O frio aumentara. Eles se agruparam da melhor forma possível, apoiando-se onde podiam. Jamie postou-se de costas para a popa, os outros de frente para ele.
— Tirem os chapéus — ordenou ele, tirando o seu primeiro.
Skye, Hoag, o foguista e o contramestre obedeceram. Ele abriu o livro dos regulamentos navais, na página marcada. Lendo e improvisando, Jamie disse:
— Estamos aqui reunidos à vista de Deus para lançar os restos mortais de nosso amigo Malcolm Struan, marido de Angelique Struan, tai-pan da Casa Nobre, nas profundezas, concedendo-lhe o sepultamento no mar que ele desejava, assim como sua esposa, agindo como amigos devem agir...
A menção do nome, os olhos do foguista se arregalaram e ele lançou um olhar para o contramestre, que sacudiu a cabeça, advertindo-o a ficar calado. Murmurando para si mesmo, detestando funerais, ele se aconchegou ainda mais em seu casaco, contra o frio do vento, querendo descer para sua quente casa de máquinas. O vento aumentou um nó. Todos perceberam a mudança. Jamie hesitou, e depois continuou:
— Agora, digamos a oração do Senhor. Pai nosso...
Cada um orou à sua maneira, murmurando as palavras, o movimento aumentado do convés predominando em suas mentes. Concluída a oração, Jamie olhou para o livro por um momento, não que precisasse, pois lera o serviço antes na casa do leme, mas necessitando de tempo para acalmar seu coração, e afastar seus pensamentos do mar. Enquanto os outros fechavam os olhos, ele mantinha os seus abertos. Assim como o contramestre, vira a linha da tempestade se aproxirnando por trás deles, as ondas maiores, ameaçadoras.
— Como capitão do cúter Cloudette, da Struan, — disse ele, um pouco mais alto do que antes, para se sobrepor ao vento —, é meu dever e honra encomendar o espírito deste homem à guarda de Deus Todo-Poderoso, pedindo a Deus Todo-Poderoso que o perdoe por seus pecados, não que conhecêssemos algum, não pecados de verdade, lançando-o às profundezas de onde... de onde viemos para cá, desde a Inglaterra, do nosso lar, através dos mares. Ele era um homem de bem. Malcolm Struan foi um homem de bem, e nós o perdemos, sentimos saudade dele agora e sentiremos no futuro...
Ele olhou para Angelique, que segurava um espeque com as duas mãos, as articulações esbranquiçadas. Uma rajada de vento a atingiu, comprimindo o véu contra o rosto.
— Quer dizer alguma coisa, madame?
Ela sacudiu a cabeça, lágrimas silenciosas escorrendo. Os borrifos vinham de boreste, um pouco mais baixo, por causa do peso de todos e do caixão.
Desconsolado, Jamie fez um sinal para Skye e o foguista. Meio desajeitados, com um equilíbrio precário, eles soltaram as cordas que prendiam o caixão ao banco, empurraram-no com dificuldade para a amurada de boreste, a fim de lançá-lo ao mar. Jamie ajudou-os. Quando o caixão balançava na amurada, ele disse em voz alta, dominado por sua infelicidade:
— O pó voltará ao pó, o mar e o céu reivindicam o que é seu, e os ventos hão de sussurrar uns para os outros que este extraordinário jovem foi ao encontro de seu Criador cedo demais, cedo demais...
Com os outros dois homens, ele deu o empurrão final no caixão, que se inclinou e caiu no oceano.
O cúter adernou, corrigindo a perda de peso, uma rajada de vento atingiu o casco exposto, inclinando-o ainda mais. A amurada de bombordo alcançou o mar. Todos se seguraram, menos o contramestre e o foguista, que acompanharam o movimento. Angelique, fraca de tanto chorar, não conseguiu mais se segurar e escorregou. Já estava quase caindo ao mar quando Jamie a agarrou, puxando-a de volta, frenético, se segurando num apoio com a outra mão. O vento arrancou seu chapéu e o véu. O foguista, as pernas fortes de marujo, deslizou ao seu encontro, levantou-a, arrastou-a para a segurança da cabine, cambaleando por trás dela.
