Mas, naturalmente, a M.G.B. lhe trazia algumas desvantagens. O uniforme a isolava do mundo. As pessoas em geral demonstravam temor, o que não era condizente com o temperamento de muitas moças, e o círculo de relações era restrito aos funcionários da M.G.B. No devido tempo, devia casar dentro daquele meio, a fim" de poder permanecer no Ministério. Além disso, trabalhavam em excesso: das oito às seis, cinco dias e meio por semana, com apenas quarenta minutos para o almoço, na cantina. Mas essa refeição era realmente substancial, de forma que se podia reduzir o jantar e assim economizar o suficiente para adquirir uma casaco de marta, em substituição ao surrado abrigo de raposa siberiana.
Ao pensar no jantar, a cabo Romanova deixou a cadeira ao lado da janela e foi examinar a panela que continha uma sopa grossa, com pedaços de carne e cogumelos em pó, que constituiria a sua refeição. Estava quase pronta e o aroma era delicioso. Desligou o fogão e deixou a panela em cima, enquanto ia se lavar e arrumar, como lhe fora dito que deveria fazer, há muitos anos passados.
Enquanto enxugava as mãos, olhou-se ao grande espelho oval sobre a pia.
Um dos seus primeiros namorados lhe dissera que parecia uma jovem Greta Garbo. Que tolice! Mas, esta noite, parecia realmente atraente. O acetinado cabelo castanho era penteado para trás, deixando à mostra a fronte alta, e caía espessamente quase até aos ombros, ondeando para cima, nas pontas (Garbo usara o cabelo dessa maneira e a cabo Romanova admitia de si para si que a havia copiado) ; a pele macia tinha um brilho de marfim à altura dos zigomas; olhos horizontais e bem separados, de um profundo azul, sob sobrancelhas naturalmente retas (fechou um dos olhos e depois o outro: sim, as pestanas eram realmente longas!) ; o nariz reto e um tanto altivo e, finalmente, a boca. Mas, que teria a boca? Seria grande demais? Talvez, quando sorria. Sorriu para si mesma, ao espelho. Sim, era grande; mas a de Garbo também o era. Pelo menos, os lábios eram cheios e finamente delineados. Os cantos davam sempre a impressão de um sorriso. Ninguém poderia classificá-la como uma boca inexpressiva! E o oval do rosto? Seria longo demais? O queixo demasiadamente pronunciado? Virou a cabeça para um lado, para examinar o perfil. A pesada cortina de cabelo balançou para a frente e cobriu-lhe uma das vistas, e ela jogou-o para trás. Bem, o queixo era afilado, mas, pelo menos, não era pontudo. Tornou a olhar de frente para o espelho, apanhou a escova e começou a passá-la, pelo cabelo longo e espesso. Greta Garbo! Era realmente bonita, do contrário não o teria ouvido de tantos homens; sem falar nas mulheres, que constantemente a procuravam para pedir conselhos de beleza. Mas ser comparada a uma famosa estrela de cinema! Fez para si mesma uma careta e foi jantar.
De fato, a cabo Tatiana Romanova era realmente uma linda moça. Além do rosto, o corpo esbelto era infinitamente gracioso. Cursara, durante um ano, a escola de bale em Leningrado, e abandonara a idéia de fazer do bailado a sua carreira, somente quando ultrapassou, por alguns centímetros, o limite pré-estabelecido de um metro e setenta e cinco de altura. Aprendera na escola a ter um bom porte e a andar com graça. Além disso, sua aparência era extremamente saudável, graças à sua paixão pela patinação, que praticava durante todo o ano na pista de gelo do estádio do Dínamo e que já lhe valera uma das primeiras classificações no time feminino do clube. Seus braços e seios eram impecáveis. Um purista poderia desaprovar-lhe as ancas: os músculos ficaram tão enrijecidos com o exercício que perderam o suave contorno feminino e estavam um tanto masculinizados, redondos atrás e passando retos nos quadris.
A cabo Romanova não era admirada apenas na secção onde trabalhava; a de traduções de inglês, no Arquivo Central da M. G. B. Todos concordavam que não estaria longe o dia em que um dos oficiais graduados iria tirá-la de forma peremptória da sua modesta secção, para transformá-la em amante ou, se absolutamente necessário, em esposa.
