— Descobriram alguma coisa?
O homenzinho tomou a metade do rum, engasgou, exibiu as gengivas, desdentadas, a não ser por dois dentes marrons e tortos.
— Rum é melhor do que saquê, mas não importa, porque as tais gueixas compensaram a falta de um trago de verdade. — Ele arrotou, sorriu. — Desde que você vomite. Jesus, como elas são esquisitas com água e limpeza, mais do que na nossa Yoshiwara. Mas depois que você está limpo, elas sacodem o rabo até a chegada ao reino dos céus!
Ele caiu na gargalhada de sua própria piada e depois acrescentou, a voz mais dura:
— Temos o carvão de melhor qualidade para vapor, companheiro, o suficiente para abastecer toda a porra da sua frota. Pela metade do preço de Hong Kong, na tonelada.
— Onde? Entregue onde? — indagou Jamie, animando-se. — O carvão para as máquinas a vapor era extremamente valioso, mas escasso, ainda mais para frota. Um fornecedor local seria uma dádiva divina, além de uma constante fonte de receita. Mesmo ao dobro do preço de Hong Kong ele poderia vender tudo que obtivesse, e ainda mais pela metade. — Entregue onde?
— Aqui mesmo, em Yokopoko. Mas seis pence por tonelada você deposita no banco em nome de Johnny Cornishman. — Ele tomou o resto do rum. — Tem de pagar em mex de ouro ou prata, e fará o pagamento a este sujeito.
O garimpeiro entregou um pedaço de papel. A escrita péssima dizia: Aldeia Iocoama, Shoya Ryoshi, mercador da Gyokoyama.
— Esse sujeito sabe o que fazer, já conhece tudo. Sabe quem é ele?
— Sei, sim. É o chefe da aldeia.
— Ainda bem. Meu chefe disse que você devia conhecê-lo.
— Quem é o seu chefe?
Cornishman sorriu.
— Lorde Mandachuva em pessoa. Você não precisa de nomes. E não vamos perder tempo. O negócio está fechado, sim ou não?
Depois de um momento, Jamie perguntou:
— Onde fica a mina?
— Fui eu quem descobriu, companheiro, não você. — O homenzinho riu, impertinente. — Fica perto, mas em terras inimigas. Escute, o primeiro veio que encontrei era numa montanha de carvão aqui perto, com mil desses amarelos para escavar, o suficiente para vinte frotas, durante vinte anos.
— E por que me procurou? Por que me pede para fazer o negócio com você?
— Porque Norbert morreu e porque você é quem manda aqui, agora que o tai-pan morreu. As coisas aqui por Yokopoko andam meio perigosas, hem? — Cornishman estendeu o copo. — Eu gostaria de tomar mais um trago, se não se incomoda, mister todo-poderoso da Struan.
Jamie tornou a servi-lo e voltou à cadeira. Cornishman notou que a dose era pela metade e resmungou:
— Só isto?
— Pagaremos um quinto do preço de Hong Kong, menos as taxas, o carvão entregue aqui, a primeira entrega dentro de trinta dias. Nenhum acordo por fora.
Os olhos do homenzinho esquadrinharam a sala, como os de um rato.
— Qualquer taxa você é quem paga, companheiro. E meu acordo por fora continua. Vamos fazer uma coisa: depois de amanhã, você me manda uma barcaça para as proximidades de Iedo, o lugar que eu indicar. Depois de amanhã. Vamos encher a porra da barcaça, você paga apenas um quinto, traz aqui para Yoko, paga o resto a esse sujeito, o que está aí no papel. Seis pence por tonelada no banco em meu nome, Johnny Cornishman. Não podia ser mais justo, hem? Recebe o carvão antes de pagar, e pela metade do preço em Hong Kong.
— Um quinto do preço total de Hong Kong.
O rosto do homenzinho se contorceu em raiva.
— Pela metade do preço de Hong Kong você já estará tendo um tremendo lucro, pelo amor de Deus! E o carvão aqui não é como a porra do carvão de lá. Poupa o custo do transporte, o seguro e só Deus sabe o que mais... não somos uns merdas, isso é um negócio respeitável!
Jamie riu.
— Já sei o que vamos fazer: na primeira barcaça, pago um terço do preço de Hong Kong. Se a qualidade for mesmo o que você diz, e garantir a entrega de uma barcaça por semana, ou qualquer coisa parecida que conseguir, aumentarei ao longo do ano para a metade do preço de Hong Kong, menos quinze por cento. Três pence por tonelada para você por fora. E o que me diz de seu sócio... como é mesmo o nome dele? Charles Yank?
— Seis pence ou nada. — Outra vez os olhos correram pela sala e voltaram a se fixar em Jamie, faiscando. — Ele está morto, como seu tai-pan, mas não morreu como aquele sujeito de sorte.
— É melhor tomar cuidado com o que diz sobre o nosso tai-pan.
— Não enche, companheiro. Não houve desrespeito. Todos nós gostaríamos de ir ao encontro do sujeito lá em cima com uma xoxota na ponta do nosso pau — Ele terminou de tomar o rum e levantou-se. — Daqui a dois dias, ao meio-dia Pegue o carvão aqui.
Ele estendeu um pequeno mapa. O X era na costa, alguns quilômetros ao norte de Kanagawa, ao sul de Iedo.
— Leve seus tênderes e a gente entra com a mão-de-obra.
— Não pode ser daqui a dois dias, pois cai num domingo. Vamos passar para a segunda-feira.
— Está certo. O dia do Senhor é o dia do Senhor. Três dias.
Jamie estudou o mapa. Uma barcaça de carvão desprotegida, com tênderes e tripulantes, podia ser um alvo tentador.
— Como a barcaça poderia ser naval e o carvão para a marinha, imagino que eles vão mandar uma fragata para montar guarda ao largo.
— Podem mandar toda a porra da esquadra, pelo que me importo. — Cornishman tentou parecer distinto. — Fiz uma grande descoberta, e estamos num negócio honesto.
— Fico contente em saber disso.
— Seis pence por tonelada ou nada feito!
— Quatro.
Cornishman cuspiu.
— Seis pence, por Deus! Conheço o valor do carvão, sei o quanto vale para a porra da esquadra, e o lucro que você pode conseguir. Talvez eu faça um acordo direto.
— Pode tentar — disse Jamie, arriscando. — Vamos fazer o seguinte: quatro pence nas primeiras dez barcaças, seis no resto.
O homenzinho ficou ainda mais furioso.
— Agora sei por que vocês são a porra da Casa Nobre! — Ele estendeu a mão calosa. — Sua palavra como um cavalheiro da Struan.
Trocaram um aperto de mão e depois Cornishman perguntou:
— Por acaso você tem algum mercúrio?
Isso despertou no mesmo instante o interesse de Jamie. O mercúrio era usado na extração de ouro.
— Tenho, sim. Quanto vai precisar?
— Não muito, para começar. Pode pôr na conta?