — Ele começou a se levantar. — Vou buscar...
— Sente-se! O caixão, pelo amor de Deus, não meu resfriado! O sargento viu e me contou, como era seu dever. E agora me diga: por quê?
Hoag se contorceu todo, mas sabia que se encontrava acuado. Amaldiçoando o sargento no íntimo, ele murmurou:
— Posso... posso lhe falar a sós, Settry, por favor?
Pailidar lançou-lhe um olhar furioso.
— Está certo. Sargento!
Towery bateu continência e se retirou.
— E então?
— É que... entende...
Hoag decidira lhe dizer que não se metesse no que não era da sua conta, que não estava mais sujeito à disciplina militar, graças a Deus, vocês, oficiais, já me intimidaram antes, e agora não vão fazê-lo outra vez... mas descobriu-se de repente a contar toda a história, em detalhes, e concluiu:
— Como pode compreender, Settry, havia o problema do peso, a diferença no peso, e a terra era perfeita... Escute, George Babcott deve chegar a qualquer momento, ele não deve saber, ninguém deve saber... você não sabe de nada apenas enviamos o caixão errado... o caixão certo... a bordo do clíper, e esta noite quando o cúter chegar, se Deus quiser, nós o sepultamos como ele queria, como Angel quer.
Hoag abanou-se, sentindo-se melhor, ao mesmo tempo com uma vertigem de culpa.
— Você não sabe de nada. Agora, vou pegar aquele xarope para a tosse.
— Vai continuar sentado aí! — disse Pailidar, ríspido. — Você não passa de um idiota. Primeiro: já olhou pela janela?
— Como? — Hoag obedeceu. As janelas davam para o mar, que estava cinzento, encapelado, nuvens escuras cobrindo o sol, dominando o céu. — Oh!
— Isso mesmo, oh! Haverá uma tremenda tempestade antes do anoitecer; assim não teremos nenhum sepultamento no cúter, mesmo que isso fosse possível. Como sabe, Sir William ordenou o sepultamento em Hong Kong e é lá que terá de ser.
— Mas, Settry, não...
— Nem por você, nem por Angelique, nem por qualquer pessoa... — Pailidar parou de falar, dominado por um novo acesso de tosse, depois acrescentou, a voz rouca: — Sir William está no comando, tomou uma decisão, e ponto final. Entendido?
— Entendido, mas...
— Não tem nenhum mas! Por favor, vá buscar o xarope para a tosse e fique longe do necrotério. Sargento!
Towery estendeu a cabeça pela porta.
— Pois não, senhor?
— Ponha uma sentinela no necrotério. Ninguém entra sem a minha aprovação. Não quero que os caixões sejam tocados.
Hoag saiu, praguejando contra si mesmo por ter revelado a decisão de Sir William, contra Pallidar, contra o sargento intrometido, mas acima de tudo contra si mesmo. Merda, pensou ele. Meti os pés pelas mãos. Na clínica, encontrou o xarope, sentiu-se tentado a acrescentar um pouco de óleo de rícino, mas não o fez.
— Tome aqui, Settry. Isto vai resolver seu problema.
Pallidar tomou um pouco, engasgou.
— Mas que porcaria horrível! Tem certeza que não deu uma mijada nisto só por maldade?
— Bem que me senti tentado. — Hoag sorriu. — Desculpe por ter bancado o idiota rematado. Mas você ainda pode fechar os olhos e sabe disso. Foi o que Nelson fez.
— Acontece que Nelson era da marinha e nós, os outros, temos de cumprir os regulamentos.
— Por favor, Settry...
Pensativo, Pallidar tomou outro gole do xarope.
— Devem se submeter à ordem de Sir William, é o melhor, a longo prazo. Seriam apanhados, inevitavelmente. E as coisas estão engrossando.
— É mesmo? — A atenção de Hoag focalizou as linhas de preocupação no rosto bonito. — Qual é o problema?
— Comigo, nenhum, exceto este maldito resfriado e a tosse. Mas tem muita coisa acontecendo na colônia.
— O que houve agora?
— Nos últimos dias, muita movimentação do inimigo ao nosso redor, patrulhas de samurais, a maioria disfarçada... só por precaução, estamos patrulhando até a Tokaidô e os limites da colônia, e por onde os avistamos. Vindo para cá, encontrei em alguns pontos grandes concentrações de samurais. Não interferiram conosco, a não ser pelo palavrório habitual. Contei quase quatrocentos miseráveis armados.
— O tairo Anjo tenta nos assustar?
— É bem provável. — Pallidar tossiu, tomou outro gole do xarope. — Isto é horrível, já me sinto pior. Vou recomendar a retirada de todo o pessoal daqui por algum tempo.
Hoag assoviou.
— Não gostaríamos de fechar a clínica.
— E eu não gostaria de vê-los mortos sem um caixão. Esses desgraçados adoram ataques de surpresa. Como o que aconteceu com o pobre Malcolm. Alguém terá de pagar por ele.
Hoag balançou a cabeça.
— Concordo.
Ele olhou na direção de Iocoama, os campos planos e desinteressantes no inverno — detesto o frio, sempre detestei, e sempre vou detestar. Seus olhos o levaram até o Prancing Cloud, o navio de correspondência a vapor, os navios mercantes, navios de guerra, tênderes, todos movimentados, preparando-se para a tempestade iminente, ou preparando-se para zarpar. Os navios de guerra tinham filetes de fumaça saindo pela chaminé — ordens do comando da esquadra, bem divuladas, para que o Bakufu e seus espiões soubessem que todos os navios podiam zarpar em condições de combate no prazo de uma hora.