— Independente do que aconteça, eles não devem ver o xógum — acrescentou Yoshi. — Isso confirmaria a legalidade dos tratados, que ainda não foram devidamente ratificados. Vamos recusar o insolente pedido.
— Concordo que é insolente, mas ainda temos de lidar com o problema e decidir sobre aquele cão de Satsuma, Sanjiro.
Ambos estavam cansados do problema dos gai-jin, que perturbava sua wa, a harmonia, já há dois dias agora, ambos ansiosos em encerrar a reunião — Yoshi querendo retomar a seus aposentos lá embaixo, onde Koiko o esperava, Anjo para ir a um encontro secreto com seu médico.
Era um dia ensolarado e ameno lá fora, o cheiro do mar e do solo fértil trazido pela suave brisa que passava pelas janelas abertas. Ainda não havia qualquer ameaça do inverno.
Mas o inverno se aproximava, pensou Anjo, distraído pela dor em suas entranhas. Detesto o inverno, a estação da morte, a estação triste, céu triste, mar triste, terra triste, feia e congelada, o frio endurecendo suas articulações, lembrando como é velho. Era um homem grisalho, de quarenta e seis anos, daimio de Mikawa, fora o centro do poder no roju desde o assassinato do ditador Tairo Li quatro anos antes.
Enquanto você, meu jovem inexperiente, pensou ele, furioso, tem apenas dois meses no conselho, e quatro semanas como guardião — duas posições políticas perigosas, atribuídas apesar dos meus protestos. É tempo de cortar suas asas.
— Claro que todos prezamos seu conselho — disse ele, insinuante, para depois acrescentar, com toda hipocrisia, como ambos sabiam: — Há dois dias que os gai-jin vêm preparando sua esquadra para a batalha, as tropas realizando exercícios ostensivos, e amanhã seu líder estará aqui. Qual é a sua solução?
— A mesma de ontem, com ou sem pergaminho oficiaclass="underline" enviamos outro pedido de desculpas, “pelo lamentável incidente”, temperado com um sarcasmo que eles nunca vão compreender, de uma autoridade que jamais conhecerão, entregue antes de o líder gai-jin deixar Iocoama, e solicitando outro adiamento, para “novas investigações”. Se isso não o satisfizer, e ele vier a Iedo, junto com os outros, pois que venham. Enviaremos a habitual autoridade de baixo nível para recebê-los e conferenciar em sua legação. Ou seja, vamos tratá-los com um pouco de sopa, mas sem peixe. Protelamos e continuamos a protelar.
— Enquanto isso, é chegado o momento de exercer nosso direito hereditário ao xogunato e ordenar a Sanjiro que nos entregue sem demora os assassinos, para a necessária punição, e pague uma indenização, por nosso intermédio, além de ficar sob prisão domiciliar e ser afastado de suas funções. — O tom de Anjo era ríspido. — Você ainda é inexperiente nas questões mais importantes do xogunato.
Fazendo um esforço para se controlar e desejando obrigar o próprio Anjo a uma aposentadoria imediata por sua estupidez, Yoshi respondeu:
— Se dermos essas ordens a Sanjiro, seremos desobedecidos, o que nos forçaria a entrar em guerra, e Satsuma é muito forte, conta com numerosos aliados. Há duzentos e cinqüenta anos que não temos guerras. Não estamos preparados para a guerra. A guerra é...
Houve um silêncio súbito e opressivo. Numa reação involuntária, os dois levaram a mão ao cabo da espada. As xícaras e o bule começaram a tremer. A própria terra rugia, a torre balançou, uma, duas, três vezes. O terremoto persistiu por cerca de trinta segundos. E logo acabou, tão subitamente como começara. Impassíveis, eles esperaram, observando as xícaras.
Nada de tremor posterior.
E ainda nada.
Mais espera por todo o castelo, por toda a cidade de Iedo. Todas as criaturas vivas esperavam. Nada.
Yoshi tomou um gole de chá, ajeitou a xícara com todo cuidado no pires. Anjo invejou-o por seu controle. Por dentro, Yoshi estava em turbilhão, e pensou: Hoje, os deuses me sorriram, mas o que acontecerá no próximo choque, ou no outro, ou no outro... a qualquer momento agora, ou no futuro distante, ou esta tarde, ou esta noite, ou amanhã? Karma!
Seguro hoje, mas em breve haverá outro, terrível, um terremoto destruidor, como o que ocorreu há sete anos, quando quase morri, e cem mil pessoas pereceram só em Iedo, no terremoto e nos incêndios subsequentes, sem contar as dezenas de milhares arrastadas para o mar e afogadas, pela onda tsunami, que veio do oceano naquela noite... e uma delas foi minha adorável Yuriko, que era então a paixão da minha vida. Ele fez um tremendo esforço para dominar o medo e continuou a falar:
— A guerra é completamente insensata agora. Satsuma é muito forte, as legiões de Tosa e Choshu se tornarão suas aliadas ostensivas, e não temos poder suficiente para esmagá-los sozinhos.
Tosa e Choshu eram feudos distantes de Iedo, ambos inimigos históricos do xogunato.
— Os daimios mais importantes virão lutar sob a nossa bandeira, se chamados, e os outros os acompanharão.
Anjo tentou ocultar a dificuldade que sentiu para soltar o cabo da espada, ainda apavorado.
Yoshi estava alerta, era bem treinado, notou o lapso e registrou-o para uso futuro, satisfeito por tê-lo percebido em seu inimigo.
— Eles não farão, pelo menos ainda não. Vão adiar, esbravejar, lamentar, e nunca nos ajudarão a acabar com Satsuma. Não têm coragem.
— Se não agora, quando?
A fúria de Anjo se dissipara, diluída pelo medo e a aversão a terremotos. Testemunhara um dos piores quando era pequeno, o pai se transformara numa tocha viva, a mãe e dois irmãos viraram carvão diante de seus olhos. Desde então, mesmo ao menor terremoto, revivia aquele dia, sentia o cheiro da carne queimando, ouvia os gritos.
— Temos de humilhar aquele cão, mais cedo ou mais tarde. Por que não agora?
— Porque temos de esperar até ficarmos melhor armados. Eles... Satsuma, Tosa e Choshu... possuem umas poucas armas modernas, canhões e fuzis, não Sabemos em que quantidade. E diversos barcos a vapor.
— Vendidos pelos gai-jin, contra a vontade do xogunato!
— Comprados por eles por causa de fraquezas anteriores. Anjo ficou vermelho.
— Não sou responsável por isso!
— Nem eu! — Os dedos de Yoshi se contraíram no cabo da espada. Aqueles feudos são mais bem armados do que nós, qualquer que seja o motivo. Assim, por mais lamentável que seja, temos de esperar. O fruto de Satsuma ainda não apodreceu o suficiente para que arrisquemos uma guerra que não podemos vencer. Estamos isolados, o que já não acontece com Sanjiro.