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C cigano parou de falar. Kerim disse algumas palavras incisivas e aparentemente laudatórias a respeito de Bond, ao mesmo tempo que o apontava com a mão, como se fosse o mestre de cerimônias de um cabaré, anunciando a próxima atração. O cigano dirigiu-se a Bond e examinou-o. Curvou-se bruscamente. Bond imitou-o. O outro proferiu algumas palavras, com um sorriso irônico. Kerim riu e traduziu para Bond. — Ele diz que, se você algum dia ficar sem emprego, deve procurá-lo. Ele lhe dará ocupação: domar as mulheres e executar os inimigos. Grande lisonja para um "gringo", isto é, um estranho. Devia dar-lhe uma resposta.

— Diga-lhe que eu creio que ele não precisa de ajuda nesses assuntos.

Kerim traduziu. O cigano deu um sorriso de polidez. Disse algumas palavras e dirigiu-se para a mesa, ao mesmo tempo que batia palmas, fortemente. Duas mulheres levantaram-se e foram em sua direção. Ele proferiu breves palavras e elas, voltando à mesa, pegaram uma grande travessa de barro e desapareceram por entre as árvores.

Kerim pegou o braço de Bond e chamou-o de lado.

— Viemos numa noite pouco favorável — disse. — O restaurante está fechado. Há problemas de família a serem resolvidos, de maneira drástica e em particular. Mas, sou um velho amigo e fomos convidados a partilhar do jantar. Vai ser desagradável, por isso já mandei vir raque. Depois, podemos assistir, contanto que não tentemos interferir. Espero que entenda, meu amigo. — Kerim apertou o braço de Bond. O que quer que aconteça, não deve interferir nem fazer comentários. Realizaram um julgamento e é preciso fazer justiça, ainda que à maneira deles. É um caso de amor e ciúmes. Duas moças do clã apaixonaram-se por um dos filhos de Vavra. A morte paira no ar. Ambas ameaçam matar uma à outra para ficar com o rapaz. Se ele escolher uma, a que for desprezada jurou matá-lo juntamente com a predileta. Estão num impasse. Há muitas discussões entre os membros do clã. De forma que o rapaz foi mandado para o campo e as duas jovens devem lutar aqui, esta noite, até que uma delas morra. O rapaz concordou em ficar com a vencedora. As duas estão presas em caravanas diferentes. Não vai ser agradável, mas será um grande espetáculo. É um privilégio para nós estarmos presentes. Compreende? Somos "gringos". Vai esquecer o seu cavalheirismo? Não procurará interferir? Se o fizesse, eles o matariam, e provavelmente também a mim.

— Darko — respondeu Bond. — Tenho um amigo francês: chama-se Mathis, e é chefe do "Deuxième". Uma vez, ele me disse: "J'aime les sensations fortes." Sou como ele. Não irei comprometê-lo. Homens lutando contra mulheres, é uma coisa. Mulheres brigando entre si, é outra. Mas, e a respeito da bomba? A que fez explodir o seu escritório. Que disse ele sobre o assunto?

— Foi o chefe dos "Sem Cara". Foi ele mesmo quem a colocou. Foram de bote pelo Golden Horn e ele subiu por uma escada e prendeu a bomba à parede. Foi por azar que não me pegou. O plano fora bem feito. O homem é um "gangster". Um "refugiado" búlgaro chamado Krilencu. Preciso ter um encontro com ele. Deus sabe porque, subitamente, decidiram matar-me, mas não posso permitir esses contratempos. É possível que eu decida entrar em ação ainda esta noite. Sei onde mora. Disse ao meu motorista que voltasse com o equipamento necessário, pensando na possibilidade de Vavra saber a resposta.

Uma jovem muito atraente, envergando um traje antiquado de tecido negro e espesso, tendo ao pescoço um colar de moedas douradas e cerca de dez braceletes finos de ouro em cada pulso, destacou-se da mesa e fez uma profunda e tilintante mesura em frente a Kerim. Disse-lhe algo a que ele respondeu.

— Estamos sendo convidados a participar da mesa — disse Kerim. — Espero que seja perito em comer com os dedos. Vejo que todos eles usam as melhores roupas, esta noite. Essa moça é um bom partido. Usa muitos adereços de ouro. É o seu dote.

