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Tatiana olhou-o, indignada. — Não estou acostumada aos gracejos ocidentais — disse, friamente.

A risada de Kerim foi desarmadora. — Vai aprender, minha cara. Os ingleses são ótimos humoristas. Gracejam a propósito de tudo. Também eu aprendi a gracejar. É bom para lubrificar o maquinismo. Já ri muito esta manhã. Aqueles pobres coitados em Uzonkopru. Gostaria de estar lá quando a policia telefonou para o consulado alemão em Istambul. Esse é o inconveniente de passaportes falsos. Não são difíceis de fazer, mas é quase impossível falsificar o atestado de nascimento: aquele que fica registrado no país de origem. Temo que a carreira dos seus dois camaradas tenha chegado a um triste fim, senhora Somerset.

— Como conseguiu? — Bond dava o nó na gravata.

— Dinheiro e influência. Quinhentos dólares para o chefe do trem. Uma conversa importante com a polícia. Por sorte, o nosso amigo tentou o suborno. Foi uma pena que escapasse esse espertalhão que é o seu vizinho Benz — acenou em direção à parede. — Não pude usar o truque do passaporte duas vezes. Precisamos tapeá-lo de outra forma. O homem dos furúnculos foi fácil. Ele não sabia falar alemão e viajar sem passagem é coisa séria. Bem, o dia começou promissor. Ganhamos o primeiro "round", mas o nosso amigo da cabine pegada vai agora ser muito cauteloso. Ele já sabe com quem lida. Talvez seja melhor assim. Seria muito aborrecido que vocês tivessem de ficar na cabine, durante todo o tempo. Agora, já podemos sair e até mesmo almoçar juntos, desde que levem com vocês as jóias da família. Precisamos estar de sobreaviso para impedir que ele telefone de alguma estação. Mas, duvido que consiga alguma coisa com o serviço interurbano grego. Provavelmente, vai esperar até chegarmos à Iugoslávia. Mas lá, eu tenho a nossa organização. Poderemos obter reforços, se acharmos necessário. A viagem promete ser muito interessante. Há sempre uma aventura no Expresso do Oriente — Kerim levantou-se, abriu a porta — ... e romance. — Deu-lhes um sorriso. — Virei buscá-los à hora do almoço! A comida grega é pior do que a turca, mas até o nosso estômago está a serviço da rainha.

Bond levantou-se e fechou a porta. Tatiana desabafou: — Seu amigo não é "kulturny"! Não é leal referir-se à rainha dessa maneira.

Bond sentou-se ao seu lado. — Tânia — disse, pacientemente — ele é um excelente homem. É também um bom amigo. No que me concerne, ele pode falar o que quiser. Ele tem ciúmes de mim. Gostaria de ter uma pequena como você. É por isso que a provoca. B

uma forma de flertar. Devia tomá-lo como um cumprimento.

— Acha mesmo? — encarou-o com seus grandes olhos azuis. — Mas aquela frase sobre o estômago e a soberana de seu país foi uma falta de respeito. Se alguém falasse uma coisa dessas na Rússia, seria considerado mal educado.

Ainda discutiam, quando o trem chegou à ensolarada estação de Alexandrópolis, infestada de moscas. Bond abriu a porta que dava para o corredor, deixando entrar o sol que se refletia no mar, fundindo-se quase, sem linha de horizonte, com o céu da cor da bandeira grega.

Enquanto almoçavam, Bond conservou a pesada sacola entre os pés, sob a mesa. Kerim logo fez camaradagem com a moça. Benz, o agente da M.G.B.. não compareceu ao carro-restaurante. Viram-no na plataforma, comprando sanduíches e cerveja num "buffet" ambulante. Kerim sugeriu que ele fosse convidado para parceiro de bridge. Bond logo sentiu-se cansado, e essa sensação fez que tivesse a impressão de que estavam transformando a perigosa viagem em brincadeira. Tatiana percebeu-lhe o silêncio. Levantou-se e disse que precisava descansar. Enquanto deixavam o carro-restaurante, ouviram Kerim pedir alegremente, conhaque e charutos.

Chegados à cabine, Tatiana falou com firmeza: — Agora, é você quem vai dormir. — Correu a cortina, deixando lá fora a luz da tarde e os intermináveis campos de milho, fumo e flores murchas. A cabine transformou-se numa caverna verde-escuro. Bond calçou as portas, deu a ela o seu revólver e, depois de deitar a cabeça em seu colo, adormeceu, imediatamente.

O comboio serpeou pelo norte da Grécia, ao longo da base das montanhas Rhodope. Passou por Xanthi, Drama, Serrai e, chegando às planícies da Macedônia, tomou o rumo sul em direção a Salônica.