Derramou a sopa dentro de uma pequena tigela de porcelana, decorada com um friso que mostrava um bando de lobos perseguindo um trenó em fuga; colocou dentro alguns pedaços de pão preto e, depois de se acomodar na cadeira ao lado da janela, começou a tomar a sopa com uma bela colher que trouxera na bolsa, havia apenas algumas semanas, depois de uma noite alegre passada no Hotel Moskwa.
Depois de terminar, lavou os utensílios, voltou para a cadeira e acendeu o primeiro cigarro do dia (na Rússia, nenhuma jovem respeitável fuma em público, a não ser nos restaurantes, e seria imediatamente demitida se o fizesse durante o trabalho), enquanto escutava as lamentosas dissonâncias de uma orquestra do Turcomenistão. Que mania de tocar essas horríveis músicas orientais somente para agradar aos "kulaks" desses barbáricos Estados exteriores! Por que não podiam tocar algo "kulturny"? Trechos da moderna música de "jazz", ou então clássica? Aquela sinfonia era hedionda. Pior ainda: era caduca.
O telefone tocou, bruscamente. Levantou-se, diminuiu o som do rádio e agarrou o fone.
— Cabo Romanova?
A voz era a do seu querido professor Denikin. Mas, quando não estavam em serviço, sempre a chamava de Tatiana ou até mesmo Tânia. Que significaria isso?
A jovem estava assustada e em expectativa. — Sim, camarada professor.
A voz, do outro lado da linha, parecia-lhe estranha e fria. — Dentro de quinze minutos, às 8h30, terá uma entrevista com a camarada coronel Klebb, do Otdyel II. Deverá ir ao apartamento dela, n.° 1875, no oitavo andar desse mesmo edifício. Está claro?
— Mas, camarada, por quê? O quê... O quê foi?...
A estranha voz do querido professor interrompeu-a.
— É só, camarada cabo.
A jovem afastou o fone do rosto, dirigindo-lhe um olhar ansioso, como se pudesse arrancar mais palavras dos pequeninos orifícios no negro receptor. — Alô, alô! — o bocal do fone parecia responder-lhe com um bocejo. Percebeu que a mão e o antebraço doíam com a força que fazia. Curvou-se vagarosamente para a frente e recolocou o fone no gancho.
Durante alguns instantes, permaneceu imóvel, olhando, sem ver, para aquele negro aparelho. Deveria chamá-lo de novo? Não, isso não teria propósito. Ele falara daquela maneira porque sabia, tão bem quanto ela, que todos os chamados, quer de dentro do edifício, quer externos, eram censurados ou gravados. Fora por isso que não desperdiçara palavras. Era um assunto de Estado. Quando se deve transmitir um recado dessa natureza, o melhor é ser rápido, conciso e livrar-se dele o quanto antes. Dessa forma, ter-se-ia descartado de uma jogada má. Passaria a dama de espadas para outro parceiro. Teria novamente, em mãos, boas cartas.
A jovem levou os punhos à boca e mordeu-os, enquanto continuava a olhar para o telefone. Que desejariam dela? Que teria feito? Desesperadamente, repassou pela memória os dias, os meses e os anos. Teria cometido no trabalho um grave erro, que fora agora descoberto? Teria feito algum comentário sobre o Estado, algum gracejo que fora delatado? Isso sempre era possível. Mas qual teria sido o comentário? Quando? Se fosse depreciativo, ela teria sentido, na ocasião, a ferroada da culpa ou do medo. A consciência estava tranquila. Estaria mesmo? De repente, lembrou-se. E o
caso da colher que roubara? Seria isso? Propriedade do governo! Ela a jogaria, imediatamente, pela janela, o mais longe possível. Mas, não; não podia ser isso. Isso era um caso sem importância. Sacudiu os ombros, resignadamente, e deixou pender a mão ao longo do corpo. Levantou-se e dirigiu-se para o guarda-roupa, para pegar o melhor uniforme. Os olhos estavam umedecidos pelas lágrimas de temor e susto, como os de uma criança. Não podia ser nada disso. A SMERSH não mandava chamar ninguém para tratar de tais assuntos. Devia ser algo muito, muito pior.