A grande etiqueta de bronze ostentada pelo vagão azul-marinho tinha os seguintes dizeres: "COMPAGNIE INTERNATIONALE DES WAGONS-LITS ET DES GRANDS EXPRESS EUROPÉENS". Sobre essa etiqueta havia outra, presa a cantoneiras de metal, com ORIENT EXPRESS escrito em negro sobre fundo branco, e mais abaixo:
ISTAMBUL THESSALONIKI BEOGRAD
VENEZIA MILAN
LAUSANNE PARIS
James Bond olhou vagamente para um dos mais românticos itinerários do mundo. Consultou, pela décima vez, o relógio: 8h51. Seus olhos dirigiram-se novamente para o letreiro. Todas as cidades estavam escritas no idioma original, exceto MILAN. Por que não MILANO? Bond pegou o lenço e enxugou o rosto. Onde estaria a moça? Teria sido apanhada era flagrante? Ter-se-ia arrependido? Ou ele fora brutal demais na noite anterior, ou, melhor dizendo, nessa madrugada, quando estavam ambos na cama?
8h55. O resfolegar da máquina havia parado. Um chiado ecoou pela estação, quando a válvula de descarga automática deu vazão ao excesso de vapor. Por entre a compacta multidão, Bond viu o chefe da estação, a cem jardas de distância, fazer um sinal com a mão para o maquinista e começar a percorrer a composição, batendo as portas dos vagões de terceira classe, situados à frente. Alguns passageiros, em sua maioria camponeses que regressavam à Grécia depois de um fim de semana passado com os parentes da Turquia, debruçavam-se nas janelas tagarelando com a multidão sorridente que os acompanhara.
Mais além, no ponto exato em que as luzes desapareciam para dar lugar à noite estrelada emoldurada pelo arco da estação, Bond viu uma luzinha vermelha transformar-se em verde.
O chefe da estação aproximou-se. O condutor do vagão-leito, envergando um uniforme marrom, bateu no braço de Bond. — Queira embarcar, por favor. — Dois turcos, aparentemente milionários, beijaram suas amantes (eram bonitas demais para serem esposas) e, depois de uma série de risonhas recomendações, subiram no pedestal de ferro e dali para os dois altos degraus do vagão. Não havia outros viajantes que seguissem pelo vagão-leito, na plataforma. O condutor dirigiu um olhar impaciente ao inglês alto, apanhou o pedestal de ferro e levou-o consigo para dentro do trem.
O chefe da estação passou com ar decidido. Mais dois vagões a percorrer, o de primeira e o de segunda classe, e depois, quando chegasse ao último da composição, que era o do guarda-freios, ergueria a imunda flâmula verde.
Não se via nenhuma figura correndo pela plataforma, vinda dos lados do "guichet". Bem acima deste, perto do teto da estação, o ponteiro dos minutos do grande relógio iluminado deu um salto de uma polegada e indicou nove horas.
Bond ouviu uma janela abrir-se, bem acima da cabeça. Olhou rapidamente. A primeira impressão foi de que o véu preto tinha malhas muito abertas. A tentativa de disfarçar a voluptuosa boca e os excitados olhos azuis era própria de uma amadora.
— Depressa.
O trem começara a andar. Bond alcançou o balaústre e pulou para o degrau. O condutor ainda conservava a porta aberta. Bond entrou, sem se apressar.
— Madame atrasou-se — disse o condutor. — Veio pelo corredor. Deve ter entrado pelo último vagão.
Bond encaminhou-se pelo corredor atapetado até à cabine central. Um losango de metal branco ostentava um 8 encimado por um 7, ambos em negro. A porta estava entreaberta. Bond entrou e fechou-a. A jovem tirara o véu e o chapéu de palha preta. Estava sentada a um canto, perto da janela. O longo casaco de pele de marta estava aberto de modo a permitir ver-se um vestido de "shantung" de cor natural, com saia pregueada, meias cor de mel e sapatos e cinto de crocodilo preto. Aparentava calma.
— Você não confia em mim, James.
Bond sentou-se ao seu lado. — Tânia — disse ele — se houvesse um pouco mais de espaço, eu a poria sobre os meus joelhos e lhe daria uma surra. Quase tive uma síncope por sua causa. Que aconteceu?
— Nada — respondeu Tatiana com ar inocente. — Que poderia acontecer? Eu disse que viria, e aqui estou. Você não confia em mim. E, como estou certa de que está mais interessado no meu dote do que em mim mesma, ei-lo aí.
