— É o cano da nova Winchester 88 — segredou Kerim com orgulho. — Foi adaptada para mim por um sujeito de Ancara. Calibre .308. Curto. Leva três balas. Dê-me a luneta. Quero focalizar bem o alçapão antes que os meus companheiros cheguem à porta da frente. Importa-se, se eu usar o seu ombro como apoio?
— Absolutamente. — Bond passou o telescópio a Kerim, que o adaptou ao cano da arma, apoiando-a sobre o ombro de Bond.
— Estou vendo — sussurrou Kerim. — Exatamente onde Vavra indicou. Ele é um bom auxiliar. — Baixou a arma no momento preciso em que dois policiais surgiram no canto direito do cruzamento. Bond ficou alerta.
— Não se preocupe — segredou Kerim. — É o meu filho junto com o motorista. — Colocou dois dedos na boca. Por uma fração de segundo, emitiu um assobio abafado. Um dos policiais levou a mão à nuca. Depois, os dois guardas afastaram-se pisando ruidosamente com as botas.
— Mais alguns minutos — sussurrou Kerim. — Precisam dar a volta àquele tapume. — Bond sentiu o pesado cano da arma ser colocado novamente sobre seu ombro direito.
O silêncio foi cortado pelo som metálico proveniente do sinaleiro, por trás do tapume. Uma das setas caiu. Uma luzinha verde surgiu no emaranhado das vermelhas. Ouviu-se ao longe o ruído de um trem, vindo dos lados da Ponta Serralho: aproximou-se e definiu-se no resfolegar de uma locomotiva e no clangor de uma série de vagões de carga mal engatados. Ao longo da composição, à esquerda, surgiu uma tênue luzinha amarela. A máquina apareceu vagarosamente acima do tapume.
O trem passou ruidosamente, a caminho de sua viagem de cem milhas até à fronteira grega, como uma silhueta negra contra o mar prateado, impregnando o ar da noite com a fumaça do combustível de má qualidade. As luzes vermelhas dos freios brilharam por um instante e tornaram a desaparecer quando a locomotiva entrou num desvio. Soaram depois dois apitos, que mais pareciam lamentos, indicando a proximidade da pequena estação de Buyuk, à distância de uma milha apenas.
O ruído do trem apagou-se. Bond sentiu aumentar a pressão da arma sobre o ombro. Procurou fixar o alvo, em meio às sombras. Ao centro, via-se um quadrado mais escuro.
Bond levou cautelosamente a mão esquerda aos olhos, para protegê-los contra a claridade do luar. Sentiu um bafejo à altura da orelha direita. — Aí vem ele.
A silhueta de um homem surgiu e ficou dependurada da boca imensa reproduzida no cartaz, por entre os grandes lábios violáceos semi-abertos de êxtase. Parecia um verme saindo da boca de um cadáver.
O homem saltou. Um navio, que se dirigia ao Bósforo, roncou ao longe como um animal insone no Jardim Zoológico. Bond sentiu a testa úmida de suor. A pressão produzida pelo cano do rifle diminuiu quando o homem caiu na calçada e começou a caminhar em direção a eles.
"Quando chegar ao fim da sombra, começará a correr", pensou Bond. "Maldito idiota, esconda-se!"
Agora, o homem preparava-se para atravessar a rua iluminada. Chegara ao limite da sombra. A perna direita estava flexionada e o ombro projetava-se para ganhar impulso.
Bond ouviu o som de um machado cravando-se num tronco de árvore. O homem caiu de bruços, com os braços estendidos. Ouviu-se um barulho seco quando seu queixo, ou talvez a sua testa, bateu contra o solo.
Um cartucho vazio caiu aos pés de Bond. Ouviu o ruído do seguinte penetrando na agulha.
Os dedos do homem arranharam o chão. Seus sapatos bateram contra a calçada. A seguir, ficou absolutamente imóvel.
Kerim resmungou. Tirou o rifle de sobre o ombro de Bond e este percebeu que o amigo dobrava a arma e colocava a luneta no estojo de couro.
Bond desviou o olhar da figura inerte que jazia na rua, a figura de um homem que vivera, mas já não vivia. Sentiu um ímpeto de revolta contra a vida que o obrigava a testemunhar fatos como esse. A revolta não era contra Kerim. Este fora o alvo daquele homem, por duas vezes. De certa forma, parecia um longo duelo, no qual Kerim fora visado duas vezes e atirara apenas uma. Mas fora mais esperto, mais calmo e tivera mais sorte, apenas isso. Bond, porém, nunca matara alguém a sangue-frio e não gostava de ver nem de ajudar quem quer que o fizesse.
