— Quero ir de qualquer maneira, mamãe. Será que papai me emprestaria o dinheiro?
— Acho que sim, se pedir a ele.
— Tenho de ir. Estou com vinte e oito anos, já velha, além da idade normal de casamento. Esperei por muito tempo, e esperaria mais três anos, se fosse necessário, mas... é agora ou nunca. Já decidi. Pode compreender, mamãe?
— Posso, sim. Mas... pelo menos você estará com ele, com o seu homem, se casar, não como eu.
Ela vira as lágrimas, escutara os conselhos nunca oferecidos antes, segredos jamais sussurrados, e depois a mãe arrematara:
— Abençoada seja, menina, vá com Deus. Vamos falar com seu pai.
Ele era major do exército indiano, reformado, vinte e cinco anos de serviço militar, dezoito dos quais no regimento gurkha, voltando para casa em licença a intervalos de dois ou três anos, antes de ser obrigado a se aposentar, de ferimentos recebidos dez anos antes, detestando o afastamento...
— Muito bem, menina, pode ir, com a minha bênção, sob duas condições — dissera o pai. — Se ele a repudiar, avise que o encontrarei em qualquer parte e o matarei; segundo, se ele a violentar, machucá-la, corte seus ovos... emprestarei minha kookrie, o jovem Duncan não vai precisar pelo menos por mais dez anos.
— Está bem, papai.
A kookrie, a faca gurkha, era o seu bem mais prezado. Maureen era a mais velha de três irmãs, com um irmão de oito anos, e a primeira a sair de casa... os filhos da Grã-Bretanha eram filhos para o império.
Jamie pôs mais carvão no fogo, chegou sua cadeira para mais perto, antes de sentar. Pegou a mão dela.
— Maureen, escrevi para você há três meses.
— Escreveu muitas cartas, mas isso não era suficiente — respondeu ela, jovial, a fim de ganhar mais tempo para se preparar.
— Em todas as minhas cartas, durante o último ano, tentei ressaltar, da melhor forma que podia, que este não é lugar para uma dama, não é como a índia, onde existe a vida dos regimentos...
— Nunca estive na índia, Jamie, como sabe, minha mãe só foi lá uma vez e nunca mais voltou. — Ela pegou a mão de Jamie entre as suas. — Não se preocupe, este lugar pode ficar uma beleza, é trabalho para uma mulher. Posso dar um jeito.
O aperto na garganta de Jamie quase o sufocava. Não havia uma saída fácil para seu problema, o cérebro apregoava, faça logo ou jamais conseguirá, faça agora! Claro que não é justo, mas você não tem sido absolutamente justo com ela, é asqueroso por ter se aproveitado de sua boa fé durante todos esses anos, por Deus, está noivo há três anos, e já a conhecia por dois anos antes disso, é um homem sórdido... admita-o, e fale depressa. Agora! O fluxo começou:
— Escrevi-lhe há três meses, a carta deve ter chegado depois de sua partida, e disse que achava mais sensato rompermos o noivado, e que você deveria me esquecer, lamentava muito, mas era o melhor para você, pois não vou voltar para casa, não posso viver lá, não posso trabalhar lá, não deixarei a Ásia até ser obrigado, se ficar doente ou... não irei embora, não posso, amo a Ásia, amo meu trabalho, não há esperança de um tempo feliz para você, não valho a pena, admito que me aproveitei de você, mas não podemos casar, não é possível, agora que vou me estabelecer por conta própria... — Jamie parou para respirar e depois acrescentou, a voz rouca: — Não sei o que mais dizer, não há mais nada para dizer, exceto pedir desculpas mais uma vez... é isso aí.
Ele tirara sua mão. Sentia o estômago embrulhado. Tirou o lenço do bolso-enxugou a testa.
— Desculpe — balbuciou ele, levantou-se, tornou a sentar, mexeu no copo — Desculpe.
Maureen tinha as mãos no colo. Os olhos continuavam abertos, concentrados, não se desviaram do rosto de Jamie por um instante sequer.
— Não precisa se desculpar — disse ela, gentilmente, a testa apenas um pouco franzida. — Essas coisas acontecem, meu rapaz.
Ele ficou boquiaberto.
— Então concorda?
Maureen riu.
— Claro, com parte do que você disse, mas não com tudo... você é homem, eu sou mulher, vemos as coisas de maneiras diferentes.
— Como assim?
— Bom, primeiro, sobre empregos. O emprego de uma mulher, seu trabalho, é cuidar de um homem, fazer um lar, e é para isso que fui educada, o lar e a família são as coisas mais importantes no mundo.
Ela viu Jamie fazer menção de interrompê-la, por isso se apressou em continuar:
— Meu pai acha que o império vem em primeiro lugar, mas ele é um homem. Os homens têm empregos para onde ir, têm de trabalhar para trazer para casa o mingau, um pouco de carne, outras coisas. Mas tem de haver um lar para o qual ele possa trazer essas coisas. Sem uma mulher, não há lar. É muito importante para um homem ter alguém em quem possa confiar, alguém para partilhar o fardo, enquanto trabalhar, ou procurar um emprego, ou se estabelecer por conta própria. Você pode confiar em mim. Entre duas coisas, tentar iniciar seu próprio negócio é o melhor para você. O Sr. Gornt quer fazer a mesma coisa.
— É mesmo?
— E, sim, em algum momento no futuro, ele diz. Voltou para assumir a Brock and Sons, e...
— É mesmo? — murmurou Jamie, aturdido.
— É, sim. Ele diz que vai ficar no lugar do homem que tentou matar você, o Sr. Greyfifth.
— Greyforth... Norbert Greyforth. — A mente de Jamie recuperou o controle: devo estar perdendo o juízo, com você aparecendo desse jeito, que nem um fantasma, e me esqueci de Hoag, Malcolm e Hong Kong. — O que aconteceu em Hong Kong? Sobre Malcolm Struan? Gornt disse alguma coisa sobre Morgan Brock ou Tyler Brock?
— Paciência, meu bonito rapaz, isso vem mais tarde. De volta a você e a mim, já que levantou a questão. Formaremos uma grande dupla, a melhor, eu prometo. Estamos noivos. E prometo que serei a melhor esposa que já existiu.
— Mas será que não percebe, menina, que não vai dar certo? — disse Jamie, odiando a si mesmo, mas com certeza absoluta. — Este lugar é difícil, a vida aqui e árdua, há poucas mulheres, não terá amigas, nada para fazer.
Maureen soltou uma risada.
— Jamie, Jamie, não ouviu uma só palavra do que eu disse. Agora, é isso... Uma batida na porta a interrompeu. Ela gritou:
— Espere um instante! — Levantou-se e continuou, no mesmo tom de voz gentil, mas firme: — Deve ser o Dr. Hoag, ele tinha urgência em lhe falar, mas pedi que me desse alguns minutos antes, pois me sentia ansiosa em vê-lo. Agora, vou deixá-los a sós.
Maureen pegou o chapéu, as luvas, o capote e a echarpe.
— Não se preocupe comigo, Jamie. Trocarei de roupa e ficarei pronta a tempo. Baterei em sua porta. O jantar é às nove horas, não se esqueça.