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— O que os outros anciãos pensam a respeito?

Anjo soltou uma risada irônica.

— Eles votarão como eu disser.

— Se você não fosse parente, eu poderia sugerir que renunciasse ou cometesse seppuku.

— É uma pena que não seja seu ilustre homônimo e, assim, não possa dar essa ordem, hem? — Anjo levantou-se. — Enviarei a resposta agora, para ganhar tempo. Amanhã faremos uma votação formal para humilhar Sanjiro...

Ele virou-se abruptamente, furioso, quando a porta foi aberta. Yoshi já tirara a metade da espada da bainha.

— Dei ordens...

O guarda aturdido murmurou:

— Desculpe, Anjo-sama...

A raiva de Anjo se desvaneceu quando um jovem empurrou o guarda para o lado e entrou apressado na sala, seguido de perto por uma moça, que mal chegava a ter um metro e meio de altura, ambos em trajes suntuosos, com quatro samurais armados em sua esteira, e depois uma matrona e uma dama de companhia. No mesmo instante, Anjo e Yoshi se ajoelharam, baixaram a cabeça para o tatame. Toda a comitiva fez uma reverência. À exceção do jovem, o xógum Nobusada. E da moça, a princesa imperial Yazu, sua esposa. Ambos tinham a mesma idade, dezesseis anos.

— Esse terremoto quebrou meu vaso predileto! — disse o rapaz, excitado, ignorando a presença de Yoshi. — Meu vaso predileto!

Ele acenou para que a porta fosse fechada. Seus samurais permaneceram na sala, assim como as damas de companhia de sua esposa.

— Eu queria lhe dizer que tive uma idéia maravilhosa.

— Lamento muito pelo vaso, Sire — disse Anjo, a voz gentil. — Teve uma...

— Nós... decidimos, minha esposa e eu, decidimos ir a Quioto para falar com o imperador, e perguntar o que fazer com os gai-jin, como podemos expulsá-los! — O jovem olhou radiante para a esposa, que acenou com a cabeça, numa feliz concordância. — Iremos no próximo mês... uma visita oficial!

Anjo e Yoshi sentiram que suas mentes estavam prestes a explodir, ambos tiveram vontade de saltar para a frente e estrangular o rapaz, por sua falta de juízo. Mas mantiveram o controle, acostumados aos acessos e estupidez petulante de Nobusada. O que não os impediu de amaldiçoar, pela milésima vez, o dia em que o casamento daqueles dois fora proposto e consumado.

— Uma idéia interessante, Sire — disse Anjo, cauteloso, observando a moça sem observar, notando que ela se concentrava nele agora, e que seus lábios podiam sorrir, mas o mesmo não ocorria com os olhos, como sempre. — Apresentarei a sugestão ao Conselho dos Anciãos, e dispensaremos toda a nossa atenção.

— Ótimo! — exclamou Nobusada, pomposo.

Era um jovem baixo e magro, pouco mais que um metro e meio, e sempre usava grossas geta, sandálias, para aumentar sua altura. Os dentes estavam pintados de preto, como determinava a moda da corte em Quioto, embora não se adotasse o mesmo costume nos círculos do xogunato.

— Três ou quatro semanas devem ser suficientes para preparar tudo. — Ele ofereceu um sorriso ingênuo à esposa. — Esqueci alguma coisa, Yazu-chan?

— Não, Sire — respondeu ela, graciosa. — Como poderia esquecer qualquer coisa?

Seu rosto era delicado e arrumado ao estilo clássico da corte de Quioto: sobrancelhas depiladas, tendo em seu lugar uma tinta escura, sobre a brancura da maquilagem, dentes pintados de preto, cabelos pretos empilhados no alto da cabeça, presos com alfinetes ornamentados. O quimono púrpura era decorado com ramos de flores de outono, e a obi, a faixa elaborada, era dourada. A princesa imperial Yazu, meia-irmã do filho do céu, esposa de Nobusada há seis meses, fora-lhe prometida desde os doze anos, ficara noiva aos quatorze e casara aos dezesseis.

— Claro que uma decisão sua é uma decisão, não uma sugestão — acrescentou ela.

— Tem toda razão, honrada princesa — apressou-se em declarar Yoshi. — Mas, infelizmente, Sire, arranjos tão importantes não podem ser feitos em apenas quatro semanas. E permita que eu o aconselhe a considerar as implicações, a possibilidade de que tal visita seja interpretada de maneira errônea.

O sorriso de Nobusada desapareceu.

—Implicações? Aconselhar? Que implicações? Interpretação errônea de quem? Sua?

O tom era rude e agressivo.

— Não, Sire, não minha. Eu apenas queria ressaltar que nenhum xógum jamais foi a Quioto para pedir conselhos ao imperador; tal precedente seria desastroso para seu regime.

— Por quê? — indagou Nobusada, irritado. — Não estou entendendo.

— Porque, como se lembra, o xógum tem o dever hereditário exclusivo de tomar decisões pelo imperador, junto com seu Conselho de Anciãos e o xogunato — Yoshi mantinha a voz gentil. — Isso permite que o filho do céu passe seu tempo intercedendo junto aos deuses por todos nós, enquanto o xogunato impede que os acontecimentos materiais perturbem sua wa.

A princesa Yazu interveio, também em voz suave:

— O que Toranaga Yoshi-sama diz é verdade, marido. Mas, infelizmente, os gai-jin já perturbaram sua wa, como todos sabemos, e por isso pedir a meu irmão, o sublime, por conselhos a respeito seria ao mesmo tempo polido e filial, não uma interferência com direitos históricos.

— É isso mesmo. — O rapaz estufou o peito. — Está decidido!

— O conselho vai considerar imediatamente os seus desejos — disse Yoshi.

O rosto de Nobusada se contraiu em raiva, e ele gritou:

— Desejos? É uma decisão! Pode falar com eles, se quiser, mas eu já decidi! Sou eu o xógum, não você! Eu! E já decidi! Fui o escolhido, e você rejeitado... fui o escolhido por todos os daimios leais. Sou o xógum, primo!

Todos ficaram consternados com a explosão. Exceto a moça. Ela sorriu para si mesma, manteve os olhos abaixados e pensou: finalmente minha vingança começa.

— É verdade, Sire — disse Yoshi, em voz normal, embora a cor tivesse se esvaído por completo de seu rosto. — Mas sou o guardião e devo advertir contra...

— Não quero o seu conselho! Ninguém me perguntou se queria um guardião! Não preciso de um guardião, primo, ainda menos de você!

Yoshi fitou o rapaz, tremendo de raiva. Houve um tempo em que fui como você, pensou ele, com total frieza, um fantoche a ser mandado de um lado para o outro, a ser afastado de minha própria família, adotado por outra, a ser casado, banido, e quase assassinado seis vezes, e tudo porque os deuses decidiram que eu seria o filho de meu pai... como você, seu tolo patético, nasceu filho de seu pai. Somos parecidos em muitas coisas, mas nunca fui um tolo, sempre optei por ser espadachim, tinha consciência de que era manipulado, e me tornei muito diferente. Não sou mais um fantoche. Sanjiro de Satsuma ainda não sabe, mas ele me converteu em manipulador.