— Ah! — um arrepio percorreu a espinha de Bond.
— São os três estranhos que vimos naquele escritório. É evidente que estão atrás de você e da moça. —-Kerim lançou-lhe um olhar de soslaio. — Isso a transforma em cúmplice. Ou acha que não?
O raciocínio de Bond estava calmo. Então, a jovem fora usada como isca. Contudo, não, com mil raios: ela não podia estar fingindo, não era possível. E o aparelho de código? Talvez não estivesse, afinal, naquela bolsa. — Espere um pouco — disse. Virou-se e bateu de leve na porta. Ouviu quando ela a destrancou e soltou a corrente. Entrou e fechou a porta. Ela parecia surpresa. Julgara que fosse o chefe do trem que vinha fazer as camas.
Sorriu alegremente. — Já terminou?
— Sente-se, Tatiana. Preciso falar com você.
Ela reparou na frieza do rosto dele e seu sorriso desapareceu. Sentou-se obedientemente, com as mãos sobre o colo.
Bond ficou em pé, à sua frente. A expressão do rosto dela exprimia culpa ou medo? Não, apenas surpresa e indiferença, para combinar com a dele.
— Escute, Tatiana. — A voz de Bond era inexpressiva. — Aconteceu algo. Preciso examinar aquela bolsa, para ver se o aparelho está lá.
Ela respondeu com indiferença. — Pegue-a e veja. — Contemplou suas mãos. Então, era chegado o momento. Ia acontecer o que o diretor previra. Iam tomar-lhe o aparelho e deixá-la de lado. Talvez até a expulsassem do trem. "Meu Deus! Ele terá a coragem de fazer isso?"
Bond pegou o pesado estojo e colocou-o sobre a poltrona. Correu o fecho e olhou. Sim, ali havia um aparelho de metal, cor cinza, com três fileiras de sete teclas cada uma, parecendo uma máquina de escrever. Abriu a bolsa e mostrou-o a Tatiana. — Isto é um "Spektor"?
Ela olhou distraída para o objeto. — Sim.
Bond tornou a fechar a bolsa e colocou-a na rede. Sentou-se ao lado da jovem. — Há três homens da M. G. B. no trem. Sabemos que são os mesmos que chegaram ao seu centro na segunda-feira. Que fazem eles aqui, Tatiana? — A voz de Bond era suave. Examinou-a. Tentou penetrar-lhe no íntimo.
Ela encarou-o. Seus olhos estavam marejados de lágrimas. Seriam as lágrimas de uma criança apanhada em flagrante? Não, não havia sinal de culpa em seu rosto. Parecia apenas amedrontada por algum motivo.
Ela estendeu-lhe a mão e tornou a recolhê-la. — Não vai me expulsar do trem, agora que já tem o aparelho, não é?
— É claro que não — disse Bond com impaciência. — Não seja tola. Mas precisamos saber o que desejam aqueles homens. Que vieram fazer? Sabia que eles também viriam? — Procurou uma resposta na expressão facial dela. Só pôde notar um grande alívio. E o que mais? Um certo calculismo? Talvez reserva? Sim, ela escondia alguma coisa. Mas, o quê?
Tatiana pareceu decidir-se. Passou bruscamente o dorso da mão nos olhos. Curvou-se e segurou o joelho dele. Sua mão ficara úmida pelas lágrimas. Fitou os olhos de Bond, tentando forçá-lo a dar-lhe crédito.
— James — disse ela. — Eu não sabia que esses homens estariam no trem. Disseram-me que eles partiriam hoje. Para a Alemanha. Pensei que fossem por via aérea. É só o que lhe posso dizer. Enquanto não chegarmos à Inglaterra, onde eu estarei longe do alcance do meu povo, não deve fazer-me mais perguntas. Cumpri o que prometera. Estou aqui com o aparelho. Confie em mim. Não tema pela nossa segurança. Estou certa de que esses homens não nos farão mal algum. Absolutamente certa. Tenha fé. — "Poderia realmente ter tanta certeza?" — pensou Tatiana. Teria a Klebb falado toda a verdade? Mas, também precisava confiar; e confiar nas ordens que recebera. Esses homens deviam ser os guardas que vinham impedi-la de descer do trem. Não vinham com o intuito de lhes fazer mal algum. Mais tarde, quando chegassem a Londres, Bond a esconderia num lugar onde estivesse a salvo da SMERSH e, então, ela lhe diria tudo o que desejasse saber. Já fizera esse propósito. Mas Deus sabia o que lhes poderia acontecer se ela os traísse, agora. Eles dariam um jeito de pegá-la e também a James. Tinha certeza. Não era possível esconder-lhes nada. E eles não teriam piedade. Enquanto agisse de acordo com o combinado, tudo estaria bem. Tatiana procurou no rosto de Bond a confirmação de que ele lhe dava crédito.
