Com um ar de conspirador, Kerim tirou do bolso um talão amarelo. Tornou a guardá-lo. Sorriu, orgulhosamente, para Bond.
— Como conseguiu?
Kerim riu. — Antes de acomodar-se para passar a noite, esse idiota foi ao banheiro. Eu estava no corredor e lembrei-me, subitamente, do processo que usávamos para poder viajar, quando eu era garoto. Esperei um minuto. Depois bati à porta. Agarrei o fecho com força. "Bilheteiro", gritei. "Sua passagem, por favor". Falei em francês e repeti em alemão. Ouvi que resmungou lá dentro. Tentou abrir a porta. Prendi-a fortemente, de maneira que pensou que ela estivesse emperrada. "Não se incomode, "Monsieur", disse, delicadamente, "passe o bilhete por baixo da porta". Tornou a forçar o fecho e escutei sua respiração ofegante. Depois houve uma pausa e algo raspou por baixo da porta. Era a passagem. Disse-lhe: "Merci, Monsieur", com toda a polidez. Peguei o bilhete e passei para o vagão seguinte. — Kerim fez um gesto vago com a mão. — Agora, o estupidarrão deve estar dormindo pacificamente. Pensa que sua passagem lhe será devolvida quando chegar à fronteira. Está enganado. A essa altura, o bilhete estava transformado em cinzas, que serão espalhadas aos quatro ventos. — Kerim apontou a escuridão do lado extremo. — Farei que o homem seja expulso do trem, por mais dinheiro que tenha. Dir-lhe-ão que as circunstâncias precisam ser investigadas e seu depoimento confrontado com o da agência que vendeu a passagem. Ser-lhe-á permitido viajar num trem posterior.
Bond sorriu ante o estratagema de Kerim. — Você é único, Darko. E os outros dois?
Darko Kerim encolheu os largos ombros. — Pensarei numa solução — disse com convicção. — O melhor meio de se apanhar um russo é fazê-lo passar por bobo. Deixá-lo sem jeito. Rir dele. Não toleram isso. Faremos que esses homens passem apuros. Depois, deixaremos que a M.G.B. se encarregue de puni-los por haverem falhado. Sem dúvida, serão eliminados por seus próprios comparsas.
Enquanto falavam, o condutor saiu do n.° 7. Kerim voltou-se para Bond e pôs-lhe a mão sobre o ombro. — Não tenha receio, James — disse alegremente. — Nós os derrotaremos. Volte para a sua pequena. Tornaremos a encontrar-nos pela manhã. Não dormiremos muito esta noite, mas isso não pode ser evitado. Todos os dias são diferentes. Talvez possamos dormir amanhã.
Bond observou o homenzarrão afastar-se facilmente pelo corredor. Notou que, a despeito do movimento do trem, os ombros de Kerim nunca encostavam nas paredes. Bond sentiu uma onda de afeto pelo inflexível e exuberante espião.
Kerim desapareceu na cabine do chefe do trem. Bond voltou-se e bateu de leve à porta do n.° 7.
Capítulo 22 — FORA DA TURQUIA
O trem prosseguia envolto pela noite. Bond, sentado, contemplava a fugidia paisagem, iluminada pelo luar, e procurava manter-se acordado.
Tudo conspirava para fazê-lo dormir: o galope rápido das rodas, o passar hipnótico dos postes telegráficos de metal, o apito ocasional e melancólico abrindo caminho, o embalante entrechocar dos engates dos vagões, o estalar da madeira na cabine. Até mesmo a luz violácea, por sobre a porta, parecia dizer: — Eu tomo conta. Nada acontecerá enquanto eu estiver acesa. Feche os olhos e durma, durma.
A cabeça da jovem, sobre o colo, era morna e pesada. Havia o espaço necessário para ele se meter por baixo do lençol, ao seu lado, colocando-se contra as suas costas e mergulhando o rosto na cortina formada pelos seus cabelos, sobre o travesseiro.
Bond apertou os olhos e tornou a abri-los. Levantou o pulso, com todo o cuidado. Eram quatro horas. Faltava apenas uma hora para atingirem a fronteira turca. Talvez conseguisse dormir durante o dia. Daria a ela o revólver, tornaria a calçar as portas e ela ficaria vigiando.
