— Da maneira pela qual a descreve, posso.
— De qualquer forma, éramos assim. Fiquei quase do tamanho do meu pai, mas recebi melhor instrução. Minha mãe encarregou-se disso. Meu pai só nos ensinava a ser limpos e a ir ao banheiro uma vez por dia, e também a não nos envergonharmos de coisa alguma do mundo. Minha mãe ensinou-me também a respeitar a Inglaterra, mas isso foi por conta dela. Quando completei vinte anos, já tinha meu próprio barco e ganhava a vida. Mas era muito boêmio. Deixei o casarão e fui viver em dois pequenos quartos, perto do cais. Queria possuir minhas mulheres, onde minha mãe não o soubesse. Tive azar. Conquistei uma gata selvagem da Bessarábia. Ganhara-a numa briga com ciganos, nas colinas atrás de Istambul. Eles me perseguiram, mas consegui colocá-la a bordo do meu barco. Para isso, precisei desacordá-la com um soco. Quando chegamos a Trebizond, ela ainda tentava matar-me, de forma que a levei para minha casa, tirei-lhe toda a roupa e acorrentei-a, despida, à perna da mesa. Quando comia, costumava jogar-lhe as sobras para baixo da mesa, como se faz a um cão. Ela devia aprender a respeitar o dono. Antes que isso acontecesse, minha mãe fez uma coisa inesperada. Visitou-me sem antes me avisar. Veio dizer-me que meu pai desejava ver-me imediatamente. Encontrou a moça. Pela primeira vez na vida, minha mãe ficou realmente zangada comigo. Zangada? Ficou possessa. Disse-me que eu era um cafajeste desumano e que se envergonhava de ter-me como filho. A jovem teria de ser devolvida aos seus, imediatamente. Minha mãe foi buscar algumas das suas próprias roupas. A moça vestiu-as, mas, quando tentaram levá-la, recusou-se a deixar-me. — Darko Kerim deu uma estrondosa gargalhada. — Uma interessante lição sobre psicologia feminina, meu caro amigo. Contudo, o problema da jovem é outra história. Enquanto minha mãe se preocupava com ela e recebia em troca apenas uma série de pragas ciganas, eu tinha uma entrevista com meu pai, que não sabia nada sobre esse caso e nunca chegou a saber. Minha mãe era assim. Havia um outro homem com meu pai, um inglês alto e taciturno, que usava uma venda preta sobre um dos olhos. Falavam sobre os russos. O inglês desejava saber o que eles faziam ao longo da fronteira, e o que acontecia em Batum, base naval e petrolífera dos russos, a apenas quinze milhas de Trebizond. Pagaria bem pela informação. Eu sabia inglês e também russo. Tinha bons olhos e bons ouvidos. Possuía um barco. Meu pai decidira que eu devia trabalhar para o inglês. E este, meu caro amigo, era o major Dansey, meu antecessor como chefe desta Estação. E o resto — Kerim fez um amplo gesto agitando a cigarreira — você pode imaginar.
— Mas, e a respeito do treino para lutador profissional?
— Ah — disse Kerim, com malícia — isso foi apenas para despistar. Os que trabalhavam em circos ambulantes eram os únicos turcos que podiam atravessar a fronteira. Os russos não dispensam os circos. Foi muito simples. Eu era o homem que rebentava correntes e levantava pesos com cordas presas aos dentes. Lutei contra os homens mais fortes das aldeias russas. E alguns desses georgianos são gigantescos. Por sorte, são gigantes estúpidos e quase sempre era eu que vencia.
Depois, enquanto bebíamos, havia sempre muita conversa e comentários. Eu fazia um ar de tolo e fingia nada entender. Uma vez ou outra, formulava uma pergunta ingênua, e eles riam da minha ignorância e davam-me' a resposta.
O segundo prato foi servido, acompanhado de uma garrafa de "Kavaklidere", um "burgundy" generoso e rascante como todos os vinhos balcânicos. O "kebab" estava bom e tinha gosto de gordura de toucinho defumado e cebolas. Kerim comeu uma espécie de bife tártaro: uma boa porção de carne moída temperada com pimenta e cebolinha e unida por gema de ovo. Fez Bond provar uma garfada. Era delicioso. Bond concordou.
