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— Certamente, "Effendi". — O homem foi fazendo mesuras para Bond, até o elevador. — Mas, infelizmente, os encanadores estão no seu antigo quarto. A adução de água... — a frase perdeu-se em meio. O elevador subiu cerca de dez pés e parou no primeiro andar.

Bem, a desculpa dos encanadores tinha sua razão de ser, refletiu Bond. E, afinal, não havia inconveniente em ocupar o melhor quarto do hotel.

O porteiro abriu uma porta alta e recuou.

Bond teve de aprovar. O sol entrava por amplas janelas duplas que davam para uma sacada. A decoração era em rosa e cinza, no estilo Império, um tanto gasta pelos anos, mas conservando ainda a elegância do fim do século. Havia finos tapetes de Bukhara sobre o soalho de "parquet". Um candelabro faiscante pendia do teto ornamentado. A cama, contra a parede do lado direito, era imensa. Por trás dela, um grande espelho em moldura dourada, cobria a maior parte da parede. (Bond achou graça. O quarto nupcial! Deveria haver também um espelho no teto). O quarto de banho, adjacente, era todo ladrilhado e completamente equipado, inclusive com um bidê e um chuveiro. Os apetrechos de barbear, de Bond, ali estavam muito bem arrumados.

O porteiro seguiu Bond de volta ao quarto e, quando lhe foi dito que o aposento servia, despediu-se com uma curvatura de agradecimento.

Por que não? Bond deu outra volta ao quarto. Desta vez, inspecionou cuidadosamente as paredes, a vizinhança da cama e o telefone. Por que não ficar com o quarto? Por que haveria de ter microfones ou portas secretas? Para que fim?

Sua maleta estava sobre um banco, perto da cômoda. Ajoelhou-se. Não havia arranhões perto da fechadura. O pedaço de penugem que colocara no fecho ainda ali estava. Abriu a valise e dela tirou o estojo de viagem. Também não demonstrava nenhum sinal de violação. Bond tornou a fechar a mala e levantou-se.

Lavou-se, saiu do quarto e desceu as escadas. Não, não havia recado algum para o "Effendi". O porteiro curvou-se ao abrir a porta do "Rolls". Haveria um quê de conspiração mesclado à permanente culpa expressa por seus olhos? Bond decidiu não dar atenção a isso. O jogo, fosse ele qual fosse, devia ser levado até o fim. Se a troca de quarto fora o gambito inicial, tanto melhor. O jogo devia começar de alguma forma.

Enquanto o carro descia a colina, Bond dirigiu seu pensamento para Darko Kerim. Que homem ideal para chefe da Estação T! Só o seu porte, neste país de homens mirrados e curvos, dar-lhe-ia autoridade, e sua imensa vitalidade e amor à vida conquistariam amigos em qualquer lugar. De onde viera este exuberante e astuto pirata? Como fora trabalhar no Serviço? Era o raro tipo de homem que Bond apreciava, e este, que não mantinha relações sociais, já se sentia propenso a somá-lo à meia dúzia de amigos verdadeiros que gostaria de possuir.

O carro voltou à ponte de Gaiata e parou junto às arcadas do mercado de especiarias. O motorista subiu os degraus gastos e rasos, e abriu caminho por entre a nuvem de aromas exóticos, gritando pragas contra os mendigos e os carregadores que transportavam fardos. Depois de entrar, virou à esquerda, para longe daquela horda de seres agitados e gritantes, e indicou a Bond um pequeno arco numa grossa parede. Dele elevava-se uma escada de pedra, em espiral.

— "Effendi", encontrará Kerim Bey na última sala à esquerda. É só perguntar por ele. Todos o conhecem.

Bond subiu a escada fria até uma ante-sala, onde um garçom, sem lhe perguntar o nome, conduziu-o através de uma série de saletas ladrilhadas em cores e ligadas por arcos, até onde Kerim se encontrava sentado a uma mesa de canto que dava para a entrada do mercado. Kerim saudou-o com exuberância, acenando com um copo cheio de um líquido leitoso, dentro do qual tilintava um cubo de gelo.

— Ei-lo aqui, meu amigo. Agora, sem mais delonga, um pouco de raque. Deve estar exausto depois do seu passeio. — Deu ordens rápidas ao garçom.

Bond sentou-se numa confortável poltrona e pegou o pequeno cálice que o garçom lhe trouxe. Elevou-o em direção a Kerim e provou. O gosto era idêntico ao de aniz. Bebeu tudo. Imediatamente, o garçon tornou a encher o cálice.

— E, agora, vamos pedir o almoço. Na Turquia, não se come outra coisa a não ser "offal" preparado em óleo de oliva rançoso. Ao menos, o "offal" no Misis Carsarsi é o melhor.

O sorridente garçom fez algumas sugestões.

