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— Simples.

A porta por trás de Bond abriu-se. Kerim deu uma ordem. Quando a porta se fechou, ele abriu uma gaveta e tirou uma pasta e a colocou diante de si. Espalmou a mão sobre ela.

— Meu amigo — disse com ar preocupado — não sei o que pensar sobre este caso. — Recostou-se na cadeira e cruzou as mãos na nuca. — Já lhe ocorreu que o nosso trabalho é muito semelhante a uma filmagem? Quantas vezes já reuni todo o pessoal no estúdio, julgando que poderia iniciar o filme. Mas, quando não é o tempo que atrapalha, são os atores ou os acidentes que ocorrem. E há outra coisa que acontece durante uma filmagem. O amor surge de alguma forma, na pior das hipóteses como agora, entre os dois astros principais. Este é para mim o fator que causa maior confusão e também o mais misterioso. Estará essa jovem realmente apaixonada pela idéia que faz a seu respeito? Continuará " assim quando o conhecer? Poderá você amá-la com tamanha convicção que a fará mudar para o nosso lado?

Bond não fez comentários. Ouviu-se uma batida na porta e o chefe do escritório colocou uma xícara de porcelana casca de ovo, presa a um suporte de filigrama dourada, em frente a cada um deles, e tornou a sair. Bond tomou o café e pousou novamente a xícara. A bebida era boa, mas cheia de pó. Kerim tomou o café de um gole, pôs um cigarro na piteira e acendeu-o.

— Não há nada a fazer em relação ao amor — continuou Kerim, como se pensasse alto. — O melhor é esperar e ver o que acontece. Enquanto isso, há outras coisas a fazer. — Apoiou-se na escrivaninha e olhou para Bond, de maneira enérgica e astuta. — Algo está acontecendo no setor inimigo, meu caro. Não me refiro apenas a esse atentado contra mim. Há muito movimento. Tenho poucos dados, mas — apontou com um longo indicador para o próprio nariz — eu tenho isto. — Deu um tapinha no nariz, como se acariciasse um cachorro. — Este é um bom amigo meu, no qual confio. — Tornou a baixar a mão, vagarosamente e com ênfase, e acrescentou suavemente: — Se o prêmio não fosse tão alto, eu lhe diria: volte para casa, meu amigo. Volte para casa. Paira no ar algo de afugentar.

Kerim recostou-se na cadeira. Sua voz perdeu o tom grave. Soltou uma possante gargalhada. — Mas, nós não somos velhas medrosas. E este é o nosso trabalho. Portanto, vamos esquecer o meu nariz e passemos adiante. Antes de mais nada, deseja saber algo que eu possa informar? A moça não deu mais sinal de vida, desde que enviei a mensagem. Não tenho outros informes. Mas, talvez queira fazer-me algumas perguntas sobre o encontro.

— Desejo saber apenas uma coisa — disse Bond, sem expressão. — Qual a sua opinião sobre essa jovem? Acredita na sua história, ou não? Na história a meu respeito? Nada mais interessa. Se ela não tem realmente uma espécie de cisma histérica comigo, então tudo cai por terra e transforma-se em alguma complicada conspiração da M.G.B. que não podemos compreender. E então, acreditou na moça? — A voz de Bond era ansiosa e seus olhos perscrutavam o rosto do outro.

— Ah, meu amigo — Kerim balançou a cabeça e abriu os braços num gesto amplo. — Foi o que perguntei a mim mesmo na ocasião e o que venho perguntando desde então. Mas quem pode dizer se uma mulher está mentindo em questões dessas? Os olhos dela brilhavam. São olhos lindos e sem maldade. Os lábios úmidos estavam entreabertos. A voz era ansiosa e assustada, como se temesse o que fazia e dizia. Os nós dos dedos estavam brancos pela força com que apertava a grade do navio. Mas que se passava em seu coração? — Kerim ergueu as mãos. — Só Deus sabe. — Deixou-as cair com resignação. Espalmou-as sobre a mesa e olhou diretamente para Bond. — Só há uma forma de se conhecer se uma mulher realmente o ama; e assim mesmo é preciso ser um perito para não se enganar.

— Sim — respondeu Bond, em ar de dúvida. — Sei o que quer dizer. É na cama.