— Devia comer isto, todos os dias — disse Kerim, com convicção. — É bom para manter a virilidade. Há também certos exercícios para o mesmo fim. Essas coisas são importantes para os homens. Ou, pelo menos, o são para mim. Como meu pai, dou conta de um grande número de mulheres. Mas, e nisso não segui o exemplo dele, também bebo e fumo demais, e isso não combina com o ato amoroso. Nem tampouco o trabalho que faço. Tensão demasiada e muito raciocínio. Leva o sangue à cabeça em vez de dirigi-lo para o lugar devido. Mas, tenho sede de viver. Faço tudo em exagero, ao mesmo tempo. Algum dia, meu coração irá falhar, subitamente. O "caranguejo de ferro" vai me agarrar, como fez com meu pai. Mas, não temo o "caranguejo". Pelo menos, terei morrido de um mal respeitável. Talvez gravem no meu túmulo este epitáfio: "Este homem morreu de tanto viver."
Bond riu. — Não vá cedo demais, Darko — disse ele. — M. ficaria muito aborrecido. Ele o tem no melhor conceito.
— Verdade? — Kerim olhou para o rosto de Bond, para verificar se ele era sincero. Riu com prazer. — Nesse caso, não deixarei ainda que o "caranguejo" leve o meu corpo. — Consultou o relógio. — Vamos, James — disse. Foi bom ter-me lembrado do meu dever. Tomaremos café no escritório. Não há muito tempo a perder. Todos os dias, às 2h30, os russos reúnem-se em conselho de guerra. Hoje, você e eu lhes daremos o prazer da nossa presença às deliberações.
Capítulo 16 — O TÚNEL DOS RATOS
DE volta ao escritório bem arejado, enquanto aguardavam o inevitável café, Kerim abriu um armário embutido e dele tirou diversos macacões azuis, do tipo usado por mecânicos. Kerim tirou a roupa, ficando só de cuecas, e vestiu um deles, calçando a seguir um par de botas de borracha. Bond escolheu um traje que lhe assentou mais ou menos e vestiu-o.
Juntamente com o café, o chefe do escritório trouxe duas possantes lanternas de mão, que colocou sobre a escrivaninha.
Quando ele deixou a sala, Kerim disse: — É um dos meus filhos; o mais velho. Todos os outros que estão lá dentro são também meus filhos. O motorista e o vigia são meus tios. Os laços de família são a melhor segurança. E esse negócio de especiarias é uma boa fachada. Foi M. quem o financiou para mim. Arranjou-o com alguns amigos dele em Londres. Atualmente, sou o maior negociante de especiarias da Turquia. Há muito tempo já reembolsei M. da quantia que me emprestou. Meus filhos são todos sócios. Levam uma vida folgada. Quando há trabalho secreto a ser feito e preciso de ajuda, escolho, dentre eles, o mais adequado para o serviço. Todos foram treinados para diferentes fins. São inteligentes e corajosos. Alguns já mataram por minha causa. Morreriam por mim... e por M. Ensinei-lhes que ele está logo abaixo de Deus. — Kerim fez um gesto de pouco caso. — Mas, isso é apenas para dizer-lhe que estamos em boas mãos.
— Não imaginava outra coisa.
— Ah! — disse Kerim, com indiferença. Apanhou as lanternas e deu uma a Bond. — Vamos ao trabalho.
Kerim dirigiu-se à grande estante envidraçada e enfiou a mão por trás dela. Ouviu-se um estalido e a estante deslizou silenciosa e facilmente para a esquerda, ao longo da parede. Atrás dela havia uma pequena poria, no mesmo nível da parede. Kerim apertou um dos lados da porta e ela abriu-se, revelando um túnel escuro, com degraus de pedra bem íngremes. Um odor de umidade, mesclado ao cheiro fétido de um zôo, invadiu a sala.