Выбрать главу

Era uma estupidez, toda aquela perspectiva de matança, mas também o que podemos fazer? Os responsáveis devem pagar. Depois ele avistou a fumaça do cúter a vapor da Struan, avançando pelas ondas, os borrifos levantados pela proa molhando o vidro da ponte de comando e a cabine principal. Sua ansiedade atingiu o ponto máximo.

— Settry, não acha...

Ele suspendeu a súplica fervorosa, compreendendo de repente que mesmo que fosse impossível o sepultamento naquela noite, com um pouco de sorte ainda poderia cumprir a primeira parte do plano, e despachar o caixão errado para o Prancing Cloud.

Sou o único que sabe que caixão é de quem, com exceção talvez do sargento e tenho a impressão de que ele não vai perceber a diferença. Ninguém pode, à menos que um caixão seja aberto.

— Não acha que a vida em Iocoama é mais esquisita do que em outros lugares, já que vivemos num barril de pólvora?

— É a mesma coisa por toda parte, exatamente a mesma coisa — disse Pallidar, pensativo, observando-o.

IOCOAMA

Jamie, Angelique e Skye se agrupavam diante da janela grande no escritório do tai-pan. A chuva batia no vidro. Era quase meio-dia.

— Esta noite será perigoso demais.

— Quer dizer que teremos uma tempestade, Jamie?

— Isso mesmo, Angelique. O suficiente para nos deter.

— O Cloud ainda partirá esta noite, conforme o planejado?

— Claro. Nenhuma tempestade pode detê-lo aqui. O cúter já seguiu para Kanagawa, a fim de buscar o outro caixão. Ainda quer que seja embarcado no Cloud, e não no navio de correspondência?

— A ordem é de Sir William, não minha — disse ela, a voz firme. — Ele quer despachar meu marido contra os desejos dele e os meus, diz que deve ir o mais depressa possível, e assim tem de ser pelo clíper. E um caixão partirá como ele quer. Jamie, nosso ardil... acho que nosso ardil é justo. Quanto à tempestade, será pequena. Se não pudermos sepultar meu marido esta noite, tentaremos amanha. Ou no dia seguinte.

— O navio de correspondência partirá amanhã, por volta de meio-dia.

— Não pode retardar um pouco?

— Acho que sim. Pelo menos tentarei. — Jamie pensou por um momento — Falarei com o capitão. O que mais?

Angelique sorriu, triste. _

— Primeiro, temos de verificar se o Dr. Hoag foi bem-sucedido. Se não talvez eu deva seguir no clíper, no final das contas.

— É mais do que provável que Hoag volte com o cúter, então poderemos decidir. — Jamie fez uma pausa e acrescentou, sem acreditar: — De alguma forma, tudo acabará dando certo. Não se preocupe.

— O que acha de pedir a Edward Gornt para se juntar a nós? — indagou Angelique.

— Não — respondeu Jamie. — Nós três somos suficientes, junto com Hoag. Arrumei lugares no navio de correspondência para Hoag, você e eu.

Skye interveio:

— Angelique, é muito mais sensato para você permanecer aqui. Todos aqui sabem que Wee Willie tomou a decisão contra os seus desejos e isso alivia um pouco a pressão sobre você.

— Se não pudermos sepultar Malcolm, então eu irei. Não posso deixar de estar presente em seu funeral. — Ela suspirou. — Precisamos ter um capitão em nossa empreitada. Jamie, deve ser você.

— Concordo — declarou Skye. — Enquanto isso, esperamos por Hoag.

Jamie fez menção de falar, mudou de idéia, acenou com a cabeça, e foi para sua sala. Havia uma pilha grande de correspondência à espera de ação. Começou a despachá-la, trabalhando com diligência, mas sua concentração era perturbada pela gaveta. Fora ali que guardara a carta de Maureen. Por fim, largou a pena, pegou a carta e releu-a. Não havia necessidade, pois já a lera vinte vezes antes.

A parte fundamental era a seguinte: Como não houve resposta aos meus fervorosos pedidos e orações para que você voltasse, e retomasse uma vida normal em casa, decidi depositar minha confiança no Criador, e me arriscar em uma viagem a Hong Kong, ou até o Japão, onde quer que você esteja. Meu amado pai nos adiantou o dinheiro, que tomou emprestaao contra uma hipoteca de nossa casa em Glasgow — por favor, deixe uma mensagem para mim com a Cook‘s, em Hong Kong, pois parto amanhã, na segunda classe, no Eastern Mail, da Cunard...

A data era de dois meses e meio atrás.

Jamie soltou um grunhido. Ela estará em Hong Kong a qualquer dia agora. Minha carta chegou tarde demais. O que vou fazer agora? Sorrir? Esconder-me? Fugir para Macau, como o velho Aristotle Quance? De jeito nenhum. É a minha vida, e não posso de jeito nenhum sustentar uma esposa, não quero uma esposa... mas não posso escrever a mesma carta de novo, e enviá-la para Hong Kong. Terei...

Uma batida na porta interrompeu seus pensamentos.

— O que é? — berrou ele.

Hesitante, Vargas esticou a cabeça pela porta.

— Posso lhe falar por um momento, senhor?

— Claro. O que é?

Vargas informou, com uma repulsa evidente:

Há um homem aqui que deseja vê-lo, um certo Sr. Corniman... ou algo parecido.

O nome nada significava para Jamie. Vargas entreabriu a porta. O homem era baixo, parecia um furão, vestia-se de maneira estranha, parte em roupas europeias, parte japonesas. Camisa, calça e um casaco grosso, rosto raspado, cabelos limpos amarrados num rabo-de-cavalo, uma faca no cinto, botinas bastante gastas. Jamie não o reconheceu, mas aqui os estranhos não eram muitas vezes o que pareciam. Num súbito impulso, ele disse:

— Entre e sente, por favor. — Depois, ele recordou o navio de correspondência. — Vargas, peça ao capitão Biddy para me procurar, está bem? Ele deve estar no clube. Sente-se, Sr. Corniman... é esse o seu nome?

— Está grogue, companheiro?

— Quem é você e o que quer?

— Johnny Cornishman, lembra? Estive aqui com você e o tai-pan, eu e meu companheiro, Charlie Yank. Somos garimpeiros, lembra?

— Garimpeiros? Ah, sim, lembro dos dois agora.

O homem estava limpo e arrumado, quando antes era um vagabundo cabeludo, sujo e fedorento. Os olhinhos malignos e furtivos não haviam mudado.

— Fizemos um acordo, mas vocês preferiram acertar tudo com a Brock, nos traindo.

— É verdade, foi o que fizemos. Mas somos homens de negócios. Norbert ofereceu mais dinheiro, não é? Mas esqueça, ele está morto. Primeiro, tem um trago? Conversamos em seguida.

Jamie não deixou transparecer seu interesse. Um homem como aquele não o procuraria sem ter alguma coisa para negociar. Ele abriu o armário, serviu meio copo de rum.