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— Gostaria de ver essa ficha — comentou Bond.

— Diz ela que, primeiramente, interessou-se pelas suas fotografias. Achou-o simpático e assim por diante. — Os cantos da boca de M. viraram para baixo, como se tivesse acabado de chupar um limão. — Leu todos os seus casos. Achou que você é um homem e tanto.

Bond olhou-o desconfiado, mas o rosto de M. permaneceu impassível.

— Ela disse também que se sentiu atraída por você, principalmente porque a faz lembrar-se do herói de um livro escrito por um russo chamado Lermontov. Esse tal herói gostava de jogar e vivia se metendo em enrascadas. De qualquer forma, ela disse que o acha parecido com ele. Disse ainda que não podia pensar em outra coisa, até que teve a idéia de obter transferência para um país estrangeiro, com o objetivo de se por em contato com você, para que fosse salvá-la.

— Nunca ouvi uma história tão absurda, senhor. É lógico que o chefe da T não caiu nessa.

— Espere um pouco — a voz de M. era severa. — Não se precipite só porque encontrou algo com que nunca deparara antes. Suponhamos que, em vez de estar neste mister, fosse um astro de cinema. Receberia uma série de cartas tolas enviadas por moças de todas as partes do mundo e repletas de bobagens, como dizer que não podem viver sem você e assim por diante. Nosso caso é o de uma jovem bobinha que trabalha como secretária, em Moscou. Provavelmente, toda a equipe do departamento é constituída por mulheres, tal como aqui. Sem um único homem, na sala, para quem olhar, ela vê-se de repente diante das suas... atraentes feições, numa ficha que é consultada, constantemente. E ela fica o que julgo chamarem de "embeiçada" pelas suas fotografias, tal como as secretárias, de todo o mundo, se embeiçam pelas fotos horrorosas publicadas nas revistas. — M. acenou com o cachimbo, como a declarar sua completa ignorância dos estranhos hábitos femininos. — Deus sabe que não estou muito a par dessas coisas, mas deve admitir que elas acontecem.

Bond sorriu ante o implícito pedido de socorro. — Bem, para falar a verdade, senhor, começo a ver que há uma certa base. Afinal, não há motivo para que uma jovem russa não seja tão tola quanto uma inglesa. Mas deve ter coragem, para fazer o que fez. O chefe da T deixou transparecer se ela sabe quais as consequências, se porventura for descoberta?

— Ele disse que ela estava apavorada — respondeu M. — Enquanto esteve no navio, passou o tempo todo olhando ao redor para ver se alguém a vigiava. Mas os únicos passageiros eram os habituais camponeses e operários, e assim mesmo poucos, devido ao adiantado da hora. Mas espere um pouco. Ainda não ouviu nem metade da história. — M. tirou uma longa baforada e soprou a fumaça em direção ao vagaroso ventilador, bem acima da cabeça. Bond viu a nuvem de fumo ser colhida pelas pás do aparelho e ser girada até desaparecer. — Ela contou a Kerim que seu amor logo se transformou em obsessão. Passou a detestar os homens russos. Com o tempo, isso foi-se transformando num desagrado pelo regime e particularmente pelo trabalho que fazia para eles e, por assim dizer, contra você. De forma que se candidatou a uma transferência para o exterior. Como fala muito bem inglês e francês, deram-lhe a oportunidade de trabalhar no Departamento de Códigos, em Istambul, o que implica num soldo menor. Para encurtar a história, depois de seis meses de treinamento, chegou a Istambul há três semanas. Ali, investigou até conseguir o nome do nosso agente, Kerim, que está lá há tanto tempo que, a esta altura, todos na Turquia já sabem ao que se dedica. Isso não o preocupa e ajuda a desviar a atenção dos agentes especiais que mandamos para lá, uma vez por outra. Não há mal em se manter um auxiliar conhecido, em lugares como esse. Muitas pessoas se dirigiriam a nós, se soubessem com quem se comunicar.

Bond comentou: — O agente conhecido muitas vezes obtém melhores resultados do que o que dispende muito tempo e energia procurando manter-se incógnito.

