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Bond sentiu-se agarrado à altura da boca e puxado para trás, violentamente. Enquanto caía, sentiu o cheiro de sabão de cinza e nicotina. Uma pesada bota bateu-lhe na nuca. Girou para o lado, na grama, e esperou a dor lancinante de uma facada. Mas os homens, em número de três, perseguiam Kerim e, enquanto Bond se apoiava sobre um joelho, viu aquelas figuras atarracadas caírem sobre o seu amigo, que tentou dar um golpe com a arma inútil e depois desapareceu por debaixo deles.

Ao mesmo tempo, Bond deu um pulo e meteu a coronha da arma numa cabeça redonda e raspada a navalha, enquanto via o lampejo do alfanje do chefe dos ciganos, que se cravava nas costas de outro. Kerim levantou-se, e o terceiro homem fugiu. Mas, de repente, surgiu na abertura do muro um homem que se pôs a gritar ordens, repetidamente, até que todos os atacantes abandonaram a luta, correram em direção a ele e desapareceram na estrada.

— Atire, James, atire! — gritou Kerim. — É Krilencu. — Começou a correr. A arma de Bond deflagrou uma vez. Mas o homem refugiou-se atrás do muro, e trinta j ar das é muita distância para se poder acertar à noite e com uma automática. Enquanto Bond baixava a arma ainda quente, ouviu o som em "stacatto" do esquadrão de lambretas, qual um enxame de vespas, descendo a encosta.

O silêncio era quebrado apenas pelo gemido dos feridos. Bond, apático, observou Kerim e Vavra voltarem pela brecha do muro e passarem por entre os corpos, virando um ou outro com a ponta do pé. Os demais ciganos regressaram da estrada e as mulheres mais velhas surgiram das sombras para cuidar dos seus feridos.

Bond saiu da letargia. Qual seria o motivo de tudo aquilo? Dez ou doze homens haviam sido mortos. Por quê? A quem procuravam atingir? Não a ele, Bond. Quando caíra e estivera à mercê deles, haviam-no ignorado e saído em perseguição a Kerim. Este era o segundo atentado contra seu amigo. Teria alguma coisa a ver com o caso Romanova? Que relação poderia haver?

Bond alertou-se. Disparou a arma por duas vezes, da altura dos quadris. Uma faca bateu, sem causar dano, contra as costas de Kerim. O homem que se erguera dentre os mortos girou sobre si mesmo como um bailarino e caiu de bruços. Bond correu. Atirara na hora. Vira o luar refletido na lâmina e tinha o campo livre para atirar. Kerim contemplou o corpo que estrebuchava. Virou-se para Bond.

Este parou de repente. — Você é louco! — disse zangado. — Não pode ser mais cuidadoso? Devia andar com uma babá. — A zanga de Bond provinha, em grande parte, do fato de saber que fora ele quem trouxera essa ameaça de morte a Kerim.

Darko Kerim sorriu envergonhado. — Isso não fica bem, James. Já salvou muitas vezes a minha vida. Poderíamos ter sido amigos. Agora, a distância entre nós é muito grande. Perdoe-me, pois nunca poderei retribuir-lhe. — Estendeu a mão.

Bond não a aceitou. — Não seja idiota, Darko — disse bruscamente. — Minha arma funcionou. A sua, não. É melhor que arranje uma que funcione. Por amor de Deus, diga-me o que significa tudo isto. Já houve sangue derramado em demasia, esta noite. Estou farto disso. Preciso beber. Vamos acabar aquele raque. — Pegou o amigo pelo braço.

Ao chegarem à mesa, repleta dos restos do jantar, ouviram um grito lancinante que vinha do fundo do pomar. Bond pôs a mão sobre a arma. Kerim sacudiu a cabeça. — Vamos logo saber o que os "Sem Cara" desejavam — disse sombriamente. — Meus amigos estão investigando. Posso imaginar o que vão descobrir. Jamais me perdoarão por estar aqui, esta noite. Cinco dos seus homens foram mortos.

— Poderia também haver uma mulher morta — disse Bond, sem simpatia. — Pelo menos, salvou-lhe a vida. Não seja tolo, Darko. Esses ciganos sabiam o risco que corriam quando começaram a fazer espionagem para você, contra os búlgaros. Era uma guerra de quadrilhas. — Adicionou um pouco de água às duas canecas de raque.

