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Kerim levou a mão à boca e sussurrou por trás dela. — Vavra está dizendo que este é um grande clã de ciganos e elas semearam desarmonia dentro dele. Diz que não há lugar para ódios, salvo aos de fora. O ódio que semearam precisa ser purificado, para que todo o clã possa viver novamente em paz. Devem lutar. Se a vencida não for morta, será expulsa para sempre. Será o mesmo que morrer. Este povo definha e morre fora do seu ambiente. Não pode viver em nosso mundo. Ê o mesmo que forçar feras a viver em jaulas.

Enquanto Kerim falava, Bond examinava as duas belas, nervosas e mal-humoradas selvagens, no meio do ringue. Eram ambas morenas, de cabelos negros e maltratados caindo até os ombros, e trajavam roupas esfarrapadas : túnicas rasgadas e com uma profusão de remendos e cerzidos. Uma delas era de maior ossatura e evidentemente mais forte, mas de olhar mortiço e taciturno, e podia não ser muito ágil. Bela, em sentido um tanto leonino, tinha um brilho avermelhado nos olhos de pálpebras pesadas, enquanto ouvia, com impaciência, o que dizia o chefe da tribo. "Ela deve ganhar", pensou Bond. "É mais alta e mais forte".

Enquanto essa moça lembrava uma leoa, a outra parecia uma pantera: esguia e ágil, olhar penetrante e ardiloso, não encarava o interlocutor, mas se desviava para os lados, observando todos os detalhes, e tinha as mãos crispadas como garras. As pernas finas eram musculosas como as de um homem. Os seios eram pequenos, ao contrário dos da outra moça, e mal sobressaíam sob a túnica esfarrapada. "Parece ser uma cadelinha perigosa", pensou Bond. "Certamente será a primeira a dar um golpe. É ágil demais para a outra".

Imediatamente, viu que estava errado. Quando Vavra proferiu a última palavra, a moça alta (Kerim informou que se chamava Zora) lançou o pé para o lado, violentamente e sem fazer pontaria, acertando a outra bem no estômago, e, enquanto esta cambaleava, acertou-lhe um soco no lado da cabeça que a fez cair ao chão.

— "Oi! Vida" — lamentou uma das mulheres que* assistiam à cena. Não precisava ter-se preocupado. Até mesmo Bond podia ver que Vida fingia enquanto jazia no solo, aparentemente desacordada. Podia ver seus olhos brilharem por sob a curva do braço, observando o pé de Zora que violentamente lhe vinha em direção às costelas.

As mãos de Vida juntaram-se. Agarrou o tornozelo da outra e sua cabeça bateu no peito do pé como o bote de uma serpente. Zora deu um grito de dor e tentou furiosamente livrar o pé. Era tarde demais. A outra punha-se de joelhos e depois se erguia, sempre com a presa entre as mãos. Lançou-a para cima, mas o outro pé de Zora ergueu-se e fez que ela caísse violentamente ao chão.

O impacto da queda fez tremer o solo. Por um momento, ficou imóvel. Com um grito animalesco, Vida lançou-se a ela, unhando-a.

"Meu Deus, que gata brava!" — pensou Bond. Ao seu lado, Kerim respirava ruidosamente, por entre os dentes.

Mas Zora protegeu-se com o joelhos e os cotovelos e, finalmente, conseguiu livrar-se de Vida. Pôs-se de pé, cambaleando, e recuou com os dentes à mostra e os trapos da túnica pendendo sobre o belo corpo. Lançou-se novamente ao ataque, com os braços estendidos para agarrar a outra, mas, quando esta se desviou, pegou a gola da túnica e rasgou-a até à bainha. Imediatamente, Vida aninhou-se embaixo dos braços da adversária e atacou-lhe o corpo com os punhos e os joelhos.

Essa tática foi errada. Os braços fortes fecharam-se ao seu redor, prendendo-lhe os seus para evitar que os dedos atingissem os olhos de Zora. Esta, vagarosamente, começou a apertar, enquanto os joelhos e pernas de Vida se debatiam sem resultado algum.

Bond achou que, já então, a maior ganharia. Tudo o que Zora tinha a fazer era cair sobre a outra. A cabeça de Vida bateria contra as pedras e ficaria à mercê da adversária. Mas, subitamente, Zora começou a gritar. Bond viu que a cabeça de Vida estava enterrada no peito da outra. Seus dentes estavam em ação. Os braços de Zora abriram-se enquanto puxava o cabelo da outra, tentando afastá-la de si. Mas, já os braços de Vida estavam livres e batiam contra o corpo de Zora.

