— Vá primeiro — disse Kerim. — Desça os degraus, até o fim, e espere. Preciso fechar a porta.
Bond ligou a lanterna, entrou pela abertura e desceu cuidadosamente a escada. O fecho de luz revelou-lhe um trabalho recente de alvenaria e, vinte pés abaixo, o brilho de água. Quando chegou ao fundo, viu que esse brilho era um pequeno riacho que corria pelo esgoto central, no chão de um velho túnel de pedra que subia abruptamente para a direita. À esquerda, o túnel tinha uma queda que, segundo pensou, deveria ir até abaixo da superfície do Golden Horn.
Fora do alcance da luz de Bond, ouvia-se um leve ruído, um contínuo vaivém, e, na escuridão, surgiram centenas de pontinhos luminosos vermelhos que piscavam e se moviam. O espetáculo era o mesmo, tanto para a direita como para a esquerda. A vinte jardas de distância, em ambos os lados, milhares de ratos olhavam para Bond. Farejavam-no. Bond imaginou os pequenos bigodes erguendo-se sobre os dentes. Pensou, por um instante, o que fariam eles se a lanterna se apagasse.
Kerim surgiu ao seu lado, de repente. — É uma longa subida. Um quarto de hora. Espero que goste de .animais. — A gargalhada de Kerim ecoou com estrépito, ao longo do túnel. Os ratos debateram-se. — Infelizmente não há muito o que escolher. Ratos e morcegos. Esquadrilhas e divisões deles; uma força aérea e um exército completos. Temos de empurrá-los à nossa frente. No fim da subida, o trânsito fica muito congestionado. Vamos embora. O ar está bom. O chão está seco em ambos os lados da corrente. Mas, no inverno, quando há enchentes, precisamos roupas de homens-rã. Conserve sua lanterna dirigida para os meus pés. Se um morcego se enroscar no seu cabelo, espante-o. Não será frequente. Têm um ótimo radar.
Iniciaram a íngreme subida. O cheiro dos ratos e do excremento dos morcegos era intenso: um misto de jaula de macaco e galinheiro. Bond imaginou que levaria dias para livrar-se dele.
Pencas de morcegos estavam dependuradas no teto, como cachos de uvas e, quando uma vez ou outra a cabeça de Kerim ou a de Bond roçava contra eles, espalhavam-se guinchando na escuridão. À frente deles, enquanto subiam, a massa de pontinhos vermelhos, correndo e guinchando, tornava-se mais compacta em ambos os lados do esgoto central. Ocasionalmente, a lanterna de Kerim iluminava à frente uma ratazana cinzenta de dentes à mostra e bigodes faiscantes. Quando isso acontecia, um novo frenesi percorria os ratos, e os que estavam mais próximos pulavam nas costas dos outros para escapar. Durante todo o tempo, corpos cinzentos engalfinhados caíam pela valeta central e, à medida que a pressão do alto do túnel aumentava, a retaguarda de ratos enraivecidos se aproximava.
Os dois homens conservaram as lanternas apontadas como armas, até que, após um quarto de hora de subida, chegaram ao seu destino. Era uma comprida saleta de tijolos novos, na parede lateral do túnel. Havia dois bancos em cada lado de um objeto envolto em oleado que descia do teto.
Entraram. Mais algumas jardas, pensou Bond, e a histeria coletiva dominaria os milhares de ratos que estavam no cimo do túnel. A horda recuaria. Por falta de espaço, os ratos desafiariam as luzes e se lançariam contra os dois intrusos, a despeito dos dois focos incandescentes e do odor estranho.
— Veja — disse Kerim.
Houve um momento de silêncio. Lá em cima, no túnel, os guinchos pararam, como a uma ordem de comando. Depois, subitamente, uma onda de corpos cinzentos atirou-se atabalhoadamente pelo túnel abaixo, soltando guinchos agudos.
Durante alguns minutos, o caudaloso rio cinzento correu pelo lado externo da saleta até que, por fim, diminuiu e apenas uns poucos ratos doentes ou machucados passaram mancando pelo chão do túnel.
Os gritos da horda, pouco a pouco, desapareceram em direção ao rio, até que o silêncio completo foi cortado apenas pelo ocasional guincho de um morcego que passava.