Ambos esvaziaram-nas de um só trago. O chefe dos ciganos aproximou-se, enxugando a ponta do alfanje com um punhado de grama. Sentou-se e aceitou o copo de raque que Bond lhe ofereceu. Parecia muito satisfeito. Bond teve a impressão de que ele achara a luta muito curta. O cigano disse algo, maliciosamente.

Kerim riu. — Ele diz que o julgamento dele foi acertado. Você mata bem. Agora, quer que tome conta dessas duas mulheres.

— Diga-lhe que uma só seria demasiado para mim. Mas diga também que penso que elas são mulheres esplêndidas. Ficaria satisfeito se ele cancelasse a luta e a considerasse empatada. Muitos do seu povo já foram mortos esta noite. Vai precisar que essas duas moças dêem filhos ao clã.

Kerim traduziu. O cigano olhou mal-humorado para Bond e disse algumas palavras ásperas.

— Ele diz que você não lhe devia ter pedido uma coisa tão difícil. Diz que o seu coração é brando demais para um bom lutador. Mas fará o que pede.

O cigano ignorou o sorriso de agradecimento que Bond lhe dirigiu. Começou a falar rapidamente com Kerim, que escutava com atenção e, ocasionalmente, o interrompia com uma pergunta. O nome de Krilencu foi mencionado muitas vezes. Kerim respondeu. Sua voz demonstrava grande pesar e não permitiu que o outro o interrompesse com protestos. Houve uma última referência a Krilencu. Depois, Kerim voltou-se para Bond.

— Meu amigo — disse com frieza. — Dá-se um fato curioso. Pelo que sabemos, os búlgaros receberam ordens para matar Vavra e o maior número possível dos seus homens. Até aí, muito simples. Sabiam que os ciganos trabalhavam para mim. Um método drástico, talvez, mas em matéria de mortes, os russos não têm muita "finesse". Gostam de extermínios coletivos. Vavra era um dos alvos principais. Eu era o outro. Essa declaração de guerra contra a minha pessoa também é compreensível. Mas, parece que você devia ser poupado. Receberam a sua descrição minuciosa para que não cometessem enganos. Isso é estranho. Talvez desejassem evitar complicações diplomáticas. Quem sabe? o ataque foi bem planejado. Subiram a encosta por um atalho e deslizaram por ela com os motores desligados, a fim de que não ouvíssemos o barulho. Este lugar é isolado e não há um só policial por várias milhas ao redor. Considero-me culpado por não lhes haver dado a atenção devida. — Kerim parecia intrigado e triste. Tomou uma decisão. — Já é meia-noite. O "Rolls" deve estar aí. Há ainda um trabalhinho a fazer, antes de irmos para a cama. E já está na hora de deixarmos estes amigos. Têm muito o que fazer antes que amanheça. Há muitos cadáveres para serem jogados ao Bósforo e o muro a ser consertado. Quando amanhecer, todos os vestígios dessa briga devem ter desaparecido. Nosso amigo deseja-lhe felicidades. Convida-o a voltar novamente e diz que Zora e Vida são suas até que os seios delas murchem. Recusa-se a responsabilizar-me pelo que aconteceu. Quer que eu continue a enviar-lhe mais búlgaros. Dez foram mortos, hoje. Gostaria de matar mais. E agora, vamos despedir-nos e partir. É o que se espera de nós. Somos bons amigos, mas também "gringos". Creio que não gostaria que víssemos as mulheres do seu povo chorarem seus mortos.

Kerim estendeu a mão enorme. Vavra tomou-a e, conservando-a entre as suas, fitou os olhos de Kerim. Por um instante, o olhar enérgico pareceu nublar-se. Depois, o cigano largou a mão e voltou-se para Bond. Sua mão era enxuta, áspera e acolchoada como a pata de um animal. Novamente os olhos se nublaram. Largou a mão de Bond. Falou rápida e incisivamente com Kerim e, voltando-lhes as costas, desapareceu entre as árvores.

Ninguém desviou a atenção do que fazia, quando Kerim e Bond passaram pela brecha aberta no muro. O "Rolls", parado do lado oposto da entrada do café, a alguns metros de distância, brilhava ao luar. Um rapaz estava sentado ao lado do motorista. Kerim apontou-o com a mão. — Este é o meu décimo filho. Chama-se Boris. Julguei que poderia precisar dele. E vou.

O rapaz voltou-se e disse: — Boa noite, senhor. — Bond reconheceu nele um dos escriturários que vira no armazém. Era tão moreno e esguio quanto o chefe do escritório, e seus olhos eram também azuis.