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Uma locomotiva arrastava alguns vagões de carga. Silhuetas de armazéns surgiam e tornavam a desaparecer. Aos pulos e guinchos, o Expresso do Oriente entrou num desvio e deixou a linha principal. Pela janela, viam-se diversos trilhos entremeados de mato e um trecho vazio da plataforma. Um galo cantou. O expresso diminuiu a marcha e, finalmente, parou com um suspiro dos freios a vácuo e um barulhento chiado do vapor que escapava. A jovem adormecida moveu-se. Bond pousou-lhe delicadamente a cabeça sobre o travesseiro, levantou-se e saiu.

A estação era típica do interior balcânico: edifícios de fachada de pedra em estilo sombrio. A plataforma poeirenta ao rés do chão, de maneira a ficar distante do degrau do vagão, algumas galinhas que ciscavam, e uns poucos funcionários indolentes e precisando fazer a barba, que não se davam ao trabalho de parecer importantes. Ao longo dos vagões populares, uma aglomeração de camponeses, carregados de embrulhos e cestas de vime, esperava que os serviços da alfândega e do controle de passaportes lhe permitissem reunir-se à que já estava a bordo.

Bond avistou, do outro lado da plataforma, uma porta com um letreiro marcado "POLIS". Através da janela empoeirada que ficava ao lado da porta, pareceu-lhe ver a cabeça e os ombros de Kerim.

— "Passeports! Douanes!"

Um homem à paisana e dois policiais de uniforme verde-escuro e armados de pistolas entraram pelo corredor. O chefe do trem precedia-os, batendo às portas.

Ao chegarem ao n.° 12, o condutor arengou em turco, em tom indignado, ao mesmo tempo que sacudia um maço de passagens e passaportes e os manuseava como se fossem um baralho. Ao terminar, o paisano chamou os dois policiais, bateu energicamente à porta e, quando esta se abriu, entrou. Os policiais seguiram-no.

Bond adiantou-se. Conseguia ouvir uma torrente de alemão mal falado. Uma voz era inexpressiva, a outra, exaltada, e demonstrava temor. O passaporte e a passagem de Herr Kurt Goldfarb não eram encontrados. Herr Goldfarb os teria retirado da cabine do chefe do trem? É lógico que não. E Herr Goldfarb os teria realmente entregue? Naturalmente. Caso lamentável. Era necessário instaurar um inquérito. Sem dúvida alguma, a legação alemã em Istambul esclareceria o assunto. (Bond sorriu ao ouvir essa questão). Infelizmente, enquanto isso, Herr Goldfarb não poderia prosseguir viagem. Sem dúvida, poderia reiniciá-la no dia seguinte. Herr Goldfarb faria o obséquio de vestir-se. Sua bagagem seria levada para a sala de espera.

O agente da M.G.B. que surgiu no corredor era o caucasiano, o mais novo dos "visitantes". Seu rosto pálido estava cinzento de medo. Os cabelos estavam descompostos e envergava apenas a parte inferior do pijama. Mas não havia nada de cômico na maneira pela qual se atirou pelo corredor. Passou por Bond. Ao chegar à porta da cabine n.° 6, parou e tentou acalmar-se. A porta entreabriu-se, presa à corrente de segurança, e Bond viu de relance um nariz carnudo e parte de um bigode. A corrente foi solta e Goldfarb entrou. Houve silêncio, enquanto o funcionário à paisana consultou os documentos de duas velhotas francesas que viajavam nos n.os 9 e 10 e, depois, os de Bond.

Mal olhou para estes. Fechou-os e passou-os ao chefe do trem. — Viaja em companhia de Kerim Bey?

— perguntou em francês. Seu olhar era vago.

— Sim.

— "Merci, Monsieur. Bon voyage." — O homem cumprimentou-o. Virou-se e bateu com força à porta do n.° 6. Ela se abriu e ele entrou.

Cinco minutos depois, a porta foi escancarada. O funcionário, com ar autoritário, chamou os dois policiais. Falou-lhes energicamente, em turco. Tornou a voltar-se para a cabine. — Considere-se preso, "mein Herr". Tentativa de suborno de funcionários é um grave crime na Turquia. — Houve um caloroso protesto expresso pelo deficiente alemão de Goldfarb. Foi interrompido por uma frase enérgica em russo. O Goldfarb que saiu da cabine era um homem diferente, com olhar alucinado: caminhou cegamente pelo corredor e entrou na de n.° 12. Um policial postou-se à porta e esperou.