Bond encolheu os ombros. Levantou-se. — Não sei o que pensar, Tatiana. Você me oculta alguma coisa, mas creio que é algo cuja importância desconhece. Talvez pense que estamos seguros. ~É possível. Pode ser que esses homens estejam no trem por mera coincidência. Preciso falar com Kerim e decidir o que deve ser feito. Não se preocupe. Tomaremos conta de você. Mas, agora, precisamos ter muita cautela.
Olhou ao redor da cabine. Tentou a porta de comunicação que conduzia ao compartimento contíguo. Estava trancada. Decidiu calçá-la depois que o condutor saísse. Faria o mesmo com a que dava para o corredor. E teria de ficar acordado. Lá se ia a lua-de-mel sobre rodas! Bond sorriu amargamente consigo mesmo e chamou o guarda do trem. Tatiana olhava-o com ansiedade. — Não se preocupe, Tânia — tornou a dizer. — Não se preocupe com coisa nenhuma. Assim que o homem sair, vá para a cama. Não abra a porta, a não ser para mim. Passarei a noite acordado, vigiando. Talvez amanhã seja mais fácil. Farei um plano com Kerim. Ele é um bom sujeito.
O chefe do trem bateu à porta. Bond deixou-o entrar e saiu para o corredor. Kerim ainda estava lá, olhando para fora. O trem adquirira velocidade e corria pela noite com o seu apito melancólico ecoando por entre as paredes de um alto barranco, contra o qual dançava o reflexo das janelas iluminadas dos vagões. Kerim não se moveu, mas seus olhos, refletidos no vidro, estavam atentos.
Bond narrou-lhe a conversa. Não era fácil explicar a Kerim o motivo pelo qual confiava tanto na moça. Viu o sorriso de ironia do amigo ao tentar descrever-lhe o que lera nos olhos de Tatiana e o que sua intuição lhe inspirava.
Kerim suspirou, resignado. — James, agora o caso é por sua conta. Esta parte da missão é sua. Ainda hoje, discutimos muitos desses pontos: o perigo apresentado pelo trem, a possibilidade de enviar-se o aparelho pela mala-postal diplomática, a honestidade ou falsidade dessa jovem. Parece que ela se rendeu incondicionalmente a você. Ao mesmo tempo, você admite que se rendeu a ela. Talvez apenas parcialmente. Mas decidiu dar-lhe crédito. Quando falei ao telefone, hoje cedo, com M., disse-me que apoiaria a decisão que você tomasse. Deixou isso a seu critério. Pois seja. Mas ele não sabia que seríamos seguidos por três agentes da M. G. B. Nem nós tampouco. Se o soubéssemos, creio que teríamos mudado de atitude. Não acha?
— Sim.
— Então a única solução é eliminar esses três homens. Fazer que saiam do trem. Só Deus sabe para que fim vieram. Não acredito em coincidências, nem você. Mas uma coisa é certa: não vamos viajar em companhia desses homens. Está de acordo?
— Claro.
— Então, deixe por minha conta. Ao menos, esta noite. Ainda estamos em nosso país e tenho certos poderes. Tenho também muito dinheiro. Não posso dar-me ao luxo de matá-los. O trem seria detido. Você e a moça poderiam comprometer-se. Mas darei um jeito. Dois deles estão no carro-dormitório. O mais velho, o que usa bigode e um cachimbo, tem a cabine próxima à sua: a de número seis. — Apontou-a com a cabeça. — Está viajando com um passaporte alemão, sob a identidade de "Melchior Benz, vendedor". O moreno, que parece armênio, está no número doze. Também tem um passaporte alemão: "Kurt Goldfarb, engenheiro arquiteto". Compraram passagens para Paris. O terceiro homem, o tal que tem um furúnculo no pescoço, também os tem pelo rosto todo. É um tipo estúpido e feio. Não vi o seu passaporte. Está viajando no vagão de primeira classe, num compartimento próximo ao meu. Ele não precisa entregar o passaporte, a não ser quando chegar à fronteira. Mas entregou a passagem.