 

Capítulo 15 — O PASSADO DE UM ESPIÃO

 

Foi servido mais café e depois mais ainda, e a grande sala foi ficando densa com a fumaça do cigarro, enquanto os dois homens discutiam todos os ângulos da questão. Uma hora depois, haviam voltado ao ponto inicial. Era da competência de Bond resolver o problema da jovem e, se ficasse convencido pelos seus argumentos, tirá-la do país juntamente com o aparelho.

Kerim comprometeu-se a cuidar dos problemas administrativos. Como primeira providência, falou com seu despachante, pelo telefone, e reservou dois lugares em todas as companhias com vôos escalados para a semana seguinte: B. E. A., Air France, S. A. S. e Turkair.

— Agora, precisa arranjar um passaporte — disse ele. — Um será suficiente. Ela pode passar por sua esposa. Um dos meus homens tirará a sua fotografia e arranjará uma de alguma jovem que se pareça com ela. Na realidade, uma fotografia antiga da Garbo também serve. Há certa semelhança. Ele conseguirá nos arquivos dos jornais. Falarei com o cônsul-geral, sujeito excelente que aprecia os meus casos de capa-e-espada. O passaporte estará pronto hoje à noite. Que nome gostaria de usar?

— Escolha um, ao acaso.

— Somerset. Minha mãe era de lá. David Somerset. Profissão: diretor de empresa. Isso não quer dizer nada. E a moça? Digamos: Caroline. Ela tem jeito de Caroline. Um casal de jovens esportistas ingleses que gostam de viajar. Declaração de bens? Deixe isso ao meu cargo. Um cheque de viajante de oitenta libras e um recibo de banco para provar que você trocou cinquenta enquanto esteve na Turquia. Alfândega? Eles nunca examinam nada e ficam muito satisfeitos quando alguém faz compras no país. Declare algumas lembranças turcas : presentes para os amigos, em Londres. Se tiver de sair às pressas, deixe que eu me encarrego da conta do hotel e da bagagem. Conhecem-me bem no "Palas". Mais alguma coisa?

— Que eu me lembre, não.

Kerim olhou para o relógio. — Meio-dia. Bem na hora do carro levá-lo de volta ao hotel. Pode haver algum recado. Examine bem os seus pertences, para o caso de alguém ter sido curioso.

Tocou a campainha e deu instruções ao chefe do escritório, que conservava os olhos observadores fitos em Kerim e a cabeça pendente para a frente, como a de um galgo.

Kerim acompanhou Bond até à porta. Novamente lhe deu um forte aperto de mão. — O carro o conduzirá para o almoço — disse. — Num pequeno restaurante no Mercado de Especiarias. — Seus olhos fitaram Bond, com alegria. — Tenho prazer em trabalhar com você. Faremos uma boa dupla. — Largou a mão de Bond. — E agora devo fazer uma série de coisas urgentes. Podem ser providências erradas, mas de qualquer forma — abriu um largo sorriso — "jouons mal, mais jouons vite"!

O chefe do escritório, que parecia ser o lugar-tenente de Kerim, conduziu Bond através de outra porta, com acesso para a plataforma. Os funcionários permaneciam curvados sobre os livros. Havia um corredor ladeado de salas. O homem conduziu Bond por uma delas e ele viu-se num laboratório e quarto de revelações muito bem equipado. Em dez minutos, estava novamente na rua. O "Rolls" manobrou para fora do beco e dirigiu-se para a ponte de Gaiata.

O porteiro do "Kristal Palas" era um outro homem, obsequioso, ar servil e rosto amarelado. Saiu detrás do balcão, com as mãos estendidas em sinal de desculpa. — "Effendi", sinto muitíssimo. Meu colega deu-lhe um quarto inadequado. Não sabíamos que era amigo de Kerim Bey. Sua bagagem foi transportada para o n.° 12. É o melhor quarto do hotel. Na realidade — disse maliciosamente — é o quarto reservado para os casais em lua de mel. Muito confortável. Minhas desculpas, "Effendi". O outro quarto não é próprio para visitantes de categoria. — O homem fez uma curvatura untuosa, enquanto esfregava as mãos.

Se havia alguma coisa que Bond não podia suportar era que alguém o bajulasse. Fitou os olhos do porteiro e disse: — Oh! — Os olhos desviaram-se. — Deixe-me ver o quarto. Posso não gostar dele. Achava o outro muito confortável.