— E os seus documentos, "mein Herr"? Queira adiantar-se. Preciso confrontá-lo com esta fotografia.

— O funcionário virou o passaporte de capa verde em direção à luz. — Mais para a frente, por favor.

A contragosto, com o rosto lívido de raiva, o agente da M.G.B. que viajava sob o pseudônimo de Benz, saiu para o corredor, envergando um "chambre" de seda azul. Seus olhos castanhos olharam duramente para Bond, sem dar sinal de reconhecimento.

O funcionário fechou o passaporte e entregou-o ao condutor. — Seus documentos estão em ordem, "mein Herr". E agora, por favor, sua bagagem. — Entrou, seguido pelo outro policial. O agente da M.G.B. deu as costas a Bond e observou a busca.

Bond notou o volume sob o braço esquerdo e o contorno de uma cartucheira à cintura, sob o chambre. Pensou em avisar o funcionário. Achou melhor ficar quieto. Poderia ser citado como testemunha.

A inspeção terminara. O funcionário fez um cumprimento gélido e prosseguiu pelo corredor. O agente russo voltou à cabine e bateu a porta.

"Que pena", pensou Bond. Um conseguira escapar.

Bond voltou-se, novamente, para a janela. Um homem robusto, usando um chapéu coco de cor e, com um furúnculo na nuca, estava sendo escoltado em direção à porta marcada "POLIS". No fim do corredor, uma porta foi fechada bruscamente. Goldfarb, seguido pelo policial, desceu do trem. Cabisbaixo, atravessou a plataforma poeirenta e entrou por aquela mesma porta.

A locomotiva apitou, de maneira diferente, pois já agora era um grego o maquinista. A porta do vagão-dormitório foi fechada. O funcionário à paisana e o policial dirigiram-se para a estação. O guarda, à retaguarda da composição, consultou o relógio e ergueu a bandeirola. Com um solavanco e uma série de bafos, a primeira secção do Expresso do Oriente começou a mover-se. A outra, que iria tomar o rumo norte, através da "Cortina de ferro", passando por Svilengrad, na fronteira búlgara, a apenas cinquenta milhas de distância, ficou à espera, junto à plataforma poeirenta.

Bond abaixou a vidraça e lançou um último olhar à fronteira turca, onde dois homens, sentados numa sala, aguardavam o equivalente de uma sentença de morte. "Dois a menos", pensou. Sua chance era maior.

Ficou observando a plataforma empoeirada, com suas galinhas e a figura atarracada do chefe da estação, até que o trem deixou o desvio e entrou bruscamente na linha principal. Contemplou a paisagem árida e o sol que se erguia sobre a planície. O dia prometia" ser bonito.

O vento da manhã era fresco. Bond meteu a cabeça para dentro e cerrou a janela.

Já decidira. Ficaria no trem até o fim.

 

Capítulo 23 — FORA DA GRÉCIA

 

 

DEPOIS do café servido no pequeno "buffet" de Pithion (não haveria carro-restaurante até o meio-dia), e de uma vistoria informal das secções gregas da Alfândega e do controle de passaportes, as camas foram fechadas, enquanto o trem corria para o sul em direção ao golfo de Enez, à cabeceira do Egeu. Lá fora, o dia era radioso. A atmosfera era mais seca. Os homens que se viam nas estações e nos campos eram simpáticos. Viam-se girassóis, milho, videiras e folhas de fumo, secando ao sol. Como Darko dissera, era um novo dia.

Bond lavou-se e fez a barba, enquanto Tatiana o observava, divertida. Ela aprovou que ele não usasse óleo no cabelo. — É um hábito sujo — disse ela. — Soube que muitos europeus o adotam. Na Rússia não fazemos isso. Suja os travesseiros. Mas é estranho que vocês, ocidentais, não usem perfume. Todos os homens russos usam.

— Nós tomamos banho — respondeu Bond, secamente.

Enquanto ela protestava com veemência, ouviram uma batida à porta. Era Kerim. Bond deixou-o entrar. Kerim curvou-se para a jovem. — Que cena doméstica, encantadora — disse alegremente, enquanto acomodava sua imensa estatura no canto perto da porta. — Nunca vi um casal de espiões tão belos.