— Ele diz que o "Doner Kebab" está muito bom, hoje. Não creio, mas pode ser. É feito com carneiro muito novo, assado na brasa, e arroz condimentado. Tem montes de cebola. Ou prefere outra coisa? Um "pilaff" ou algumas daquelas ardidas pimentas recheadas que eles comem aqui? Muito bem. Deve começar por algumas sardinhas assadas "en papillotte". São comíveis. — Kerim despejou um aranzel para o garçom. Recostou-se e sorriu para Bond. — É a única maneira de se falar com esses desgraçados. Adoram ser xingados e maltratados. É só o que entendem. Está na massa do sangue. Esta pretensa democracia os aniquila. O que querem são sultões, guerras, violações e prazer. Pobres idiotas de roupa listada e chapéus de coco! São miseráveis. Percebe-se só de olhar para eles. Contudo, que vão para o inferno. Alguma novidade?

Bond sacudiu a cabeça. Narrou a Kerim a mudança de quarto e falou sobre a maleta, que não fora tocada.

Kerim esvaziou um copo de raque e limpou a boca com as costas da mão. Expressou o pensamento que Bond tivera. — Bem, a partida deve ser iniciada a qualquer tempo. Já fiz algumas pequenas jogadas. Agora, devemos esperar e ver o resultado. Faremos uma incursão pelo território inimigo, depois do almoço. Creio que vai ser do seu interesse. Não, não seremos vistos. Iremos por entre as sombras, no subsolo. — Kerim divertiu-se com sua própria esperteza. — E agora, falemos de outras coisas. Que tal acha a Turquia? Não, não quero saber.

Foram interrompidos pela chegada do primeiro prato. As sardinhas "en papillotte", que Bond pedira, tinham gosto de sardinhas fritas comuns. Kerim tinha em frente um prato com algo parecido com fatias de peixe cru. Notou o olhar curioso de Bond. — É peixe cru. Depois disto, vou comer carne crua com alface, seguida de uma tigela de iogurte. Não sou dado a manias, mas já treinei para lutador profissional. É uma boa profissão, na Turquia. Os lutadores são ídolos do público. Meu treinador insistiu para que eu comesse apenas alimentos crus. Habituei-me. Dou-me bem como isso, mas, mas — agitou o garfo — não quero dizer que seja bom para todos. Não ligo a mínima para o que os outros comem, contanto que gostem. Não posso tolerar os que não sabem comer ou beber.

— Por que desistiu de ser lutador profissional? Como se tornou o que é hoje?

Kerim espetou com o garfo uma fatia de peixe cru e puxou-a com os dentes. Bebeu meio copo de raque. Acendeu um cigarro e recostou-se na cadeira. — Bem — disse com um sorriso amargo — podemos falar sobre a minha pessoa tão bem quanto sobre qualquer outro assunto. Deve estar pensando: "Como é que este sujeito grandalhão e maluco foi entrar para o Serviço"? Vou contar-lhe em resumo, pois é uma longa história. Mande-me parar, quando se aborrecer. Está bem?

— Ótimo. — Bond acendeu um "Diplomata". Apoiou-se nos cotovelos.

— Nasci em Trebizond. — Kerim observou a fumaça do seu cigarro subir em espirais. — Éramos uma família grande, com muitas mães. Meu pai era do tipo ao qual as mulheres não podem resistir. Todas elas gostam de ser conquistadas. Sonham com um homem que as atire sobre o ombro e as leve para uma caverna, para violá-las. Era a técnica que meu pai empregava. Era um bom pescador e sua fama corria todo o mar Negro. Sua especialidade era o peixe-espada. Este é difícil de ser agarrado e oferece muita luta, mas meu pai sempre conseguia pescar maior quantidade desses peixes do que qualquer outro pescador. As mulheres gostam dos heróis. E ele era uma espécie de herói, numa parte da Turquia em que os homens são tradicionalmente viris. Era um sujeito forte e romântico. De forma que podia escolher a mulher que desejasse. Desejava todas e, às vezes, matava outros homens para consegui-las. Naturalmente, teve muitos filhos. Vivíamos, todos, uns por cima dos outros, num imenso e desconjuntado casarão que nossas "tias" tornavam habitável. As tias, na realidade, formavam um harém. Uma delas era uma governante inglesa, de Istambul, que meu pai conhecera ao assistir a um espetáculo de circo. Gostou dela e ela dele, e nessa mesma noite ele a conduziu, no seu barco, através do Bósforo e até Trebizond. Não creio que ela, algum dia, tenha se arrependido. Esqueceu tudo e vivia para ele. Morreu logo após a guerra. Tinha então sessenta anos. O irmão que me precedia era filho de uma jovem italiana que lhe dera o nome de Bianco. Ele era louro. Eu era moreno. Recebi, pois, o nome de Darko. Éramos, ao todo, quinze filhos e tivemos uma infância adorável. Nossas tias brigavam com frequência e nós lhes seguíamos o exemplo. Parecia um acampamento cigano. Era comandado por meu pai que nos espancava, mulheres ou crianças, quando o importunávamos. Mas era muito bom quando ficávamos quietos e obedientes. Não pode entender uma família assim, não é?