As duas separaram-se e recuaram como gatas. Os dois corpos brilhavam por entre os últimos trapos das túnicas, enquanto o sangue escorria do peito nu da mais alta.

Moveram-se cautelosamente, ambas satisfeitas por haverem escapado. Ao girarem, arrancaram os últimos trapos que as cobriam e os atiraram sobre os espectadores.

Bond prendeu a respiração, vendo os dois corpos despidos e brilhantes, e sentiu que Kerim, ao seu lado, ficara tenso. O círculo de ciganos parecia ter-se fechado mais em volta das duas lutadoras. O luar brilhava nos olhos faiscantes e ouvia-se o ruído de respirações ofegantes.

As duas jovens ainda se moviam em círculo, com os dentes à mostra e o fôlego já começando a faltar. A luz refletia-se sobre os seios e o estômago, e também sobre os quadris esguios como os de um rapaz. Os pés deixavam marcas de suor no chão de pedra.

Foi novamente a mais alta, Zora, a primeira a atacar, dando um pulo para a frente, com os braços estendidos como os de um lutador. Mas Vida aparou o bote. O pé direito lançou-se num furioso "coup de savate", que fez um ruído seco como um tiro de pistola. A outra deu um gemido e abaixou-se. Imediatamente, o outro pé de Vida atingiu-a no estômago, seguindo-se um ataque selvagem.

Ouviu-se um murmúrio entre os assistentes, quando Zora caiu de joelhos. Suas mãos tentaram proteger o rosto, mas era tarde demais. A menor a cavalgava e suas mãos prendiam os pulsos de Zora, enquanto se debruçava sobre esta com todo o seu peso, prendendo-a ao solo, e seus dentes brancos dirigiam-se para o pescoço descoberto da adversária.

BUM!

A explosão quebrou o "suspense" como se fosse uma noz. Uma língua de fogo iluminou a escuridão por trás da pista de dança e um pedaço de caliça passou assobiando perto do ouvido de Bond. De repente, o pomar foi invadido por um bando de homens correndo, e o chefe dos ciganos, empunhando o alfanje, projetava-se sobre a pista de pedras. Kerim seguiu-o com um revólver na mão. Quando o cigano passou pelas duas moças, que estavam agora trêmulas e amedrontadas, deu-lhes uma ordem e elas, correndo, desapareceram por entre as árvores, onde as mulheres e crianças desapareciam em meio às sombras.

Bond, empunhando desajeitadamente uma "Beretta", seguiu vagarosamente no encalço de Kerim, em direção ao vasto rombo que havia sido aberto no muro do jardim, enquanto imaginava o que podia ter acontecido.

O gramado, entre o que restava da parede e a pista de danças, estava cheio de pessoas que lutavam e corriam. Foi somente ao aproximar-se que Bond conseguiu distinguir os búlgaros, pequenos e vestidos de maneira comum, dos ciganos trajados à sua moda. Parecia haver maior número de "Sem Cara" do que de ciganos, numa proporção de quase dois para um. Enquanto Bond observava, um jovem cigano destacou-se do grupo, segurando o estômago com as mãos. Cambaleou em direção a Bond, tossindo violentamente. Dois homúnculos morenos correram atrás dele, empunhando facas.

Bond desviou-se instintivamente para o lado, de sorte que não houvesse ninguém por trás dos dois homens. Fez-lhes pontaria nas pernas, logo acima dos joelhos, e disparou por duas vezes. Os dois caíram, sem ruído, de cara na grama.

Duas balas haviam sido gastas. Restavam apenas seis. Bond aproximou-se da briga.

Uma faca passou-lhe assobiando ao lado da cabeça e foi cair na pista de danças. Fora destinada a Kerim, que surgiu das sombras com dois homens em sua perseguição. O segundo parou e levantou a faca para atirá-la, mas Bond disparou da altura dos quadris, sem fazer pontaria, e viu-o cair. O outro homem girou nos calcanhares e escondeu-se entre as árvores, enquanto Kerim caía de joelhos, ao lado de Bond, tentando fazer seu revólver funcionar.

— Dê-me cobertura, — gritou ele. — O primeiro tiro engasgou. São esses malditos búlgaros. Deus sabe o que eles pensam que estão fazendo.