— Por fim, tenho certeza que W’rum-sama não sabe que o homem que ele abriga, chamado Nakama, é um samurai renegado, um ronin e um revolucionário, cujo verdadeiro nome é Hiraga, às vezes chamado Otami. Exijo ele imediatamente. O homem é procurado por assassinato.
Naquele momento, no outro lado da baía, na Yoshiwara de Iocoama, Katsumata disse:
— Hiraga, pensou como podemos enfurecer os gai-jin, um incidente hostil para lançá-los contra o xogunato?
Os dois se achavam sentados frente a frente, numa casinha isolada, nos jardins da casa das Três Carpas.
— Incendiar uma das igrejas seria o mais fácil — respondeu Hiraga, mantendo sua ira bem reprimida, pois Katsumata era muito perceptivo. Ele acabara de chegar, chamado de seu refúgio na aldeia por um criado sonolento. Exceto por umas poucas criadas da cozinha, acendendo o fogo e limpando tudo, não havia mais ninguém de pé. Raiko e suas damas ainda dormiam e poucas acordariam antes de meio-dia. — Isso os deixaria furiosos, mas primeiro deixe-me contar o que consegui realizar aqui...
— Mais tarde. Primeiro, temos de formular um plano. Uma igreja? A idéia é interessante...
Katsumata exibia uma expressão dura e fria, não mais disfarçado, como se apresentara em Hodogaya. Parecia agora um bonzo, um sacerdote budista, o rosto raspado, a não ser por um bigode. A cabeleira era antes uma peruca e desaparecera. A cabeça tinha fios de cabelo curtos como a de um bonzo, ele usava a túnica laranja budista, sandálias e um cinto de contas de oração. A espada longa, com a bainha usada nas costas, estava ao seu lado, sobre os futons, e a mon, as cinco insígnias na túnica, proclamavam que era membro de uma ordem monástica militante.
Essas virtuais ordens militares eram constituídas por samurais que haviam renunciado a essa condição para servir a Buda, em caráter permanente ou temporário, para pregar e vaguear pela terra, fazendo boas ações, sozinhos ou em bandos, punindo assaltantes e bandidos, protegendo os pobres dos ricos e os ricos dos pobres... e alguns mosteiros. O Bakufu e a maioria dos daimios os toleravam, desde que mantivessem sua violência dentro de limites.
Ontem, ao crepúsculo, ele passara pela barreira, arrogante, os documentos falsos perfeitos. Estava um dia atrasado, não era esperado, mas Raiko, no mesmo instante, lhe dera o melhor bangalô disponível. Ao contrário dos outros shishi, o único entre eles, sua família era rica e ele sempre andava com numerosos oban de ouro.
— Uma igreja — repetiu ele, apreciando cada vez mais a idéia. — Eu não teria pensado nisso... deixaríamos uma mensagem, alegando que fora feito por ordem de Yoshi, o tairo Anjo e os roju, como uma advertência para que deixem nossas praias. Precisamos muito de vingança contra Yoshi.
Um pouco de espuma se concentrou nos cantos de sua boa, que ele logo limpou, irritado.
— Yoshi é o arqui-inimigo. Um de nós tem de ir contra ele. Yoshi matou muitos dos nossos guerreiros em Quioto, atirou em alguns pessoalmente. Se eu pudesse emboscá-lo, não hesitaria. Isso também, mais tarde. Portanto, a igreja será incendiada. Ótimo.
Hiraga sentia-se apreensivo, achando Katsumata estranho, diferente. Agora se mostrava impaciente, agindo como se fosse um daimio, e Hiraga um goshi a quem podia dar ordens. Sou o líder dos shishi de Choshu, pensou, irritado ainda mais, não um discípulo sob as ordens de um sensei de Satsuma, por mais renomado que ele seja.
— Isso converteria toda Iocoama num ninho de vespas. Eu teria de ir embora, o que seria péssimo no momento, já que o meu trabalho é muito importante para a nossa causa. A situação aqui é muito delicada, sensei. Concordo que devemos planejar... por exemplo, para onde escaparemos, se precisarmos escapar?
— Iedo. — Katsumata fitou-o nos olhos. — O que é mais importante, sonno-joi ou seu refúgio seguro entre os inimigos gai-jin?
— Sonno-joi — murmurou ele, acreditando. — Mas é importante aprendermos o que eles sabem. Conhecer seu inimigo como...
— Não preciso de citações, Hiraga, mas de ação. Estamos perdendo a luta, Yoshi está vencendo. Só temos uma solução: lançar esses gai-jin em ação violenta contra o Bakufu e o xogunato. Isso avançará sonno-joi como nada antes e tem precedência sobre tudo. Precisamos desesperadamente disso, pois assim recuperaremos apoios... e a honra... guerreiros virão em levas para o nosso estandarte, enquanto a vanguarda dos shishi se reagrupa, aqui e em Quioto. Pedirei reforços de Satsuma e Choshu e tornaremos a atacar os portões, para libertar o imperador. E desta vez teremos êxito, porque Ogama, Yoshi e o sórdido xogunato estarão distraídos, enfrentando os gai-jin hostis. Assim que dominarmos os portões, sonno-joi será um fato.
Não havia como duvidar de sua confiança.
— E o que acontecerá se provocarmos os gai-jin, sensei!
— Eles bombardeiam Iedo, o xogunato retalia, atacando Iocoama... e ambos perdem.
— Enquanto isso, todos os daimios correm a apoiar o xogunato, quando os gai-jin voltarem, o que é inevitável.
— Eles não voltariam antes do quarto ou quinto mês, se é que voltarão. Antes disso, teremos os portões e, por sugestão nossa, o imperador terá o maior prazer em entregar o culpado aos gai-jin, Yoshi ou seu chefe, Nobusada, Anjo, e quaisquer outros líderes de que eles precisarem para saciar a sede de vingança. E também por sugestão nossa, o filho do céu concordará em lhes permitir o comércio, sem mais guerra, mas apenas através de Deshima, na enseada de Nagasáqui, como ele fizeram por séculos. — A certeza de Katsumata era total. — É isso o que vai acontecer. Primeiro, a igreja... e que tal um navio?
Hiraga, surpreso, murmurou:
— Como assim?
Sua mente transbordava de argumentos contra as suposições de Katsumata convencido de que não aconteceria assim, ao mesmo tempo em que tentava encontrar um meio de desviá-lo, fazê-lo continuar a viagem até Iedo e retornar dentro de um ou dois meses... as coisas iam muito bem aqui, com Taira e Sir Wrum, Jami-sama e o shoya, e ele não queria arriscar tudo isso. Haveria bastante tempo para enfurecer os gai-jin mais tarde, com a igreja, quando um refúgio se...
— Afundar um navio de guerra os inflamaria, não é?
Hiraga piscou os olhos, aturdido.
— Como... como nenhuma outra coisa.
— Usamos a igreja como uma manobra diversionária, enquanto afundamos um navio, o maior de todos.
Atordoado, Hiraga observou Katsumata abrir uma mochila. Havia quatro tubos de metal, presos com um fio. E estopins.
— Estes tubos contêm explosivos, pólvora de canhão. Um deles, jogado por uma vigia de bombordo ou preso no casco do navio, abriria um rombo; dois seriam um golpe fatal.