Kerim resmungou. — Qualquer dia, esses ratos começarão a morrer. Aí, teremos novamente a peste em Istambul. Às vezes, sinto-me culpado por não avisar as autoridades sobre a existência deste túnel, para que providenciem sua limpeza. Mas não posso fazê-lo enquanto os russos estiverem aqui. — Ergueu a cabeça em direção ao teto. Consultou o relógio. — Temos ainda cinco minutos. Daqui a pouco, estarão tomando seus lugares e mexendo em papéis. Estarão presentes os três membros efetivos; são da M.G.B. ou pode ser que um deles seja do Serviço Secreto do Exército, o G.R.U. E, provavelmente, haverá três outros. Dois chegaram há quinze dias; um entrou pela Grécia, outro pela Pérsia. O outro chegou segunda-feira. Só Deus sabe quem são e o que vieram fazer. Às vezes, a moça, Tatiana, entra com uma mensagem e torna a sair. Esperemos que ela venha hoje. Vai ficar impressionado. É muito bonita.
Kerim desprendeu a capa de oleado e puxou-a para baixo. Bond compreendeu então do que se tratava. A capa protegia a parte inferior, bem polida, de um periscópio de submarino, totalmente erguido. Havia um brilho de umidade na espessa camada de graxa que cobria a parte inferior. Bond achou graça. — Onde arranjou isso, Darko?
— Na Marinha Turca. Sobra de guerra. — O tom de voz de Kerim não animava a novas perguntas. — Agora, o Setor Q. de Londres está tentando adaptar um microfone a esta droga. Não vai ser fácil. A lente superior não é maior do que o fundo de um isqueiro. Quando a levanto, ela chega ao nível do soalho da sala deles. No canto onde ele surge, fizemos um pequeno buraco de rato. Executamos um bom serviço. Uma vez, quando vim espiar, a primeira coisa que vi foi uma grande ratoeira com um pedaço de queijo. Pelo menos, parecia grande através da lente. — A risada de Kerim foi curta. — Mas, não há muito espaço para se adaptar um bom microfone junto à lente. E não há muita esperança de se poder entrar novamente, para mexer nas paredes. O único jeito que consegui, para instalar este aparelho, foi pedir aos meus amigos do Ministério de Obras Públicas que despejassem os russos, por alguns dias. A desculpa foi de que os bondes que sobem a ladeira estavam abalando os alicerces dos prédios. Era necessária uma vistoria. Custou-me algumas centenas de libras para os funcionários certos. O Ministério inspecionou meia dúzia de casas de ambos os lados desta, e liberou o lugar. Por essa época, eu e minha família havíamos terminado o trabalho. Os russos ficaram desconfiados à bessa. Creio que vasculharam toda a casa, ao voltar, procurando microfones, bombas e coisas desse gênero. Mas não podemos aplicar novamente o golpe. Tenho de me contentar em espiá-los, a menos que o Setor Q idealize um plano muito bem feito. Qualquer dia destes, vão-nos revelar alguma coisa útil. Irão interrogar alguém em quem estejamos interessados, ou coisa parecida.
Perto do comando do periscópio, no teto da saleta, estava pendurada uma esfera de metal, do dobro do tamanho de uma bola de futebol. — Que é isso? — perguntou Bond.
— É a parte inferior de uma bomba, das grandes. Se alguma coisa me acontecer, ou se for declarada guerra à Rússia, essa bomba será detonada do meu escritório, por controle remoto. É muito triste — (o rosto de Kerim não demonstrava tristeza alguma) — mas temo que muitos inocentes serão mortos, alem dos russos. Quando o sangue ferve, o homem age como a natureza: não faz seleção.
Kerim estivera entretido em polir os dois visores cobertos, situados entre as maçanetas que saíam de ambos os lados da base do periscópio. Consultou o relógio, abaixou-se, agarrou os manípulos e elevou-os à altura do queixo. Ouviu-se o chiado produzido pelo equipamento hidráulico, quando a haste do periscópio se elevou no seu abrigo, no teto da saleta. Kerim baixou a cabeça, olhou pelas lentes e, depois, suspendeu vagarosamente os manípulos até poder ficar normalmente de pé. Girou com cuidado. Focalizou as lentes e chamou Bond. — Estão apenas os seis.