Caminharam em direção à mesa. Depois lugares haviam sido arrumados ao lado da cabeceira. Kerim disse algo que soava como um cumprimento amável aos presentes. Estes, em resposta, fizeram-lhe um ligeiro aceno de cabeça. Sentaram-se. Em frente a cada um deles, havia um grande prato com uma espécie de ensopado que cheirava fortemente a alho, uma garrafa de raque, uma jarra de água e uma caneca ordinária. Havia ainda, sobre a mesa, outras garrafas de raque, por abrir. Quando Kerim pegou a que lhe estava à frente e encheu metade da caneca, todos o imitaram. Ele adicionou água e fez um brinde. Bond imitou-o. Kerim fez um breve e veemente discurso e todos ergueram os copos e beberam. 0 ambiente tornou-se menos tenso. Uma velha que estava sentada ao lado de Bond passou-lhe um grande filão de pão e disse alguma coisa. Bond sorriu e respondeu — Obrigado! — Partiu um pedaço e passou o filão a Kerim, que pegava um pedaço de ensopado com o polegar e o indicador. Kerim segurou o pão com uma das mãos, ao mesmo tempo que, com a outra, punha um grande pedaço de carne na boca e a mastigava.

Bond apressava-se em fazer o mesmo, quando Kerim lhe disse em voz baixa e enérgica: — Com a mão direita, James. Este povo usa a mão esquerda para um único fim.

Bond parou a mão esquerda e dirigiu-a para a garrafa de raque mais próxima. Serviu-se de outra caneca e começou a comer com a mão direita. O ensopado estava delicioso, mas escaldando. Bond fazia uma careta toda vez que mergulhava os dedos. Todos o observavam enquanto comiam e, de tempos a tempos, a velha mergulhava os dedos no prato de Bond e escolhia um pedaço.

Depois de haverem esvaziado os pratos, foi colocada entre os dois uma bacia de prata, cheia de água na qual boiavam pétalas de rosas, e uma toalha limpa de linho. Bond lavou os dedos e o queixo engordurado, virou-se para o seu hospedeiro e delicadamente proferiu um agradecimento que foi traduzido por Kerim. Os participantes da mesa murmuraram uma aprovação. O chefe dos ciganos fez-lhe uma curvatura e, usando Kerim como intérprete, respondeu que detestava todos os "gringos", exceto Bond, a quem tinha o orgulho de considerar amigo. Depois, bateu palmas com força, e todos se levantaram da mesa e começaram a arrumar os bancos em torno da pista de danças.

Kerim deu a volta à mesa e foi até Bond. Afastaram-se juntos. — Como se sente? Foram buscar as duas moças.

Bond acenou com a cabeça. Estava gostando. O espetáculo era belo e emocionante: o luar iluminando as figuras que tomavam seus lugares nos bancos, o reflexo de ouro ou pedrarias quando alguém mudava de posição, o espelhado da cerâmica e, ao redor, as árvores como sentinelas montando guarda envoltas em seus mantos de sombra.

Kerim conduziu Bond a um banco ocupado apenas pelo chefe dos ciganos. Tomaram assento à sua direita.

Um gato preto, de olhos verdes, atravessou o pátio em direção a um grupo de crianças que estavam sentadas e atentas como se alguém fosse entrar na pista de danças, a fim de lhes dar uma aula. O gato sentou-se e começou a lamber o peito.

Além do alto muro, um cavalo relinchou. Dois dos ciganos olharam por sobre os ombros em direção ao som, como se entendessem o que o cavalo dissera. Vindo da estrada, soou o tilintar metálico da campainha de uma bicicleta que descia rapidamente a encosta.

O silêncio constrangedor foi quebrado pelo ruído de um cadeado que se abria. A porta escancarou-se com violência e duas mulheres, cuspindo e lutando como gatas selvagens, arremessaram-se em cima da grama, até à pista.

 

Capítulo 18 — SENSAÇÕES FORTES

 

 

A voz do chefe dos ciganos soou enérgica. As moças separaram-se com relutância e o olharam. O cigano começou a falar em tom de severa acusação.