Contemplou-lhe o lindo rosto adormecido. Como parecia inocente essa jovem do Serviço Secreto Soviético, com as pestanas orlando a leve saliência das faces, os lábios entreabertos e relaxados; a longa mecha de cabelo caindo desordenadamente sobre a testa e que ele tinha vontade de arrumar no lugar; a pulsação pausada late-jando no pescoço descoberto. Sentiu-se invadir por um ímpeto de ternura e o desejo de apertá-la fortemente nos braços. Desejava que ela despertasse, talvez de um sonho, a fim de poder beijá-la e dizer-lhe que tudo estava em paz, e vê-la feliz, adormecer novamente.
Ela insistira em dormir dessa forma. — Não durmo sem que você me abrace — dissera. — Preciso senti-lo ao meu lado todo o tempo. Seria horrível acordar e não poder tocá-lo. Por favor, James. Por favor, "duschka".
Bond tirara o paletó e a gravata e se acomodara no canto, com os pés sobre a valise e a "Beretta" sob o travesseiro, ao alcance da mão. Ela não fizera comentários a respeito da arma. Tirara toda a roupa, exceto a fita preta ao redor do pescoço, e procurou não ser provocante enquanto se metia impudicamente sob as cobertas e remexia o corpo em busca de uma posição confortável. Estendera os braços para ele. Bond agarrara-lhe os cabelos, puxando-lhe a cabeça para trás, e dera-lhe um beijo longo e doído. Depois, dissera-lhe que dormisse e, recostando-se, esperara calmamente que seu corpo o deixasse em paz. Resmungando sonolenta, ela se acomodara com um braço estendido sobre as coxas dele. A princípio, ela o segurara com firmeza, mas a pressão foi diminuindo gradualmente à medida que adormeceu.
Bond desviou bruscamente o seu pensamento de Tatiana e concentrou-o na viagem. Em breve, estariam fora da Turquia, mas a Grécia apresentaria menores dificuldades? Não havia muita amizade entre este país e a Inglaterra. E a Iugoslávia? De que lado estaria Tito? Talvez de ambos. Fosse qual fosse o intuito dos três agentes da M.G.B., ou eles já sabiam que Bond e Tatiana estavam no trem, ou ficariam sabendo em breve. Ele e a jovem não podiam permanecer quatro dias dentro da cabine, com as cortinas baixadas. Os russos dariam conhecimento de sua presença a Istambul, telefonando de alguma estação e, pela manhã, descobririam a falta do "Spektor". E depois? Rápidas conferências com a embaixada russa em Atenas ou em Belgrado? Tirar a jovem do trem sob a acusação de furto? Ou tudo isso seria simples demais? Se fosse mais complicado, se tudo fizesse parte de um complexo plano, uma intrincada conspiração russa, devia evitá-la? Seria melhor que a jovem e ele descessem em alguma pequena estação, pelo lado da entrevia, tomassem um táxi e procurassem embarcar num avião para Londres?
Lá fora, a aurora começara a orlar de azul as árvores e as pedras. Bond consultou o relógio de pulso. Cinco horas. Logo chegariam a Uzunkopru — Que estaria acontecendo? Teria Kerim conseguido alguma coisa?
Bond recostou-se e relaxou os músculos. Afinal, a solução para o problema era simples. Se conseguissem livrar-se dos três agentes da M.G.B., ficariam no trem e seguiriam o plano original. Caso contrário, Bond desceria, juntamente com a moça e com o aparelho, em alguma estação grega e traçaria outra rota para regressar. Mas, se as circunstâncias lhe fossem favoráveis, Bond preferia prosseguir. Tanto ele quanto Kerim eram homens de expediente. Seu amigo tinha um agente em Belgrado, que ficara de encontrá-los no trem. E sempre se podia recorrer à embaixada.
A mente de Bond continuava a somar os prós e a eliminar os contras. Apesar do seu raciocínio, Bond admitia que desejava ardentemente jogar a partida até o fim, para ver o resultado. Queria enfrentar seus adversários, solucionar o mistério e, caso fosse algum plano, derrotá-los. M. deixara tudo a seu cargo. Ele se apossara da moça e do aparelho. Por que temer? Qual o motivo para isso? Seria loucura fugir de uma armadilha para talvez cair noutra.
O trem deu um longo apito e começou a diminuir de velocidade.
Partiam para o primeiro "round". Se Kerim falhasse, se os três homens continuassem no trem...