— De maneira que ela enviou a Kerim aquela mensagem. Agora quer saber se ele pode ajudá-la. — M. fez uma pausa e aspirou o cachimbo, pensativamente. — Naturalmente, a primeira reação de Kerim foi idêntica à sua, admitindo uma possível cilada. Mas não conseguiu descobrir o que os russos teriam a ganhar, enviando-nos aquela jovem. Enquanto isso, a barcaça adiantava-se em direção ao Bósforo e logo mais estaria voltando para Istambul. A jovem tornava-se cada vez mais ansiosa, enquanto Kerim procurava fazê-la cair em contradição. Nessa altura — os olhos de M. brilharam suavemente ao encarar Bond — surgiu a atração máxima.

Bond observou o brilho dos olhos de M. Como conhecia bem os momentos em que aqueles olhos, geralmente impassíveis, deixavam transparecer excitação e cobiça!

— Havia ainda uma última carta no jogo, e ela sabia que era o maior trunfo. Se conseguisse chegar até aqui, traria consigo seu aparelho para decifrar o código. É o novo modelo "Spektor", para cuja obtenção daríamos os nossos próprios olhos.

— Meu Deus — sussurrou Bond, enquanto a mente se atordoava ante a magnitude da oferta. O "Spektor"! O aparelho que lhes permitiria decifrar os segredos de Estado. Obtê-lo seria uma vitória extraordinária, ainda que sua perda fosse descoberta imediatamente e as cifras sofressem alteração, ou mesmo que o aparelho fosse alijado do serviço, nas embaixadas russas e nos centros de espionagem em todo o mundo. Bond não era profundo em criptografia e, mesmo para sua segurança, no caso de ser capturado, desejava saber o menos possível sobre esses segredos, mas ao menos estava a par de que a perda do "Spektor" seria considerada uma calamidade pelo serviço secreto russo.

Bond fora convencido. Imediatamente, aceitou a crença de M. na história da jovem, embora parecesse absurda. O fato de uma russa trazer-lhes esse presente e correr tremendo risco para fazê-lo só podia ser um ato de desespero ou, se preferem, de desesperado afeto. Fosse a história da jovem verdadeira ou não, o caso é que o prêmio era grande demais para ser desprezado.

— Compreende, 007? — perguntou M., suavemente. Não era difícil saber o que Bond estava pensando, vendo-se o brilho de excitação em seus olhos. — Compreende o que quero dizer?

Bond contemporizou. — Ela disse como pretendia agir?

— Não foi explícita. Mas Kerim disse que está decidida. Seu plano tem algo a ver com um plantão noturno. Parece que ela faz plantão, sozinha, algumas noites por semana, quando então dorme numa cama de campanha, no próprio escritório. Não aparenta a menor hesitação, embora saiba que será peremptòriamente fuzilada se alguém suspeitar do seu plano. Estava, até mesmo, com medo de que Kerim relatasse tudo isso a mim. Fê-lo prometer que ele mesmo transmitiria a mensagem em código e que não conservaria sequer uma cópia da mesma. É lógico que ele cumpriu as instruções. Assim que ela fez menção do Spektor, Kerim teve a convicção de que este poderia ser o nosso maior golpe, desde o término da guerra.

— Que aconteceu depois, senhor?

— A barcaça aproximava-se de uma localidade denominada Ortakoy. Ela disse que iria descer ali. Kerim prometeu enviar a mensagem, nessa mesma noite. Ela recusou-se a propiciar novos encontros. Disse apenas que estava disposta a ir até o fim, se nós, de nossa parte, fizéssemos o mesmo. Depois de desejar boa-noite, misturou-se com a multidão que descia o passadiço, e esta foi a última vez que Kerim a viu.

M. inclinou-se para diante, na cadeira, e olhou energicamente para Bond. — Naturalmente, ele não pôde garantir que iríamos estar de acordo com o plano.

Bond permaneceu calado. Tinha a impressão de que sabia o que iria ouvir, em seguida.

— Essa jovem só manterá a palavra sob uma condição. — Os olhos de M. estreitaram-se, até parecerem penetrantes e expressivas frestas. — E é que você vá até Istambul para trazê-la, juntamente com o aparelho, à Inglaterra.