Bond olhou para cima, com displicência. Duas pequenas caixas estavam na rede, ao lado de sua valise. Pegou a mão da jovem. — Graças a Deus, está a salvo.
Algo em seus olhos, talvez uma expressão de culpa por admitir de si para si, que estivera mais interessado na jovem do que propriamente no aparelho, foi o suficiente para acalmá-la. Ela conservou a mão dele entre as suas e recostou-se satisfeita nas almofadas.
O trem deslizou vagarosamente pela Ponta Serralho. O farol iluminou os tetos dos miseráveis casebres ao longo da linha. Bond pegou um cigarro, com a mão que estava livre, e acendeu-o. Pensou que em breve passariam por trás do grande tapume onde Krilencu vivera até há pouco menos de vinte e quatro horas. Reviveu a cena em todos os detalhes. Os cruzamentos iluminados, os dois homens avançando nas sombras, o condenado escorregando por entre os lábios arroxeados.
A jovem contemplou-lhe o rosto, com ternura. No que pensaria esse homem? Que é que se estaria passando por trás daqueles frios olhos cinza-azulados que, às vezes, se tornavam meigos e, outras, como na noite anterior, quando o enlaçava apaixonadamente, brilhavam como diamantes? Agora, estavam sombreados pelos pensamentos. Estaria preocupado com a segurança de ambos? Se ao menos pudesse dizer-lhe que não havia nada a temer e que ele era apenas o passaporte dela para a Inglaterra (dela e daquela caixa pesada que o diretor-residente lhe dera no escritório, antes de partir) ! O diretor usara essa mesma expressão. — Eis aqui o seu passaporte para a Inglaterra, cabo — dissera ele, alegremente. — Veja. — Abrira o fecho "éclair" da capa. — Um "Spektor" novo em folha. Preste bastante atenção para não abrir esta bolsa novamente nem deixá-la sair da sua cabine, até que chegue ao destino. Do contrário, o inglês o tomará e depois a deixará na mão. É o aparelho que ele quer. Não deixe que eles o tirem de você, ou terá falhado em sua missão. Compreendeu?
Um sinaleiro surgiu por entre a névoa azulada. Tatiana contemplou Bond enquanto este baixava a janela e se pendurava para o lado de fora. O corpo dele estava junto ao seu. Moveu o joelho até tocá-lo. Como era extraordinária a apaixonada ternura que a envolvera desde que o vira na noite anterior, despido junto à janela, braços erguidos para afastar as cortinas, o perfil ansioso e pálido, iluminado pelo luar, sob o cabelo preto despenteado! E, a seguir, a maravilhosa fusão dos olhos e dos corpos de ambos. A chama que surgira entre eles, entre os dois agentes secretos, oriundos de setores inimigos, cada qual encarregado de sua missão contra o país do outro, antagonistas por profissão e, contudo, transformados em amantes por ordem dos respectivos países.
Tatiana estendeu a mão e puxou a beira do paletó de Bond. Ele fechou a janela e voltou-se. Deu-lhe um sorriso. Leu-lhe a mensagem expressa nos olhos. Curvou-se, colocou as mãos sobre os seios cobertos pelo casaco de peles e beijou-a nos lábios. Tatiana deitou-se, puxando-o para si.
Ouviram uma leve batida à porta. Bond levantou-se. Tirou o lenço e esfregou com força os lábios, para tirar o batom. — Deve ser o meu amigo Kerim — disse ele. — Preciso falar-lhe. Avisarei o guarda para vir fazer as camas. Fique aqui com ele. Não me demoro. Estarei do lado de fora da porta. — Curvou-se, tocou-lhe a mão e contemplou os grandes olhos e a boca entreaberta, que demonstravam uma expressão de amuo. — Teremos toda a noite só para nós. Preciso agora tratar da sua segurança. — Abriu a porta e saiu.
O vulto imenso de Darko Kerim bloqueava o corredor. Estava apoiado no corrimão de metal, fumando, enquanto contemplava pensativamente o mar de Mármara que se afastava à medida que o trem avançava para o interior, em direção ao norte. Bond apoiou-se no corrimão, ao seu lado. Kerim olhou para o rosto de Bond, refletido na vidraça. Disse em voz baixa: — As novidades não são boas. Há três deles no trem.