Tatiana pegou a fotografia, cautelosamente, como se pudesse pegar fogo. Olhou com circunspecção para o belo rosto destemido. Tentou pensar, imaginar... — Não sei dizer, camarada coronel. É simpático. Talvez, se fosse amável... — Afastou a fotografia, com ansiedade.
— Não, guarde-a, querida. Coloque-a ao lado da sua cama e pense nesse homem. Mais tarde, saberá mais coisas a respeito dele, no decorrer do trabalho. E agora — os olhos brilharam por trás das lentes quadradas —
você gostaria de saber em que consiste o seu novo trabalho? A tarefa para a qual foi escolhida dentre todas as moças da Rússia?
— Sim, naturalmente, camarada coronal. — Tatiana encarou, com ar de obediência, o rosto intenso que a mirava como o cão de uma arma.
Os lábios úmidos e pegajosos entreabriram-se sedutoramente. — O trabalho para o qual foi escolhida é muito simples e agradável, camarada cabo. Podemos chamá-lo de uma verdadeira tarefa amorosa. É uma questão de se apaixonar. Somente isso. Nada mais. É só apaixonar-se por esse homem.
— Mas, quem é ele? Nem sequer o conheço.
A boca de Rosa Klebb revelou prazer. Iria dar a essa garotinha estúpida algo em que pensar.
— É um espião inglês.
— "Bozhi moi!" — A mão de Tatiana fechou-se sobre sua boca, tanto para sufocar o uso do nome de Deus, como num impulso de terror. Permaneceu tensa pelo choque e olhou para Rosa Klebb com os olhos esgazeados e ligeiramente embriagada.
— Sim — disse Rosa Klebb satisfeita com o efeito das suas palavras. — É um espião inglês. Talvez o mais famoso de todos. E de agora em diante você está apaixonada por ele. Portanto, é melhor habituar-se à idéia. E nada de tolices, camarada. Devemos encarar o fato com seriedade. Trata-se de uma importante questão de Estado, para a qual foi escolhida como instrumento. Por isso, nada de bobagens, por favor. Passemos aos detalhes práticos. — Rosa Klebb parou. Disse com violência: — Tire a mão desse rosto estúpido. E pare de me olhar como uma vaca assustada. Sente-se direito na cadeira e preste atenção, ou será pior para você. Compreendeu?
— Sim, camarada coronel. — Tatiana endireitou-se rapidamente e colocou as mãos no colo, como se ainda estivesse na Escola Superior de Segurança. A mente fervilhava, mas não havia tempo a perder com assuntos pessoais. O treinamento que recebera dizia-lhe que essa era uma operação para o bem do Estado. Estava trabalhando para o seu país. Fora escolhida, por qualquer motivo, para tomar parte numa importante "konspiratsia ". Como membro da M. G. B., deveria cumprir seu dever da melhor forma possível. Ouviu atentamente e de maneira profissional.
— Por enquanto — disse Rosa Klebb em tom categórico — serei breve. Mais tarde terá maiores detalhes. Durante as próximas semanas, será cuidadosamente treinada para esta missão, a fim de que saiba como agir em qualquer contingência. Terá de aprender certos costumes estrangeiros. Receberá lindas roupas. Será instruída na arte de seduzir. Aí então, será enviada a um país do exterior, em alguma parte da Europa. Lá, ficará conhecendo esse homem. Deverá seduzi-lo. Nada de pudores idiotas nessa questão. Seu corpo pertence ao Estado. Desde que nasceu, o Estado o alimenta. Agora, ele deve trabalhar para o Estado. Compreendeu?
— Sim, camarada coronel. — A lógica era evidente.
— Acompanhará esse homem à Inglaterra. Quando chegar lá, certamente será interrogada. Isso não será penoso. Os ingleses não usam meios violentos. Responderá como puder, sem comprometer o Estado. Ensinar-lhe-emos certas respostas que gostaríamos que fossem dadas. Provavelmente, será enviada para o Canadá. É para lá que os ingleses mandam certa categoria de prisioneiros estrangeiros. Será salva e mandada de volta a Moscou. — Rosa Klebb lançou um olhar à jovem. Tatiana parecia aceitar tudo, sem objeções. — Como vê, é relativamente simples. Tem alguma pergunta a fazer agora?
— Que acontecerá ao homem, camarada coronel?
