Выбрать главу

Com seu rosto altivo, o basto cabelo preto e crespo, o nariz quebrado, lembrava vagamente um cigano. A aparência de um soldado errante da fortuna era aumentada pela pequena argola de ouro que Kerim usava no lóbulo da orelha direita. Era um rosto assustadoramente dramático: vital, cruel e devasso; mas o que se salientava, mais do que o drama, era a vida que irradiava. Bond refletiu que jamais vira tanta vitalidade e calor num rosto humano. Era como estar perto do sol e Bond, soltando a mão forte e seca, retribuiu o sorriso de Kerim com uma simpatia que raramente sentia por estranhos.

— Obrigado por ter enviado o carro para esperar-me, ontem à noite.

— Ah! — Kerim demonstrou satisfação. — Deve também agradecer aos nossos amigos. Foi esperado por ambas as facções. Sempre seguem o meu carro quando este se dirige ao aeroporto.

— Era uma "Vespa" ou uma "Lambretta"?

— Reparou? Era uma "Lambretta". Têm uma esquadrilha completa para aqueles homúnculos que eu chamo de "Sem Cara". São tão parecidos que não é possível distingui-los. Pequenos "gangsters", na maioria búlgaros infectos, que fazem o trabalho sujo para eles. Mas acho que esse ficou bem para trás. Não mais se aproximam do "Rolls", desde que meu motorista parou de repente e deu marcha-à-ré a toda a velocidade. Estragou a pintura e manchou de sangue a parte inferior do chassis, mas ensinou-lhes boas maneiras.

Kerim dirigiu-se para sua cadeira e apontou para uma idêntica em frente da escrivaninha. Ofereceu uma cigarreira branca e de formato achatado a Bond e este, depois de sentar-se, pegou um cigarro e acendeu-o. Era o melhor cigarro que já fumara: o mais suave e doce tabaco turco num tubo esguio e oval, enfeitado por um elegante crescente em dourado.

Enquanto Kerim adaptava um deles a uma longa piteira de marfim, manchada de nicotina, Bond aproveitou a oportunidade para observar a sala que cheirava fortemente a tinta e a verniz, como se tivesse acabado de ser redecorada. Era grande, quadrada e com lambris de acaju em todas as paredes, com exceção daquela que estava por trás da cadeira de Kerim, onde uma tapeçaria oriental pendia do teto e movia-se suavemente, como se houvesse uma janela aberta por trás dela. Mas isso parecia pouco provável, pois a luz vinha de três janelas de formato circular, situadas bem ao alto da parede. Talvez por trás da tapeçaria houvesse um balcão que desse para o Golden Horn, cujo ruído das ondas Bond podia ouvir chocando-se contra as paredes lá embaixo. Ao centro da parede da direita, havia uma reprodução, em moldura dourada, do retrato da rainha, por Annigoni. Do lado oposto, também em bela moldura, via-se a obra de Cecil Beaton, feita no tempo da guerra, retratando Winston Churchill sentado à sua mesa no Ministério.

Como um orgulhoso buldogue. Contra uma parede, via-se uma larga estante e, na oposta, um confortável diva forrado de couro. Ao centro da sala, os puxadores de bronze da grande mesa faiscavam. Entre as muitas coisas que havia em cima do móvel, Bond divisou de relance os timbres de dois despachos da Divisão Militar da O.B.E. guarnecidos por três molduras de prata.

Kerim acendeu o cigarro. Recostou a cabeça na tapeçaria atrás da cadeira. — Nossos amigos fizeram-me uma visita, ontem — disse casualmente. — Colocaram uma bomba grudada à parede externa. Fixaram o detonador para pegar-me à minha mesa. Por sorte, eu havia tirado uma folga para descansar no diva em companhia de uma jovem romena, que ainda pensa que um homem dirá segredos em troca de amor. A bomba explodiu num momento vital. Não me deixei perturbar, mas a experiência foi demasiada para a jovem. Quando a soltei, ela estava histérica. Creio que decidiu que minha técnica amorosa é por demais violenta. — Fez um gesto com a piteira, como que a desculpar-se. — Tivemos de correr para por a sala em ordem, para a sua visita. Vidros novos para as janelas e para os meus quadros, mas a sala ainda tresanda a tinta. — Kerim recostou-se na cadeira. Seu rosto demonstrava certa preocupação. — O que não posso compreender é esta súbita quebra do armistício. Vivemos em conjunto muito amigavelmente, em Istambul. Todos temos um trabalho a fazer. Não é cabível que os meus "caros colegas" subitamente declarem guerra dessa maneira. É de preocupar. Só pode causar aborrecimentos aos nossos amigos russos. Serei obrigado a retribuir ao homem que fez isso, assim que souber o nome dele. — Kerim sacudiu a cabeça. — Ê muito complexo. Espero que não tenha relação com o seu caso.

