— Nada ainda, nenhum sinal, graças a Deus! — murmurara ele para seu reflexo, os olhos úmidos de alívio ao constatar que a marca era apenas a picada de um inseto.
— André — acrescentou Seratard agora —, esta noite, ao jantar, devemos fazer planos com ela. Recomendei que ela, depois de se tornar tutelada do Estado, deve ficar na embaixada, e...
Uma batida na porta interrompeu-o.
— O que é?
Vervene abriu a porta.
— Uma mensagem de Vargas. Madame Struan lamenta, mas não se sente bastante bem para vir ao jantar.
Seratard disse, em tom ríspido:
— Se ela estava bastante bem para se despedir de um caixão, poderia pelo menos nos poupar o tempo. Obrigado, Vervene. — Para André, ele acrescentou: — Precisamos conversar com ela antes de sua partida.
— Eu a procurarei pela manhã. Não se preocupe. Mas há rumores de que ela pode adiar a partida. Hoag teria aconselhado a não fazer uma viagem marítima, por motivos médicos, e Heavenly Skye não esconde de ninguém sua oposição.
Seratard contraiu os lábios.
— Detesto aquele homem. Ele é vulgar, grosseiro e repulsivo, um típico britânico.
Angelique observava a partida do clíper da suíte do tai-pan, no segundo andar. Uns poucos transeuntes avistaram-na na janela, e seguiram adiante, apressados, molhados, gelados, especulando sobre o que lhe aconteceria. Um deles era Tyrer, que voltara ao cais, depois de entregar os despachos. Ela parecia muito solitária ali, fúnebre em seu vestido preto, nunca tendo usado preto antes, apenas as cores da primavera. Ele parou por um instante, tentado a procurá-la, a indagar se podia ajudar de alguma forma, mas decidiu não fazê-lo, ainda tinha muito trabalho pela frente, antes de seu encontro com Fujiko, um pagamento mensal a Raiko por “serviços passados na dependência da conclusão do contrato”, e ainda sua aula com Nakama, que tivera de ser adiada por causa de suas obrigações com Sir William.
Tyrer soltou um grunhido ao pensamento de todas aquelas frases e palavras que ainda queria traduzir, e a nova mensagem para Anjo, que Sir William deliberadamente mandara Nakama verter, não por confiar nele, mas para avaliar a reação de um japonês ao comunicado anglo-saxão, brusco, sem nada de diplomático. Ainda pior, estava atrasado em seu diário, e não tivera tempo de escrever a carta semanal para a família. Tinha de despachá-la pelo navio de correspondência, não importava o que acontecesse.
Na última correspondência, recebera uma carta da mãe, informando que o pai estava doente:
...nada grave, Phillip querido, apenas um fluxo no peito, que o doutor Feld trata da maneira habitual, com sangrias e purgativos. Lamento dizer que, como sempre, essas coisas só parecem enfraquecê-lo ainda mais. Seu pai sempre detestou camomila e sanguessugas.
Ah, os médicos! Doença e agonia parecem seguir na esteira deles. Sua prima Charlotte foi para a cama dar á luz há quatro dias, tão saudável quanto jamais poderia estar. Já arrumáramos a parteira, mas o marido insistiu em chamar o médico para fazer o parto, e agora ela tem febre puerperal e não se espera que sobreviva. O bebê também está doente. É muito triste, uma moça tão simpática, ainda nem completou dezoito anos...
Notícias de Londres: A nova ferrovia subterrânea, outra coisa que é a primeira no mundo, será inaugurada dentro de quatro ou cinco meses! Os bondes puxados por cavalos são a sensação por aqui e a temporada do Natal promete ser a melhor de todas, embora tenham ocorrido distúrbios em algumas cidades industriais. O Parlamento está debatendo e vai aprovar uma lei proibindo que as carruagens sem cavalos andem a mais de três quilômetros por hora e devem ter um sinaleiro andando na frente!
O sarampo está em toda parte, com muitas mortes, mas o tifo não é tão terrível este ano. O Times informa que o cólera está grassando de novo em Wapping e nas áreas do porto, trazido por um navio mercante da índia.
Phillip, espero que você esteja se agasalhando direito, usando roupas de baixo de algodão, mantendo as janelas fechadas, contra os fluxos que abundam no ar da noite. Seu pai e eu gostaríamos que voltasse para a sensata Inglaterra, embora por suas cartas pareça estar satisfeito com seu progresso na língua do Japão. O correio (que alegria!) também funciona para vocês do Japão, assim como para nós daqui?
Seu pai diz que este governo está arruinando nosso país, nosso moral e nosso glorioso império. Já lhe contei que há agora mais de dezoito mil quilômetros de linhas de trem na Grã-Bretanha? Em apenas quinze anos, as diligências desapareceram...
A carta continuava assim por páginas, com todos os tipos de notícias que ela achava interessantes, e eram mesmo. O que era maravilhoso para Phillip, permindo-lhe manter-se em contato com as coisas de sua terra. Nas entrelinhas, porém, ele lera que a doença do pai não era tão fácil assim. E sua ansiedade aumentara. Por tudo o que sei, ele pode já estar morto, pensou Phillip, na maior preocupação.
Parado ali, no passeio, sob a chuva, ele sentiu repentina pontada de dor se irradiar do estômago. O suor molhou sua testa, mas talvez fosse a chuva, não sabia com certeza, só tinha certeza de que estava febril. Talvez eu tenha contraído alguma coisa... a sífilis ou algo parecido! Oh, Deus, talvez Babcott esteja enganado, e não seja apenas o fardo do homem branco... alguma doença corriqueira, um pouco de catarro. Oh, Deus, embora André tenha jurado por tudo o que é sagrado, e Raiko também, que Fujiko era mais pura do que pura, talvez ela não seja!
— Ora, Phillip, pelo amor de Deus, pare com isso! — dissera Babcott naquela manhã. — Você não tem sífilis, apenas comeu ou bebeu alguma coisa ruim. Tome um pouco da tintura do Dr. Collis. Isso vai curá-lo até amanhã... e se não curar, não precisa se preocupar, nós lhe providenciaremos um bom enterro. Quantas vezes tenho de lhe dizer para só beber água fervida ou chá?
Ele enxugou a testa, a claridade se desvanecendo, mas o vento sem amainar. Sentia-se melhor, sem dúvida, do que durante a noite, quando evacuara sem parar. Se não fosse por Babcott, ou pela magia de Collis, eu teria perdido o funeral... não, não o funeral, a partida do corpo de Malcolm. Que coisa terrível! Pobre coitado! Pobre Angelique! O que acontecerá agora?, especulou ele, perturbado, desviando os olhos de Angelique e se encaminhando apressado para a legação.
Angelique o vira. Quando o clíper foi tragado pela escuridão, ela fechou as cortinas e foi sentar à mesa. Seu diário estava aberto ali. Havia três cartas lacradas, prontas para seguirem pelo navio de correspondência: para a tia, tendo em anexo uma ordem de pagamento à vista, contra o Banco da Inglaterra, no valor de cinqüenta guinéus, a segunda para Colette, com uma ordem de pagamento de dez guinéus, as duas ordens providenciadas por Jamie, usando parte do dinheiro que Sir William lhe permitira manter. Pensara em usar uma das promissórias de Malcolm que encontrara na escrivaninha, pondo uma data anterior, e aproveitando O sinete no cofre, mas julgou que seria uma insensatez, pelo menos por enquanto. O dinheiro para a tia era apenas para ajudá-la e o de Colette serviria para comprar os melhores medicamentos para o momento do parto.