— Isso nos é indiferente. Será empregado como simples meio para fazê-la entrar na Inglaterra. O objetivo do nosso plano é fornecer informações erradas aos britânicos. Naturalmente, gostaremos muito de conhecer suas impressões pessoais sobre a vida na Inglaterra. Os relatórios de uma jovem tão bem treinada e tão inteligente quanto você serão de grande valor para o Estado.
— Realmente, camarada coronel? — Tatiana sentiu-se importante. De repente, tudo se tornara excitante. Se ela ao menos se saísse bem! Sem dúvida, daria o melhor dos seus esforços. Mas, se não conseguisse fazer o espião inglês apaixonar-se por ela? Olhou novamente para a fotografia. Inclinou a cabeça para um lado. Era um rosto atraente. Em que consistiria essa tal "arte de seduzir" à qual se referira a mulher? Que seria? Talvez isso ajudasse.
Satisfeita, Rosa Klebb ergueu-se da mesa. — E agora podemos descansar, querida. O trabalho está findo, por hoje. Vou me arrumar e depois conversaremos amistosamente. Não demoro nada. Coma os chocolates ou eles acabam por se estragar. — Rosa Klebb fez um gesto vago com a mão e desapareceu com uma expressão preocupada.
Tatiana acomodou-se melhor na cadeira. Então, era isso! Afinal, não era assim tão ruim. Que alívio! E que honra em ter sido a eleita! Como fora tola, assustando-se tanto! Naturalmente, os grandes líderes do Estado não permitiriam que mal algum sucedesse a uma inocente cidadã que trabalhava muito e não tinha demérito algum em seu "zapiska". Subitamente, sentiu-se imensamente grata à figura patriarcal que era o Estado, e também orgulhosa por ter agora a oportunidade de poder pagar parte da sua dívida para com ele. Até mesmo a Klebb não era assim tão má.
Tatiana ainda meditava alegremente sobre a situação, quando a porta do quarto se abriu e "a Klebb" apareceu no umbral. — Que tal, querida? — A Coronel Klebb abriu os gordos braços e rodopiou na ponta dos pés, como um manequim. Parou, com um dos braços esticados e o outro dobrado, apoiando a mão na cintura.
A boca de Tatiana abriu-se de espanto. Fechou-a imediatamente. Procurou alguma coisa para dizer.
A coronel Klebb, da SMERSH, vestia uma camisola meio transparente, de crepe da China alaranjado. Tinha babados da mesma fazenda em torno do pronunciado decote quadrado e nos punhos das mangas bufantes. Sob esse traje podia-se ver um "soutien" que consistia em duas grandes rosas de cetim. Usava também calças de cetim rosa, em estilo antigo, presas por elásticos logo acima dos joelhos. Por entre as pregas da camisola, surgia um gordo joelho, que mais parecia um coco amarelado, semiflexionado, na pose característica dos manequins. Os pés estavam cobertos por chinelas de cetim rosa, guarnecidas de pompons de penas de avestruz. Rosa Klebb tirara os óculos e seu rosto nu estava coberto por uma grossa camada de máscara, ruge e batom.
Parecia a mais velha e a mais feia das prostitutas de todo o mundo.
Tatiana gaguejou: — É muito bonito.
— Não é mesmo? — pairou a mulher. Dirigiu-se para um largo canapé, a um canto da sala, recoberto por vistosa capa de tapeçaria rústica. Contra a parede, viam-se algumas almofadas em tom pastel, feitas de cetim já um tanto sebento.
Com um gritinho de prazer, Rosa Klebb deitou-se numa caricatura da famosa pose de Récamier. Estendeu um dos braços e ligou um quebra-luz de cúpula rosada, cujo pedestal era uma mulher nua, feito de cristal de Lalique, falsificado. Deu um tapinha no canapé, ao lado.
— Apague a luz central, meu amor. O comutador está junto à porta. Depois, venha e sente-se ao meu lado. Precisamos conhecer-nos melhor.
Tatiana caminhou em direção à porta. Desligou o comutador. Sua mão dirigiu-se com decisão para a maçaneta da porta. Abriu-a e saiu para o corredor. De repente, sentiu-se amedrontada. Bateu com a porta, atrás de si, e saiu correndo pelo corredor, cobrindo com as mãos os ouvidos para se livrar de um grito que não chegou a ser dado.