— Mas, era necessário tornar minha chegada um ato público? — perguntou Bond, suavemente. — A última coisa que desejo é envolvê-los nisso. Por que mandou o "Rolls" ao aeroporto? Só serviu para comprometê-lo comigo.

O riso de Kerim foi indulgente. — Meu amigo, devo explicar-lhe algo que precisa saber. Nós, os russos e os americanos, temos um homem sob nossas ordens, mediante pagamento, em todos os hotéis. E todos nós subornamos um funcionário da polícia secreta, no quartel-general, e recebemos uma cópia, em carbono, da lista de todos os estrangeiros que entram no país, por via férrea, aérea ou marítima. Se dispusesse de mais alguns dias, poderia tê-lo feito entrar sorrateiramente pela fronteira grega. Mas, para quê? Sua chegada aqui tem de ser do conhecimento do outro lado, para que nossa amiga possa entrar em contato com você. Estabeleceu a condição de ser ela quem providenciará o encontro. Talvez não tenha confiança no nosso sistema de segurança. Quem sabe? Mas foi positiva sobre o assunto e disse, como se eu não soubesse, que o centro russo seria imediatamente avisado da sua chegada. — Kerim encolheu os largos ombros. — Então, para que dificultar-lhe as coisas? Minha única preocupação é tornar sua estada agradável e confortáveclass="underline" ao menos para que possa desfrutá-la, mesmo que resulte em nada.

Bond riu. — Retiro o que disse. Havia-me esquecido da forma balcânica de fazer as coisas. De qualquer maneira, estou sob suas ordens, aqui. Diga-me o que fazer e eu o farei.

Kerim mudou de assunto. — E, já que falamos de conforto: que tal é o hotel? Fiquei surpreso por vê-lo escolher o "Palas". É pouco melhor do que um pardieiro, uma espelunca. E é um ninho de russos. Não que isso tenha importância.

— Não é muito ruim. Apenas não quis ficar no "Istambul-Hilton" ou outro tão aristocrático.

— Dinheiro? — Kerim abriu a gaveta e dela tirou um maço de notas verdes, novas. — Aqui tem mil libras turcas. Seu valor real, sua cotação no câmbio-negro, está na proporção de vinte para uma libra inglesa. O câmbio oficial é de sete. Avise-me quando precisar, e eu lhe darei quantas mais quiser. Podemos acertar contas quando tudo estiver terminado. Afinal, isso é micharia. Desde que Creso, o primeiro milionário, inventou as moedas de ouro, o dinheiro tem depreciado. E a cunhagem das moedas tem decaído na mesma medida da desvalorização. Primeiro, ostentavam o rosto de deuses, depois, o de reis, depois, o de presidentes. Agora, não há mais rostos. Olhe só para isto! — Kerim jogou o dinheiro em direção a Bond. — Hoje em dia, é só papel com a reprodução de um edifício público e a assinatura do tesoureiro. Lixo! O milagre é que ainda se possa comprar alguma coisa com isto! Cigarros? Fume apenas destes. Mandarei algumas centenas para o seu hotel. São os melhores. "Diplomatas". Não são fáceis de encontrar. A maioria vai para os ministérios e as embaixadas. Mais alguma coisa antes de entrarmos no assunto? Não se preocupe com as refeições e nem com os divertimentos. Cuidarei disso. Terei prazer nisso e, se me permitir, gostarei de ficar ao seu lado enquanto estiver aqui.

— Nada mais — respondeu Bond. — Exceto que precisa ir até Londres, qualquer dia.

— Nunca — disse Kerim, com decisão. — O clima e as mulheres são frios demais. Sinto-me orgulhoso de tê-lo aqui. Faz-me lembrar da guerra. E agora — apertou uma campainha sobre a mesa. — Prefere o café simples ou com leite? Na Turquia, não se pode falar de assuntos sérios sem café ou raque, e ainda é muito cedo para este.