Kerim pegou-lhe o braço, em silêncio. Afastaram-se do local e retomaram o caminho pelo qual tinham vindo.
Kerim pareceu adivinhar os pensamentos de Bond. — A vida está repleta de morte, meu amigo — disse, em tom filosófico. — E às vezes, tornamo-nos o instrumento dessa morte. Não me arrependo de matar aquele homem, Nem, tampouco, me arrependeria de matar qualquer um daqueles russos que vimos hoje no escritório. São inflexíveis. Com eles, o que não for conseguido à força não o será por bem. Os russos são todos os mesmos. Gostaria que seu governo compreendesse isso e tomasse uma atitude mais firme. Devia dar-lhes, vez por outra, uma lição de boas maneiras como a que acabei de dar.
— Em questões de política de cúpula, nem sempre se pode agir de maneira tão rápida e eficiente como a sua, Darko. E não se esqueça que atingiu apenas um dos seus satélites, um dos homens que eles contratam para executar seu trabalho sujo. Esteja certo — disse Bond — de que concordo plenamente com sua opinião sobre os russos. Eles não entendem diplomacia. Só obedecem à força. No íntimo, são masoquistas. Adoram o "knut". É por isso que se sentiam tão felizes no governo de Stalin.
Ele aplicava-lhes o chicote. Não estou bem certo de qual será a reação desse povo ante as migalhas de complacência com as quais está sendo alimentado por Kruchev e Cia. Quanto à Inglaterra, o mal é que, hoje em dia, é moda ser-se complacente com todos. No país e no exterior. Já não arreganhamos os dentes. Só mostramos as gengivas.
Kerim riu asperamente, mas não fez comentários. Subiam a ladeira mal-cheirosa e não sobrava fôlego para conversar. Descansaram ao chegar ao cimo da mesma e, depois, dirigiram-se para as árvores da praça Hipódromo.
— Perdoa-me pelo que aconteceu hoje? — A ansiedade era uma nota estranha na voz geralmente tronitroante daquele homenzarrão.
— Perdoá-lo? Perdoá-lo por quê? Não seja ridículo. — A voz de Bond denotava afeto. — Você tem um trabalho a executar e é o que está fazendo. Estou muito bem impressionado. Sua organização é excelente. Sou eu quem devia pedir desculpas. Parece que fui o causador involuntário de uma série de aborrecimentos para você. Livrou-se deles. Fui mero expectador. E continuo em ponto morto na minha missão. M. deve estar impaciente. É possível que haja algum recado no hotel.
Mas, quando Kerim o levou de volta e o acompanhou à portaria, não havia recado nenhum para Bond. Kerim deu-lhe uma palmada nas costas. — Não se preocupe, meu amigo — disse alegremente. — A esperança é bom alimento. Tome-a em grandes doses. Mandarei o carro, pela manhã e, se não houver novidades, pensarei em outras pequenas aventuras para ajudar a passar o tempo. Limpe sua arma e deixe-a descansar. Ambos merecem esse repouso.
Bond subiu os poucos degraus, abriu a porta do quarto e tornou a trancá-la. O luar filtrava-se através das cortinas. Acendeu o abajur cor-de-rosa colocado sobre a penteadeira. Despiu-se, entrou no banheiro e ficou alguns minutos sob o chuveiro. Pensava como o sábado, 14, fora muito mais movimentado do que a sexta-feira, 13. Escovou os dentes e gargarejou com um anti-séptico para livrar-se do gosto amargo que as aventuras do dia lhe haviam impresso. Apagou a luz do banheiro e voltou ao quarto.
Afastou uma cortina, abriu de par em par as janela e ficou contemplando a curva em "boomerang" que a água prateada pelo luar formava. A brisa da noite refrescou-lhe agradàvelmente o corpo nu. Consultou o relógio. Eram duas horas.
Bond deu um longo bocejo. Deixou a cortina cair lentamente. Curvou-se para apagar a luz da mesa de toalete. Subitamente, endireitou-se com o coração palpitando.
Ouvira um riso nervoso vindo das sombras que envolviam o quarto. Uma voz feminina disse: — Pobre Bond! Deve estar muito cansado. Venha para a cama.