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— Missão de grande responsabilidade. Implica numa promoção. Felicito-a por sua promoção a capitão da segurança do Estado, assim que tiver terminado sua tarefa.

Isso era inaudível para uma jovem de vinte e quatro anos! Tatiana pressentiu o perigo. Crispou-se como um animal que vê os dentes de aço da armadilha, por baixo do pedaço de carne. — Sinto-me grandemente honrada, camarada coronel. — Não pôde evitar que a desconfiança lhe transparecesse na voz.

Rosa Klebb resmungou de forma impessoal. Sabia exatamente o que a jovem pensara ao receber a intimação. O efeito da sua recepção amável, seu alívio ante as boas notícias, seus renascentes temores, haviam sido evidentes. Era uma bela e inocente jovem, sem malícia. Exatamente o que a "konspiratsia" exigia. Devia agora ser posta à vontade. — Minha querida — disse, suavemente. — Que falta de atenção a minha! Esta promoção deve ser comemorada com um copo de vinho. Não deve pensar que nós, os oficiais graduados, não somos humanos. Beberemos juntas. Será um belo pretexto para se abrir uma garrafa de champanhe francesa.

Rosa Klebb levantou-se e dirigiu-se para o aparador onde seu escudeiro já havia colocado o que lhe ordenara.

— Prove um desses chocolates, enquanto me ocupo em tirar a rolha. Nunca é muito fácil destapar-se uma garrafa de champanhe. Nós, as mulheres, necessitamos sempre de um homem que nos ajude nessas tarefas, não acha?

O horrível monólogo prosseguiu enquanto colocava uma linda caixa de chocolates em frente a Tatiana. Voltou-se para o aparador. — São da Suíça. Os mais finos. Os redondos têm recheio macio. Os quadrados são mais duros.

Tatiana murmurou um agradecimento. Escolheu um redondo. Seria mais fácil de engolir. A boca estava seca de medo do momento em que veria, finalmente, a armadilha e a sentiria fechar-se em torno de seu pescoço. Devia ser algo pavoroso, se exigia tanta encenação para encobri-lo. O pedaço de chocolate lhe grudou na boca, como goma de mascar. Felizmente, uma taça de champanhe lhe foi posta entre os dedos.

Rosa Klebb parou diante dela. Ergueu a taça, alegremente. — "Za vashe zdarovie", camarada Tatiana. E as minhas calorosas congratulações.

Tatiana afivelou no rosto um sorriso cadavérico. Ergueu a taça e fez uma ligeira curvatura. — "Za vashe zdarovie", camarada coronel. — Esvaziou a taça, como é costume na Rússia, e colocou-a em frente.

Rosa Klebb imediatamente tornou a enchê-la, derramando algumas gotas sobre a mesa. — E agora, à saúde do seu novo departamento, camarada. — Ergueu a taça. O sorriso meloso contraiu-se ao observar a reação da jovem.

— À SMERSH!

Tatiana levantou-se estonteada. Ergueu a taça cheia. — À SMERSH. — Mal pôde articular a palavra. Engasgou-se com a champanhe e teve de tomá-la em dois goles. Tornou a sentar-se, pesadamente.

Rosa Klebb não lhe deu tempo para refletir. Sentou-se à sua frente e espalmou as mãos sobre a mesa.

— E agora, vamos ao trabalho, camarada. — O tom de autoridade voltara-lhe à voz. — Há muito o que fazer.

— Curvou-se para a frente. — Algum dia desejou viver no exterior, camarada? Num país estrangeiro?

Tatiana começava a sentir os efeitos da champanhe. Provavelmente, coisas piores ainda estavam por vir, mas que viessem logo.

— Não, camarada. Sinto-me feliz em Moscou.

— Nunca pensou como poderia ser a vida no Ocidente, com aquelas roupas bonitas, o "jazz", as novidades?

— Não, camarada. — Era sincera. Nunca pensara nisso.

— E se o Estado a mandasse viver no Ocidente?

— Eu obedeceria.

— De boa vontade?

Tatiana encolheu os ombros, denotando impaciência.

— A gente faz o que mandam.

A mulher fez uma pausa. Sua pergunta seguinte tinha um tom de conspiração feminina.

— Você é virgem, camarada?

"Oh! meu Deus!" — pensou Tatiana. — Não, camarada coronel.

Os lábios úmidos brilharam à luz.

— Quantos homens?

