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Posso ou não chegar lá a tempo, refletiu ela. Espero que sim.

A última carta deveria ser entregue em mãos. Dizia: Prezado almirante Ketterer: Sei que nos casamos graças à sua bondade. Agradeço do fundo do meu coração e juro que, qualquer que seja o poder que esta pobre mulher venha a ter no futuro, será usado para acabar com o comércio de ópio por parte da Struan e também para suspender a infame venda de armas para os nativos, como meu marido jurara fazer. Mais uma vez, agradeço, com toda a minha afeição sincera, Angelique Struan.

Assinar Angelique Struan muito a agradara. Os dois nomes harmonizavam-se com perfeição. Foi ótimo praticar a assinatura, a curva do “S” ajudando-a de certa forma a pensar.

Meu esquema com Edward... de onde saíram todas aquelas idéias sensacionais? É excelente... se ele fizer como eu quero. Deve convencer Tess de que não sou uma inimiga. Mas seu filho era seu filho, e eu não perdoaria, não se fosse meu filho, acho que não perdoaria.

O caminho à sua frente estaria coalhado de infortúnios, tanta coisa errada, tanta coisa podendo sair errada, André ainda é um cão subserviente, esperando para ser amordaçado ou repelido — na verdade, também há muitas coisas que podem sair certas —, o caixão correto se encontra a caminho, o de Malcolm pronto e à espera de amanhã, ainda posso viajar para Hong Kong pelo navio de correspondência, se quiser, tenho certeza que Edward quer casar comigo, pois ele, entre todas as pessoas, compreende que uma esposa rica é melhor que uma pobre, tenho as promissórias em branco de Malcolm, e o sinete de que ninguém mais sabe... e vinte e oito dias para esperar, não como da última vez, Santa Mãe, graças a Deus misericordioso... e como rezo por essa criança.

Ah, Malcolm, Malcolm, que vida boa teríamos, e eu cresceria sem precisar de momentos tão horríveis, juro que conseguiria.

Fazendo um esforço, ela se desvencilhou da melancolia e tocou a sineta em cima da mesa. A porta foi aberta sem uma batida polida, sem qualquer batida.

Miss?

Tai-tai, Ah Soh!

Miss tai-tai?

— Mande Chen vir até aqui, depressa.

— Comer aqui, lá embaixo, miss... miss tai-tai?

Angelique suspirou pelas manobras a que Ah Soh podia recorrer para não chamá-la diretamente de tai-tai.

— Escute, seu monte de bosta de burro — disse ela, suavemente —, sou mais forte do que você, em breve estarei pagando as contas, e vai sofrer então.

Ela sentiu-se feliz por ver a irritação nos olhos escuros. Como Malcolm explicara, falar com Ah Soh em inglês correto, que ela não entendia, em vez de pidgin, levava a criada a perder a pose. Ah, que lógica distorcida a dos chineses, pensou Angelique.

— Chen, depressa!

Ah Soh retirou-se, mal-humorada. Quando Chen entrou, Angelique comunicou que tinha uma carta para ser entregue na embaixada britânica. Ele acenou com a cabeça, sem comentários.

— Chen, Ah Tok doente, não doente, hem?

— Ah Tok doente, Ah Tok ir Hong Kong. — Chen apontou na direção do mar. — Junto com amo.

— Ahn...

Angelique experimentou um profundo alívio, desejou ter pensado nisso antes. Por várias vezes vira Ah Tok espreitando das sombras, os olhos escuros transbordando de ódio, a saliva escorrendo pelos cantos da boca. Ela entregou a carta para Ketterer.

— Vá Casa Grande, agora.

Ele olhou para o nome, fingindo ser capaz de ler a escrita dos bárbaros.

— Comer este lugar mesmo, hem?

Tai-tai comer este lugar mesmo, hem? Tai-tai!

Os olhos de Chen faiscaram. A boca sorriu.

Tai-tai, comer este lugar mesmo, hem? Tai-tai miss?

— Você também é um monte de bosta de burro. Talvez eu o dispense... não, isso seria gentileza demais. Pensarei a seu respeito mais tarde. — Ela sorriu. — Comer lá embaixo. Que comida ter?

— O que querer, tai-tai miss, miss tai-tai!

Isso a fez rir, e ela sentiu-se melhor.

Miss tai-tai, tai-tai miss, tudo mesma coisa. Que comida? Sua comida, comida chinesa — disse Angelique subitamente, sem saber por quê. — Mesmo que você, Chen. Comida da China, comida número um. A melhor, hem?

Chen ficou aturdido. Aquilo era bastante inesperado. No passado, ela apenas comia os patos que o amo apreciava, para agradá-lo, e preferia os pratos europeus, carnes, batatas, tortas, pão, os alimentos que ele e todos os chineses consideravam apropriados apenas para animais.

— Comida do amo, hem? — disse ele, especulativo.

— Comida do tai-pan para tai-tai do amo!

Autoritária, imitando Malcolm, ela acenou para que Chen se retirasse e virou as costas. Inquieto, Chen saiu, murmurando:

— Mesma coisa tai-pan, miss tai-tai.

Devo desenvolver o gosto pela comida chinesa, compreendê-la melhor, pensou Angelique, absorvendo uma nova idéia. Caso eu fique parte do ano. Jamie disse que gosta da comida chinesa de vez em quando, Phillip é entusiasmado, e Edward sempre a come...

Ah, Edward, Edward de tantas caras, de tantas possibilidades. Não tenho certeza a seu respeito. Se...

Se eu gerar um filho, ficarei feliz por ter uma parte de Malcolm para sempre. Voltarei a Paris, pois até lá já terei muito dinheiro, mas muito mesmo. Tess Struan se sentirá contente por nos ver partir, e nosso filho será criado em parte como francês, em parte como britânico, e será digno de seu pai. Se for uma filha, eu partirei também, com menos, mas será mais do que suficiente. Até encontrar um título que valha a pena, um homem que valha a pena.

Se não tiver sorte, e não houver nenhuma criança dentro de mim, então posso considerar Edward, ao mesmo tempo em que negocio com aquela mulher por minha migalha de viúva, tudo isso dependendo de Heavenly Skye estar enganado.

Enganado sobre o quão vingativa e implacável é aquela mulher.

49

Sábado, 13 de dezembro:

No dia seguinte o mar continuava do mesma cinza, o céu também, mas a tempestade já passara. A chuva cessara. Angelique, Skye e Hoag esperavam na cabine do cúter, ainda atracado no cais da Struan, e há muito atrasado na partida para Kanagawa. Além da baía, podiam avistar as ondas com as cristas brancas. A semi-escuridão, agravada pelo vento forte e úmido, tornava a espera mais difícil. Jamie e o reverendo Tweet já deviam ter chegado há meia hora.