Já entardecia quando Bond acordou no macio berço que era o colo de Tatiana. Imediatamente, como se estivesse aguardando esse momento, ela tomou-lhe o rosto entre as mãos, fitou-o nos olhos e perguntou ansiosamente: — "Duchka", por quanto tempo teremos isto?

— Por muito tempo. — Bond ainda estava estremunhado.

— Mas, por quanto tempo?

Bond mirou-lhe os belos olhos preocupados. Espantou o sono. Era impossível ver além dos três dias que lhes restavam no trem e além da chegada a Londres. Era preciso admitir o fato de que a jovem era um agente inimigo. Os sentimentos dela não teriam interesse para os inquisidores do Serviço Secreto e dos Ministérios. Outros departamentos de espionagem iriam querer saber o que essa moça tinha a dizer sobre a organização para a qual trabalhava. Provavelmente, ao chegar a Dover ela seria conduzida à "Gaiola", que era uma casa bem guardada perto de Guildford, onde seria instalada num quarto confortável, mas repleto de microfones. E os eficientes agentes civis viriam, um a um, para conversar com ela, enquanto o gravador funcionaria no quarto contíguo e as conversas seriam transcritas e examinadas em busca de novas provas e, naturalmente, de contradições que pudessem incriminá-la. Talvez a apresentassem a um chamariz: uma simpática moça russa que se compadeceria da situação de Tatiana e se ofereceria para ajudá-la numa fuga, numa vingança, ou para levar a seus pais notícias "inofensivas". Isso poderia levar semanas ou meses. Bond seria mantido à distância com todo o tato, a menos que os inquisidores achassem que ele poderia arrancar-lhe melhores informações explorando o lado sentimental. E depois? Um nome suposto, um oferecimento para começar vida nova no Canadá, uma pensão de mil libras por ano, paga pelo Serviço Secreto? E onde estaria ele, ao fim de tudo isso? Talvez, no outro lado do mundo. Ou, se ainda estivesse em Londres, poderia o amor que Tatiana lhe devotava sobreviver aos vexames? Será que ela não detestaria os ingleses depois de passar por tantas coisas? E, a propósito, seriam os mesmos seus sentimentos para com ela?

— "Duchka" — repetiu Tatiana, com impaciência. — Por quanto tempo?

— Pelo maior tempo possível. Depende de nós. Muitas pessoas irão interferir. Seremos separados. Não será sempre como agora, que estamos fechados neste quartinho. Dentro de alguns dias, precisaremos enfrentar o mundo. Seria tolice tentar enganá-la. O rosto de Tatiana desanuviou-se. Deu-lhe um sorriso. — Você tem razão. Não farei mais perguntas tolas. Mas não devemos perder tempo nestes dias que nos restam. — Ela levantou-lhe a cabeça, ergueu-se e deitou-se ao lado dele. Uma hora depois, quando Bond já estava no corredor, Darko Kerim surgiu ao seu lado. Examinou o rosto de Bond. Disse, com malícia: — Não devia dormir tanto. Deixou de ver a histórica paisagem do norte da Grécia. E já está na hora do "premier service".

— Você só pensa em comida — comentou Bond. Fez um sinal com a cabeça, em direção à cabine contígua. — E o nosso amigo?

— Não deu sinal de vida. O chefe do trem o tem vigiado para mim. Esse camarada acaba por tornar-se o funcionário mais rico da companhia. Quinhentos dólares pelos documentos de Goldfarb e, agora, mais cem dólares por dia, até o fim da viagem. — Kerim riu. — Disse-lhe que poderia até ser condecorado por serviços prestados à Turquia. Ele pensa que estamos caçando um bando de contrabandistas. Eles usam sempre o Expresso para levar ópio da Turquia para Paris. Não se surpreende, apenas está satisfeito pela oportunidade de ganhar tanto dinheiro. E você, descobriu mais alguma coisa sobre a sua princesa russa? Ainda não estou sossegado. Tudo está calmo demais. É possível que os dois homens que deixamos para trás estivessem fazendo uma inocente viagem para Berlim, como ela disse. Esse tal Benz pode estar recolhido à cabine por nos temer. A viagem corre normalmente. Mas, ainda assim... — Kerim sacudiu a cabeça. — Os russos são grandes jogadores de xadrez. Quando desejam por em execução um plano, fazem-no brilhantemente. O jogo é minuciosamente planejado e as jogadas do adversário são previstas e contra-atacadas. — O rosto de Kerim tornou-se sombrio.