A temperatura caiu. A chuva começou. A tempestade desabou sobre o cúter. Jamie gritou:
— Contramestre, vamos voltar!
— Melhor ficar aí embaixo, senhor!
O contramestre já decidira o que fazer e como fazer. Esperou até que o foguista, soltando imprecações silenciosas, descesse pela escotilha para a casa de máquinas, fechando-a, e que Jamie, Hoag e Skye se encontrassem sãos e salvos na cabine. A chuva se tornou enviesada. O mar era mais violento.
O contramestre sinalizou “devagar, à frente”, virou o leme para bombordo, atenuando o impacto do vento. A proa desceu numa onda de rebentação. O cúter livrou-se bravamente, a água passando pelo convés para bater no vidro da cabine e casa do leme. Continuou a fazer a volta, enquanto o contramestre murmurava, com o cachimbo apertado na boca:
— Calma aí. Somos amigos, pelo amor de Deus, apenas viemos lhe entregar o neto do Demônio de Olhos Verdes.
Não foi fácil fazer a volta. As ondas empurradas pelo vento adernavam o cúter, e por mais que tentasse corrigir a posição, não lhe davam trégua, e arrastavam-no para mais longe ainda. Na cabine, os quatro se seguravam da melhor forma que podiam, qualquer coisa solta caindo. Angelique tornou a perder o equilíbrio, mas os outros a seguraram. No momento, ninguém pensava em qualquer outra coisa que não a tempestade. Hoag estava cinzento. Com um gemido cheio de bílis, ele estendeu-se no chão da cabine.
— É apenas a volta! — gritou Jamie, por cima do barulho e do vento, o cúter serpenteando, Angelique comprimindo a cabeça contra seu ombro, apavorada. — Já vai melhorar!
Ele constatou que o mar estava ruim, mas não agitado demais. Ainda não. Além disso, tinha confiança absoluta no contramestre e na embarcação... desde que o motor continuasse a fornecer potência.
— Não se preocupem!
O contramestre também já chegara a essa conclusão e decidira cair para sotavento, com bastante tempo para isso, se fosse necessário, e fazer a volta contra o vento, lançar uma âncora de tempestade — um balde na extremidade de uma corda, para manter a proa a favor do vento — e agüentar firme.
— Se ele resistir, vamos escapar — murmurou o contramestre, lutando com O leme contra a pressão das ondas.
O cúter completou a volta e se aprumou. A proa mergulhou, enquanto a onda seguinte passava, acelerada pelo vento, depois a embarcação subiu, vertiginosamente, alcançou a crista, e caiu no cavado. Todos a bordo estremeceram. Outra vez a mesma coisa, outra vez a descida estonteante, com muita água a bordo agora. Escendo e descendo, depois subindo e subindo, cada vez mais alto, a queda, a água espumante passando pelas janelas, cobrindo o convés. Angelique deixou escapar um pequeno gemido. Jamie tinha um braço em torno dela, a outra mão gurava uma alça. A chuva batia nas janelas da popa e na porta. Encolhido num canto Skye mantinha a cabeça baixa, vomitando. Hoag, estendido de bruços, também se encontrava desamparado.
Lá em cima, na casa do leme, o contramestre balançava de um lado para o outro, equilibrando-se no convés inclinado com alguma facilidade. A chuva e os borrifos eram intensos nas janelas, mas ele podia ver o suficiente e não permitia que as ondas atingissem o cúter diretamente pela popa, virando-o um pouco, a fim de que as subidas e descidas não acompanhassem toda a força do mar, fazendo-deslizar ao máximo possível... o que era terrível para os passageiros, “mas eles estão sãos e salvos, não é?” Ele estava radiante, divertindo-se, já vencera muita tempestades, haveria tempo suficiente para sentir medo quando estivesse em terra diante de um fogo alegre, tomando dois ou três grogues quentes, daqui a uma ou duas horas. Feliz, ele retomou seu canto jovial. E, de repente, seu coração pulou uma batida.