Tatiana corou até à raiz dos cabelos. As moças russas são reservadas e pudicas em questões de sexo. Na Rússia, as questões sexuais são tratadas com puritanismo. As perguntas de Klebb tornavam-se ainda mais revoltantes por serem feitas em tom inquisitorial e partirem de uma oficial do Estado, que jamais vira antes. Tatiana encheu-se de coragem. Encarou, na defensiva, aqueles olhos amarelos. — Queira dizer-me a que propósito vêm essas perguntas íntimas, camarada coronel.

Rosa Klebb endireitou o corpo. Ao responder, sua voz era cortante como um chicote. — Ponha-se no seu lugar, camarada. Não está aqui para fazer perguntas, você se esqueceu com quem está falando. Responda-me!

Tatiana encolheu-se. — Três homens, camarada coronel.

— Quando? Que idade tinha? — Os inflexíveis olhos amarelos fitaram os assustados olhos azuis da jovem e conservaram-nos presos, com ar de comando.

Tatiana estava a ponto de chorar. — Na escola. Quando eu tinha dezessete anos. Depois, no Instituto de Idiomas Estrangeiros. Estava com vinte e dois. E, finalmente, no ano passado. Tinha vinte e três anos. Foi um amigo que conheci quando patinava.

— Os nomes deles, camarada. — Rosa Klebb apanhou um lápis e pôs um bloco de notas à sua frente.

Tatiana cobriu o rosto com as mãos e caiu em pranto.

— Não — gritou por entre soluços. — Não, nunca, ainda que me faça o pior. Não tem o direito.

— Pare com essa tolice. — A voz era sibilante. — Eu poderia obrigá-la a dizer esses nomes, dentro de cinco minutos, ou qualquer outra coisa que desejasse saber. Está brincando com fogo, camarada. Minha paciência tem limites. — Rosa Klebb fez uma pausa. Estava sendo demasiadamente severa. — Por ora, vamos deixar passar. Amanhã me dará os nomes. Esses homens não correrão nenhum perigo. Queremos apenas fazer-lhe uma ou duas perguntas a respeito deles. Simples questões técnicas. Agora, sente-se direito e enxugue as lágrimas. Vamos parar com essa tolice.

Rosa Klebb levantou-se e deu a volta à mesa. Parou em frente a Tatiana. A voz tornou-se untuosa e macia.

— Vamos, vamos, querida. Deve confiar em mim. Seus segredinhos estarão a salvo comigo. Tome, beba mais champanhe e esqueça este pequeno incidente. Devemos ser amigas. Vamos trabalhar juntas. Deve aprender, minha querida Tânia, a tratar-me como se fosse minha filha. Tome, beba isto.

Tatiana tirou um lenço da cintura, e enxugou os olhos. Estendeu a mão trêmula para a taça de champanhe e bebeu-a, com a cabeça baixa.

— Beba tudo, querida.

Rosa Klebb permanecia em frente à jovem, como horrenda galinha a cacarejar encorajamento.

Obedecendo, Tatiana esgotou a taça. Sentia-se sem resistência, cansada, desejosa de fazer qualquer coisa para por um ponto final à entrevista e retirar-se para poder dormir. "Então é assim que se procede na mesa de interrogatórios", pensou, "e esse é o tom de voz que a Klebb usa". Bem, estava surtindo efeito. Agora estava dócil. Disposta a cooperar.

Rosa Klebb sentou-se. Avaliou a jovem, escondendo-se atrás da máscara de simpatia maternal.

— E agora, querida, apenas mais uma perguntinha íntima. Aqui entre mulheres. Gosta de ter relações sexuais? Sente prazer? Muito prazer?

As mãos de Tatiana voltaram a cobrir-lhe o rosto. Por detrás delas, em voz abafada, respondeu: — Bem, sim, camarada coronel. Naturalmente, quando a gente ama... — Sua voz extinguiu-se. Que mais podia dizer? Que resposta a mulher desejava?

— Mas, suponhamos, querida, que você não estivesse apaixonada. Ainda assim as relações sexuais lhe dariam prazer?

Tatiana sacudiu a cabeça, indecisa. Retirou as mãos de sobre o rosto e abaixou a cabeça. O cabelo pendeu-lhe de ambos os lados, como uma pesada cortina. Procurava pensar, ser útil, mas não podia imaginar a situação. Julgou... — Creio que dependeria do homem, camarada coronel.

— Eis uma resposta sensata, minha querida. — Rosa Klebb abriu uma das gavetas da escrivaninha. Dela tirou uma fotografia, que passou à jovem. — E se, por exemplo, o homem fosse este?